Catequese e Liturgia – Parte 38: “A educação para o simbólico e ritual”

Por Pe. Vanildo de Paiva

I

O simbólico no nosso dia a dia

Um simples cafezinho, oferecido com espírito de acolhida e generosidade, pode dizer infinitamente mais do que muitos discursos sobre a amizade. O bilhetinho do primeiro amor, guardado a sete chaves; a toalha bordada à mão pela avó; e aquela caneca de metal esmaltado, a preferida do papai, são exemplos de que as coisas falam à nossa mente e, principalmente, ao nosso coração. Elas tornam as pessoas e acontecimentos eternos para nós… 

Assim, o simbólico está presente em toda a nossa vida e nos dá condições de nos relacionarmos com o mundo e, especialmente, com as outras pessoas. Os símbolos são atalhos que facilitam a expressão de nossas idéias e sentimentos. Um símbolo tem o poder de transpor barreiras e evidenciar o que está escondido dentro de nós. O gesto de dar uma flor, por exemplo, pode ter sentidos múltiplos. Só quem oferece ou quem recebe a flor pode captar todo o significado desse gesto tão comum e, ao mesmo tempo, tão especial. 

O simbólico na vida religiosa

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Na experiência religiosa e mística, os símbolos ocupam lugar especial. Para nós, cristãos, a cruz condensa em si a grandeza do amor de Cristo, que fez dela instrumento de nossa salvação. É muito fácil entender que a luz de uma vela nos comunica a certeza da presença de Deus, experimentada pela fé, ou a mensagem de que a vida sempre triunfa. A água evoca a bênção poderosa de Deus, que dá a vida, nos sacia de graças e renova a nossa existência com seu amor, e assim por diante. 

Os sinais sagrados permeiam nossa vida de fé e nos ajudam a expressá-la e aprofundá-la. A Catequese e a Liturgia, ao nos possibilitarem a experiência do sentido dos símbolos, vinculando-os ao Mistério Pascal de Cristo e do cristão, criam os ritos, organizam as celebrações e nos fazem perceber os constantes apelos de Deus em nosso cotidiano. 

O poder do símbolo

O poder do símbolo vai muito além da dimensão racional da pessoa. Ele a envolve por inteira: corpo, mente, espírito, afetos, emoções… Sentimentos e pensamentos que nem sempre são expressos convenientemente por palavras ou definições, o são rapidamente pela mediação simbólica. Muitas vezes se diz mais do que se queria dizer, ou o que nem se queria dizer, através de um símbolo ou de um gesto. O símbolo dispensa muitas interpretações impostas por conveniências. Fala por si mesmo e nisso reside toda a sua riqueza. Não é fechado no seu sentido, ainda que, numa determinada cultura ou grupo, seu significado possa ser partilhado e tornado comum. Querer explicar um símbolo é, de alguma maneira, empobrecê-lo. É bom deixar que ele fale por si mesmo. 

Um objeto, sinal ou gesto, é simbólico quando congrega as pessoas, faz com que comunguem idéias e sentimentos semelhantes e partilhem um chão comum de valores. Não nivela, mas aproxima e cria unidade. Não dispersa e nem confunde. Isso seria diabólico, e não simbólico. Diabólico, no sentido exato do termo, é tudo aquilo que dispersa, dificulta a unidade, afasta as pessoas. Como diz São João, o diabo é o pai da mentira( cf. Jo 8,44). 

II

O simbólico como expressão da fé

Nossa experiência religiosa é marcada por inúmeros símbolos que a compõem e a possibilitam. Toda religião precisa sempre de ritos, livros e objetos sagrados, sons e outros elementos que  funcionem como pontes que levam a pessoa ao encontro do Transcendente ou lhe expressem essa relação espiritual. 

O Cristianismo é uma religião na qual os símbolos têm fundamental importância. É muito difícil, senão impossível, imaginar o Catolicismo sem a cruz, as velas, o incenso, o pão, o vinho, a água abençoada, o óleo, as imagens…Eles deixam transparecer o convite generoso de Deus à comunhão com Ele e seu desejo de que tenhamos uma vida feliz. Chamam-nos à profundidade do Mistério e despertam em nós a vontade de irmos ao seu encontro.

 

Interior da Capela dos jesuítas, São Paulo

O símbolo sagrado tem o poder de representar, no seu aspecto sensível, realidades invisíveis. Deus, que não vemos e não tocamos, pode ser evocado e tornar-se presente na vida de quem crê, pela mediação simbólica. Comemos o Pão consagrado e experimentamos a presença do Ressuscitado em nós. Assimilamos seu corpo e sua missão. Tornamo-nos hóstias para o mundo, gerando comunhão e espalhando as sementes da vida. 

O corpo como lugar teológico 

É comum nós ouvirmos dizer que “o corpo fala”. Sem o corpo, a pessoa não pode estar presente no mundo e trazer o mundo para dentro de si, dar significado aos sinais sensíveis, comunicar-se com os outros, no dom de si e na acolhida do próximo como dom, revelar a riqueza de seu espírito. 

Fazer com que o corpo seja experimentado como lugar teológico é missão e desafio para a catequese e para a Liturgia. “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16), já dizia São Paulo. É necessário relembrar também hoje: o nosso corpo é lugar da presença de Deus. Respeitar o corpo próprio e o alheio, tratá-lo com dignidade, valorizar o irmão empobrecido para que seu corpo não padeça as conseqüências da miséria, são verdadeiras experiências do Deus da vida e do amor. 

Sendo o corpo a “estampa da alma”, a expressão do homem e da mulher interiores, também ele é um meio importantíssimo para a oração, a celebração da fé, o louvor de Deus. Infelizmente, ainda não sabemos celebrar com todo o nosso ser, incluindo as manifestações corporais. Estamos caminhando para isso, mas esbarramos em inúmeras dificuldades.  Fomos acostumados a rezar com palavras e idéias. Muitas vezes o corpo até se torna um incômodo, apresenta dificuldades. Nossas liturgias tradicionais privilegiaram o discurso racional e teorizaram a experiência de Deus. Os poucos gestos sugeridos pela liturgia foram enquadrados nas rubricas e normas a serem estritamente observadas, funcionando como uma camisa de força. A visão moral de que o corpo era ocasião de pecado levou a uma exclusão quase total da expressão corporal espontânea dos ritos litúrgicos, sem falar de outras conseqüências dessa concepção. 

Os símbolos, que ocupam dimensão importante da experiência ritual, poderão ser melhor compreendidos, se fizerem parte do dia-a-dia dos catequizandos e da assembléia celebrante. Para isso, a catequese pode e deve trabalhar com os sinais sagrados, introduzindo os catequizandos ao seu sentido, sem a pretensão de esgotá-lo. Há muitas maneiras de se acender uma vela, por exemplo. Pode-se simplesmente riscar um fósforo, sem nenhuma “cerimônia’”, como também se pode explorar seu significado mais profundo pelo tato, pela visão da luz, pelo calor… sobretudo, pela fé, é possível que ela deixe de ser um amontoado de cera para significar a presença iluminadora de Deus, que guia, orienta, aquece a nossa vida. Isso vale também para a cruz, o pão, o vinho, as flores, a água, as cores, etc. O mesmo vale para os gestos e expressões corporais. 

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Pe. Vanildo Paiva é Mestre em Psicologia e especialista em Liturgia e Catequese. Autor do livro “Catequese e Liturgia: duas faces do mesmo mistério”
Colaborou Catequese Hoje

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