Rodas de Conversa – Parte 7: “É Permitido celebrar a Eucaristia com Pão Ázimo? Ou só com a Hóstia?”

Por Hermes Fernandes

Conforme o costume, recebemos via e-mail disponibilizado em nosso blog na descrição, isto é, lá em QUEM SOMOS; a pergunta da senhora Ana Lúcia Amâncio, de Porto Ferreira, SP:

“Participei de um retiro e a missa foi celebrada não com a hóstia tradicional, mas com aquele pão ázimo, que podemos encontrar em panificadoras. Fiquei na dúvida se ali estava Jesus Sacramentado. Já que nunca vi celebrar a Missa, a não ser com a hóstia. Pode me dizer se é ou não correto?”

Muito bem! Sempre que recebemos perguntas de nossos leitores, buscamos resposta a partir do Magistério. Quer pela exegese e teologia bíblicas, quer pelos documentos e formações disponíveis pelos documentos e estudos oficiais da Igreja. Neste sentido, transcrevemos abaixo a carta-circular a respeito do pão e do vinho da Eucaristia, enviada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos aos bispos, arcebispos; por solicitação do Santo Padre, o Papa Francisco. A data desta carta-circular, que tem status de documento regulador, é de 15 de Junho de 2017. Portanto, corresponde ao Magistério da Igreja atualizado.

Carta-circular aos Bispos sobre o pão e o vinho para a Eucaristia

A Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, por determinação do Santo Padre Francisco, dirige-se aos Bispos diocesanos (ou aqueles que pelo direito lhe são equiparados) recordar-lhes que lhes compete providenciar dignamente tudo aquilo que é necessário para a celebração da Ceia do Senhor (cf. Lc 22,8.13). Ao Bispo, primeiro dispensador dos mistérios de Deus, moderador, promotor e garantia da fidelidade da vida litúrgica na Igreja que lhe está confiada (cf. CIC can. 835 §1), compete-lhe vigiar a qualidade do pão e do vinho destinado à Eucaristia e, por isso, também, aqueles que o fabricam. A fim de ser uma ajuda, lembramos as normas existentes e sugerem-se algumas indicações práticas.

Enquanto até agora, de um modo geral, algumas comunidades religiosas dedicavam-se a preparar com cuidado o pão e o vinho para a celebração da Eucaristia, hoje estes vendem-se, também, em supermercados, lojas ou mesmo pela internet. Para que não fiquem dúvidas acerca da validade desta matéria eucarística, este Dicastério sugere aos Ordinários que deem indicações a este respeito; por exemplo, garantindo a matéria eucarística mediante a concessão de certificados.

O Ordinário deve recordar aos sacerdotes, em particular aos párocos e aos reitores das igrejas, a sua responsabilidade em verificar quem é que fabrica o pão e o vinho para a celebração e a conformidade da matéria.

Compete ao Ordinário informar e advertir para o respeito absoluto das normas os produtores de vinho e do pão para a Eucaristia.

As normas acerca da matéria eucarística indicadas no can. 924 do CIC e nos números 319 a 323 da Institutio generalis Missalis Romani, foram já explicadas na Instrução Redemptionis Sacramentum desta Congregação (25 de Março de 2004):

a) “O pão que se utiliza no santo Sacrifício da Eucaristia deve ser ázimo, unicamente feito de trigo, confeccionado recentemente, para que não haja nenhum perigo de que se estrague por ultrapassar o prazo de validade. Por conseguinte, não pode constituir matéria válida, para a realização do Sacrifício e do Sacramento eucarístico, o pão elaborado com outras substâncias, embora sejam cereais, nem mesmo levando a mistura de uma substância diversa do trigo, em tal quantidade que, de acordo com a classificação comum, não se pode chamar pão de trigo. É um abuso grave introduzir, na fabricação do pão para a Eucaristia, outras substâncias como frutas, açúcar ou mel. Pressupõe-se que as hóstias são confeccionadas por pessoas que, não só se distinguem pela sua honestidade, mas que, além disso, sejam peritas na sua confecção e disponham dos instrumentos adequados” (n. 48).

b) “O vinho que se utiliza na celebração do santo Sacrifício eucarístico deve ser natural, do fruto da videira, puro e dentro da validade, sem mistura de substâncias estranhas… Tenha-se diligente cuidado para que o vinho destinado à Eucaristia se conserve em perfeito estado de validade e não se avinagre. Está totalmente proibido utilizar um vinho de quem se tem dúvida quanto ao seu caráter genuíno ou à sua procedência, pois a Igreja exige certeza sobre as condições necessárias para a validade dos sacramentos. Não se deve admitir sob nenhum pretexto outras bebidas de qualquer género, pois não constituem matéria válida” (n. 50).

A Congregação para a Doutrina da Fé, na sua Carta-circular aos Presidentes das Conferências Episcopais acerca do uso do pão com pouca quantidade de glúten e do mosto como matéria eucarística (24 de Julho de 2003, Prot. n. 89/78-17498), indicou as normas para as pessoas que, por diversos e graves motivos, não podem consumir pão normalmente confeccionado ou vinho normalmente fermentado:

“As hóstias completamente sem glúten são matéria inválida para a eucaristia. São matéria válida as hóstias parcialmente desprovidas de glúten, de modo que nelas esteja presente uma quantidade de glúten suficiente para obter a panificação, sem acréscimo de substâncias estranhas e sem recorrer a procedimentos tais que desnaturem o pão” (A. 1-2).


“Mosto, isto é, o sumo de uva, quer fresco quer conservado, de modo a interromper a fermentação mediante métodos que não lhe alterem a natureza (p. ex., o congelamento), é matéria válida para a eucaristia” (A. 3). “Os Ordinários têm competência para conceder a licença de usar pão com baixo teor de glúten ou mosto como matéria da Eucaristia em favor de um fiel ou de um sacerdote. A licença pode ser outorgada habitualmente, até que dure a situação que motivou a concessão” C. 1).

Por outro lado, a mesma Congregação decidiu que a matéria eucarística confeccionada com organismos geneticamente modificados pode ser considerada válida (cf. Carta ao Perfeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, 9 de Dezembro de 2013, Prot. n. 89/78 – 44897).

Aqueles que confeccionam o pão e produzem o vinho para a celebração, devem ter a consciência de que o seu trabalho destina-se ao Sacrifício Eucarístico, e por isso, é-lhes requerido honestidade, responsabilidade e competência.

Para que sejam observadas as normas gerais, os Ordinários podem utilmente meter-se de acordo ao nível da Conferência Episcopal, dando indicações concretas. Considerando a complexidade de situações e circunstâncias, como é o facto da negligência pelo sagrado, adverte-se para a necessidade prática de que, por incumbência da Autoridade competente, haja quem efetivamente garanta a autenticidade da matéria eucarística da parte dos produtores como da sua conveniente distribuição e venda.

Sugere-se, por exemplo, que a Conferência Episcopal encarregue uma ou duas Congregações religiosas, ou um outro Ente com capacidade para verificar a produção, conservação e venda do pão e do vinho para a Eucaristia num determinado país ou para outros países para os quais se exporta. Recomenda-se, ainda, que o pão e o vinho destinados à Eucaristia tenham um tratamento conveniente nos lugares de venda.

Da sede da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, 15 de Junho de 2017.

+Cardeal Robert Sarah
Prefeito

+Arthur Roche
Arcebispo Secretário

Como o texto acima é particularmente pedagógico e claro, acrescentamos aqui um anexo meramente conclusivo. No desejo de sintetizar a resposta esperada por nossos leitores. A Celebração da Eucaristia com Pães Ázimos e não com a Hóstia, tradicionalmente conhecida, não se faz ilícita. Não é errada, desde que se observe os requisitos explicitados no Documento acima. Sendo o Pão Ázimo feito de farinha e água, sem acréscimo de qualquer elemento diferente a estes, é lícito, mesmo que não muito usual. O que pode gerar certa insegurança naqueles que participam do Banquete Eucarístico.

Ainda vale um último comentário: a diferença do Pão Ázimo – feito no modo tradicional da cultura judaica – e da Hóstia, é meramente de aparência. A substância é a mesma: farinha de trigo e água. O que se percebe diferente ao olhar é resultado do método de se assar cada um destes elementos.

A Hóstia é assada em uma espécie prensa, geralmente elétrica, a qual tem como resultado o que vemos comumente em nossas liturgias.

Hóstia comumente encontrada em nossas Liturgias

O Pão Ázimo, feito rigorosamente no método judaico, conforme temos presente nos relatos bíblicos, é assado em uma trempe ou assadeira comum, não uma prensa. O que lhe infere uma estética diferente, mas não altera sua essência. A matéria é a mesma. Aqui vale sublinhar que este deve ser rigorosamente feito à forma judaica, sem acréscimo de quaisquer substâncias, como azeite, fermento, outros cereais; conforme nos explica o Documento da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos. Sendo assim, seu uso na Celebração Eucarística não se faz errado.

Pão Ázimo

Esperamos ter elucidado a dúvida. Caso queiram nossos leitores, podem nos enviar perguntas, comentários e sugestões no rodapé de nossas postagens, ou por nosso e-mail: h.fernandes@uol.com.br.

Abraço fraterno! Até nossa próxima Roda de Conversa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: