O Segundo Isaías (Is 40-55): A Esperança que Brota do Árido Chão – Parte 2 – Conhecendo o Tempo e as Pessoas do Grupo Profético do Segundo Isaías

Por Hermes Fernandes

O Contexto do Segundo Isaías

Os poemas proféticos do grupo do Segundo Isaías nos chegam por ocasião do final do Exílio da Babilônia. Podemos estimar como data 540 a.C. A forma de se expressar, isto é, a linguagem e estilo do texto, nos possibilitam concluir que essa profecia deve ter nascido entre as pessoas da segunda deportação. Este grupo era formado majoritariamente da gente simples da cidade: trabalhadores, comerciantes, artesãos e sacerdotes levitas.

Vale a pena refletirmos mais amiúde sobre quem seria este último grupo, ou seja, os levitas. Estavam ligados desde a formação de Israel à organização religiosa do povo. Dedicavam-se ao ensinamento da tradição da Lei do Deus da Vida, o que podemos verificar em Dt 23,25-26. A partir da instituição da monarquia e, principalmente, pelas reformas socioeconômicas, político-religiosas de Josias – datadas no ano de 625 a.C. – ocorre a centralização do culto em Jerusalém e os levitas são obrigados a trabalhar no Templo. Antes, eram mais como que os catequistas, como os conhecemos hoje. Formavam e animavam o Povo de Deus no caminho da fé em Javé. Com a supracitada reforma, tornam-se sacerdotes ao serviço da burocracia teocrática do Templo, perdendo o carisma original. Esta institucionalização do sacerdócio não foi bem aceita por todos, e alguns fogem, sendo perseguidos e até assassinados. Mesmo com resistência de boa parte dos sacerdotes que estavam imbuídos do verdadeiro sentido do sacerdócio, a maioria foi levada ao Templo e obrigada a trabalhar como sacerdotes e funcionários de segunda categoria como podemos verificar em 2Rs 23,8-14. É bem possível que estes levitas do Templo tenham sido deportados e, no Exílio, procuravam animar a resistência do povo oprimido. Todos os exilados mais pobres, eram tratados como despojo de guerra na Babilônia (cf. Is 42,22).

É inegável o sofrimento da comunidade do Segundo Isaías durante o Exílio da Babilônia. O Império Babilônico enfrentava, naquele tempo, muitos problemas. Tanto externos, quando internos. As guerras contra outros países eram constantes. A Babilônia era cega pela usura e sede de poder. Sempre se dedicavam à expansão de seus domínios. E, com isso, derramavam-se rios de sangue e lágrimas. Dentro de seus domínios, a crise interna pela manutenção do poder, era marcante. As crises religiosas e econômicas enfraqueciam ainda mais as bases do governo babilônico. Existiam disputas entre os sacerdotes do deus Marduk, divindade suprema no panteão dos deuses, representado pelo sol, e os adoradores da deusa Sin, simbolizada pela lua, incentivados pelo rei Nabônides, que queria a oficialização de seu culto. Há que se acrescentar às crises a questão econômica. A babilônia enfrentava grandes dificuldades financeiras, dados os muitos e dispendiosos esforços com guerras, opulentas construções, além do abandono dos incentivos à política agrária. O abandono do campo ocasionou na subida dos gastos em cerca de 200%, entre os anos de 560 e 550 a.C. Isso refletia diretamente nos mais pobres. Resultando em exploração, empobrecimento e fome.

Neste emaranhado de problemas internos e externos, quem mais sofria eram as famílias pobres, especialmente as exiladas, que trabalhavam como mão-de-obra escrava na agricultura, nas obras públicas; caso contrário, como aconteceu inúmeras vezes, seriam confinadas em prisões.

Ao sofrimento político-econômico dos israelitas, podemos acrescentar a dor sentida por se acreditar que o exílio era castigo de Deus, por conta da infidelidade, do pecado (cf. Is 40,2;42,24). Ainda mais: acreditar que Javé não era mais o mesmo dos tempos do Êxodo, dos tempos de Davi, dos tempos de vitória. De acordo com a compreensão da época, a derrota de um povo é expressão da derrota de seu deus. Assim, muitos entendiam que Javé, Deus de Israel, fora vencido por Marduk, deus dos babilônios.

Em meio a tanto sofrimento e desesperança, por volta do ano 550 a.C., surge uma luz no horizonte. O rei da Pérsia, Ciro, torna-se muito poderoso. Com isso, a derrota da Babilônia se torna uma possibilidade e, por consequência, o fim do exílio. A esperança ilumina os corações dos judeus. Alguns chegam a pensar que este rei significaria a mão de Javé libertando seu povo (cf. Is 41,2; 44,28; 45,1; 46,11).

Na perspectiva da esperança de volta à Jerusalém, o grupo do Segundo Isaías anuncia às comunidades exiladas o fim do sofrimento; mesmo em meio à desesperança de muitos, já que se passavam quase 50 anos de exílio. Já se contavam muitos filhos e netos nascidos das famílias exiladas. Estes adotaram os costumes babilônicos ou, quem sabe, sequer conheceram as tradições, a fé e a história de Israel. Estes, nascidos na diáspora, não conheciam uma vida diferente. Sem miséria ou opressão. Desconheciam Javé, Deus dos sofredores e libertador de Israel, como conheceram seus pais.

Por isso, a profecia do Segundo Isaías desejava fortalecer a fé e a vontade de viver entre essas pessoas, que viviam sem alegria. Pessoas cansadas e enfraquecidas (cf. Is 40,29; 42,42,3). Gente escravizada, espoliada, saqueada e perseguida (cf. Is 42,7; 42,22; 47,6; 50,6). O povo vivia humilhado e desprezado (cf. Is 53,3). Vivia em situação de indigência (cf. Is 41,17; 49,13; 53,1-2).

No desejo de renovar a fé destas famílias, o grupo do Segundo Isaías resgatou a memória do Êxodo, mostrando que Javé é o Deus libertador, Senhor da história, fiel ao seu povo. Este fazer memória, restaurando a esperança, foi a pedagogia utilizada no resgate da esperança em seu Deus.

Podemos sublinhar que a mensagem libertadora do Segundo Isaías está organizada em oráculos, poemas e memórias; do capítulo 40 ao 55. Em nosso próximo estudo, veremos como se divide a dinâmica deste desejo de restauração da esperança, onde veremos a estrutura e a organização do Livro do Segundo Isaías.

Até a próxima!

(Continua)

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