Crônicas Bíblico-Catequéticas – Parte 3: “O que Procuras?”

“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel,
que hoje te enviou ao meu encontro.”
 
(1Sm 25,32)

“Que a força do medo
não me impeça de enxergar
aquilo que anseio”
(Osvaldo Montenegro)

Por Pe. Adriano Bonfim*

Há um encanto incomum nas narrativas bíblicas justamente porque, no texto, para além das hipérboles, há uma lucidez enorme para ver a vida e uma riqueza gigante acerca de alguns de seus dramas.

Chama nossa atenção a relação dos encontros e despedidas, dos desencontros e descobertas. Sob as tramas, há uma tentativa sempre presente do homem de encontrar a si mesmo, o que ama, o que perdeu. É o encontro que move sua esperança, lhe dá alegria, o faz viver. Na dinâmica da busca, está o encontro com o que lhe falta, o que o contesta, o chama…

Ao ler os relatos bíblicos, vemos encontros e desencontros: Samuel e Davi; Rute e Booz; Ló e Abraão; Sara e Agar. Cada uma dessas narrativas faz lembrar o drama humano, que dói e sacia, que afasta e aproxima. Também nossa vida é feita de encontros e desencontros… Mães não dormem, esperando seus filhos voltarem das farras noturnas; apaixonados sonham em receber ao menos um olhar; órfãos anseiam encontrar seus pais… Loucos e sãos, todos querem atenção; a vida não busca senão encontros.

Quem mora na roça sabe bem o valor do encontro, da visita, da acolhida daquele que vem trazendo um pouco de si. Lembro-me das visitas lá em casa, que marcaram a memória da infância. Vinham para um aconchego e ficavam o dia todo; ao fim da tarde, iam levando um pouco de nós e deixando um pouco de si. Por isso, o crepúsculo, para mim, se tornou sinal de despedida; sacramento da partida. A aurora tornou-se encontro. E à noite, depois da generosidade do encontro, a vida exigia memória do dia. E, se a despedida gerou saudade, a esperança do reencontro garantia a paz. Nos movimentos dos luminares, Deus me deu a recordar que a esperança se renova, a vida se refaz.

A despedida é um desequilíbrio muitas vezes necessário. Faz descobrir o que é importante na vida. E é preciso uma profunda experiência de falta para que a saudade surja inquieta, fazendo presente ao coração o que de bom se viveu e não se sentiu. O filho pródigo, estando em casa, estava fora de si; só recobrou a lucidez quando, longe de seu pai, na lavagem dos porcos, perdeu toda a dignidade. Só aí percebeu que sua alegria estava no convívio com o pai.

O maior obstáculo do encontro é o medo. Com o medo, não há encontro. Ele nos protege do risco, mas nos mata na indiferença. Não nos deixa ir ao encontro, enxergar os caídos à beira do caminho. O medo nos impede de seguir decididamente ao encontro do outro para nos aprisionar em garantias pequenas e robustas. No medo, a despedida se torna adeus; a saudade remorso. O medo nos engana, fazendo-nos acreditar que vamos perder algo e impedindo-nos de ganhar tudo.

Diante do medo, só a esperança que não decepciona pode nos curar; só um encontro que nos complete pode nos fazer enxergar a nós mesmos e a não ter vergonha de amar. E o encontro acha seu sentido mais profundo em Cristo. “Neste homem, o homem enfim se descobriu”, como canta um hino Pascal. Sua vitória sobre a morte não significa apenas que o mestre continua vivo, mas que ele veio ao nosso encontro e nos fez ressurgir para a vida; que o encontro sempre vale a pena, porque o amor vence a morte.

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* Pe. Adriano Bonfim é licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2013) e Graduado em Teologia pela Pontifícia Universidade católica de Minas Gerais.

Colaborou: www.fiquefirme.com.br

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