Estudos sobre o Evangelho de Mateus – Parte 35: Uma Mulher Siro-fenícia: Pobre e Excluída! – Mt 15,21-28

Por Hermes Fernandes

Mais uma vez nos debruçamos em estudo sobre o Evangelho de Mateus. Inicialmente, a pergunta “quem é Jesus” estava circunscrita aos judeus (Mt 13,53-15,20). Agora, Mateus mostra que esta questão chega também aos gentios.

Na perícope de Mt 15,21-28, veremos que Jesus é Messias, também, para outros povos, e não somente para os judeus. Trata-se do Episódio da mulher Cananéia, ou Siro-fenícia.

21Jesus saiu daí e foi para a região de Tiro e Sidônia. 22Nisso, uma mulher cananeia, que morava nessa região, gritou para Jesus: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim. Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio.” 23Mas Jesus nem lhe deu resposta. Então os discípulos se aproximaram e pediram: “Manda embora essa mulher, porque ela vem gritando atrás de nós.” 24Jesus respondeu: “Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel.” 25Mas a mulher, aproximando-se, ajoelhou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, ajuda-me.” 26Jesus lhe disse: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos.” 27A mulher disse: “Sim, Senhor, é verdade; mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.” 28Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, é grande a sua fé! Seja feito como você quer.” E desde esse momento a filha dela ficou curada

Análise Textual:
Tiro é uma cidade com ambição de domínio e com grande poder. Desde sua origem até o período romano, havia uma luta do povo fenício sobre as terras da Galileia. Tiro pode ser considerada uma cidade rica e economicamente estável. Mas, ao lado desta realidade, também há pobreza. O diálogo acontece entre os pagãos e os judeus.

Jesus anda em território pagão, perto de Tiro e Sidom. Nesse lugar é normal encontrar-se alguma mulher “cananéia”, conforme o relato da perícope. Ela mora numa região de gentios. Não são semitas, não são israelitas, nem seguem a religião judaica. Mas ela chama Jesus de “Filho de Davi”, que é o título messiânico israelita por excelência. Podemos pensar que ela está tão profundamente angustiada, que se humilha até invocar o Messias dos israelitas. Seu amor de mãe por sua filha a leva a quebrar as possíveis fronteiras da sua tradição e das brigas dos povos na busca pela restauração da saúde de sua filha.

O episódio narrado por Mateus se sobressai e gera contraste com o anterior que tratava das tradições. Para os judeus, não só entre seus iguais existiam os critérios de pureza. Em relação a outros povos, existia uma separação de pureza legal. Os judeus não podiam comer com os pagãos para não se contaminar. Jesus vem abolir tal distinção, tornando acessível a qualquer um o Dom de Deus, pela fé em sua Pessoa. O diálogo com os discípulos e com a mulher siro-fenícia esclarece, sob a ótica do coração, normas de conduta excludentes e marginalizante. Nada justifica tamanha xenofobia! Já o profeta Elias havia concedido seus milagres a uma mulher fenícia (cf. 1Rs 17).

No diálogo entre Jesus e a mulher cananéia podemos tirar grandes ensinamentos. Primeiramente, vemos Jesus em silêncio diante do clamor da mulher. Este silêncio pode ser interpretado por uma predisposição à exclusão. Outrossim, com o evoluir da narrativa, teremos surpresas aprofundando o diálogo. Iremos aprofundar as nuances da pedagogia de Jesus aplicada neste relato, mais à frente, na análise do sentido da perícope. Vale sublinhar que Jesus faz alusão à exclusividade do Dom de Deus aos judeus. Usa dos termos “tirar de uns e dar a outros”. Esta particularidade não pode ser entendida como ipsa verba Iesu. É mais reflexo da experiência das primeiras comunidades, do que propriamente palavra, ensinamento de Jesus. O Messias não tem riqueza para todos? A argumentação da mulher se faz ensinamento para toda comunidade cristã. Uma migalha da mesa de Jesus, equivale ao pão todo. E, com isso, a mulher cananéia se contenta. Um “tapa de luvas” aos pensamentos exclusivistas e meritocratas. Estes ensinamentos valem uma reflexão mais profunda. Sigamos em frente!

Análise do Sentido:
Como dissemos acima, Jesus estava nas proximidades do país de Tiro e de Sidônia e é interpelado insistentemente por uma mulher cananeia: “Senhor, filho de Davi, te piedade de mim. Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio” (v. 22). A mulher conhece a tradição judaica segundo a qual a missão do filho de Davi está limitada a Israel (cf. Mt 9,27; 12,23).

Mateus descreve com muito mais detalhes o gradativo clamor da mulher e as diferentes reações de Jesus e dos discípulos. O grito da mulher pede a compaixão de Jesus, reconhecendo-o como Filho de Davi. Ao seu clamor que expressa a solidariedade entre mãe e filha, Jesus fica em silêncio e nada responde (Mt 15, 23). Será indiferença ou presença silenciosa e reflexiva? O silêncio também faz parte da aproximação para um verdadeiro encontro, quando as diferenças são muito grandes.

Os discípulos ficam bravos com a mulher. Querem afastar o grito porque incomoda. Dizem: “Despede-a, porque vem gritando atrás de nós” (Mt 15,23). Eles querem que Jesus mande-a embora para que não os incomode mais. Jesus parece pensar em voz alta e Mateus coloca em sua boca a mentalidade dos judeus da época, através de uma compreensão exclusivista da missão: “Eu não fui enviado senão para as ovelhas perdidas de Israel” (Mt 15, 24). Diante da insistência do grito da mulher, a resposta de Jesus é muito dura e difícil de entender. Para isso, é preciso entrar em sua atitude pedagógica, destinada aos discípulos e também à mulher.

Jesus não deu resposta anteriormente à mulher, esperando que os discípulos resolvam o problema. Estes, para se verem livres da insistência da mulher, pedem a Jesus para atendê-la. Jesus lhe responde: “Eu fui mandado somente para as ovelhas da casa de Israel” (v. 24), como vimos acima. Até aquele momento, Jesus considerava que sua missão se restringia apenas à Israel. Mas esta mulher sem nome, pobre, estrangeira; não se dá por vencida. Como o chefe centurião (Mt 9,18), ela se ajoelha e insiste no seu pedido. Jesus reponde: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos” (v. 26). Os judeus se consideravam filhos de Deus e diziam que os estrangeiros não eram dignos da benção divina. O que nos faz entender a resposta de Jesus. Ela concorda com o Messias. De fato, em uma situação de penúria, o que existir de pão deve ser dado, em primeiro lugar, às crianças. Mas, partindo de sua experiência, ela amplia a comparação de Jesus. Ela vê além das crianças. Vê os cachorrinhos comendo das migalhas que caem da mesa. Ela vê em profundidade, e não em aparências. Assim como o Pai de Jesus. Seu coração percebe a dor. A fome do povo. Por pão material, pão de justiça, pão de benção.

Aqui podemos entender o verdadeiro sentido do pão. Trata-se do Reino de Deus. Os filhos significam o povo de Israel. Os cachorrinhos podem ser entendidos como os gentios, os estrangeiros. A mulher, ao concordar com Jesus, denuncia a discriminação dos estrangeiros, da qual ela e sua filha são vítimas. Ela sabe por experiência o que acontece com os “cachorrinhos”. Esta mulher é uma excluída! Humilhada! E reage a partir de sua experiência em favor da vida. O que está em jogo para ela é a vida escondida por trás da falta de pão.

Diante desta iniciativa ousada e persistente, Jesus revê sua posição. Ele, que já havia censurado a falta de fé de seus discípulos (cf. Mt 8,26; 14,31), diz: “Mulher, grande é sua fé! Seja feito como você quer” (v. 28). Esta mulher estrangeira teve uma manifestação de fé que agradou a Jesus! Ela é a mãe insistente, cheia de fé e de esperança; capaz de dialogar com Ele. Sua atitude se faz modelo para as comunidades cristãs.

Jesus ficou admirado com os valores que encontrou nos pagãos e compreendeu que Deus já estava entre eles como Deus vivo e libertador: aquele que ouve o clamor e desce para libertar (cf. Ex 3,7ss.). O evangelho de Mateus faz esse caminho progressivo e muito diferente do envio de discípulos apenas para as “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10, 6), e conclui: “Ide e fazei com que todos os povos sejam meus discípulos” (Mt 28, 19). O encontro de transformação e libertação só aconteceu quando Jesus “desce” ao nível humano, tornando-se aprendiz e discípulo da mulher estrangeira, excluída. E confirma sua cidadania teológica: “Mulher, grande é tua fé! Seja feito como queres!” (Mt 15, 28).

A mulher pagã ajudou Jesus a compreender que ele era enviado de Deus não só para os judeus, mas para toda pessoa humana de todas as culturas e tempos; o que é uma alusão à profecia do Servo de Javé (Is 49,1-6). A mulher assumiu sua condição de “cachorrinho” com grande esperança; não aceitou as condições que a deixavam excluída da vida, mas quebrou as fronteiras que a discriminavam.

Fica claro que nas comunidades de Mateus havia uma forte resistência à participação dos gentios. O que podemos verificar a partir da perícope que estudamos hoje. Com o relato do encontro de Jesus com a mulher Siro-fenícia, o evangelista quebra as fronteiras da Ação Salvífica de Jesus, apontando a atitude de acolhida à mulher cananéia, em razão de sua fé. Mateus exorta as comunidades a acolherem os pagãos na sua mesa com a condição de que creiam e assumam o projeto do Reino que Jesus veio trazer.

Atualizando o Texto:

A partir do exemplo da mulher siro-fenícia, somos convidados a ir onde a vida clama, sem discriminações. Ir aos sofredores, sem levar em conta suas origens étnicas, suas opções religiosas, ou barreiras de gênero. Somos todos povo de Deus!

No seguimento de Jesus, que se deixou tocar pelo grito da mulher siro-fenícia, “escutar Deus onde a vida clama” é convocação do Espírito que sopra onde e como quer. Precisamos ter nossos corações abertos e atentos aos múltiples clamores da vida que aparece ao nosso redor.

Que possamos aprender do nosso estudo de hoje a ter esperança e coragem para transformar nosso mundo. Com respeito às diferenças, anunciemos um novo tempo. Em que o Bem chegue a todos e todas e que a esperança floresça do amor incólume de Deus. Amor que nunca morre. Que restaura toda existência humana.

(Continua)


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