O Livro de Josué | Por Pe. Paulo Sérgio Silva

“O Senhor, teu Deus, estará contigo por onde quer que vás” (Js.1,9)

A cada ano, especificamente no mês de setembro, é celebrado o mês da Bíblia no Brasil. Esta iniciativa, oferecendo um subsídio para estudo e celebração, se torna um itinerário de aproximação da Palavra de Deus promovido por paróquias e comunidades de todo o país. É um convite especial para todas as pessoas que gostam de estudar, conhecer, meditar e aprofundar-se na Palavra de Deus. Este ano, a intenção deste convite feito pela CNBB é nos aproximar da jornada de Josué pela posse da Terra Prometida. Somos chamados a estudar este livro sagrado, que nos levará a perceber que Deus nunca deixa sem respostas as pessoas e comunidades que a Ele se confiam. O livro, descrevendo o cumprimento da missão de Josué, quer mostrar a sólida fidelidade de Deus às suas promessas, fidelidade a qual o povo deve responder observando a aliança com o Senhor. (Cf. Js.1,6-9; 23s).

NOME E CONTEÚDO DA OBRA

Antes de tudo é preciso lembrar que embora o título do livro traga o nome de Josué, isto não significa que ele tenha sido o seu escritor, mas, sim que o livro narra os feitos realizados por ele durante sua missão a frente do povo de Israel. O nome Josué significa “Javé é salvação” (cf. Js.1,9). Ele era filho de Nun (Ex. 33,11; Nm.11,28; 13,8.16), e membro da tribo de Efraim (Nm.13,8). Lutou no combate contra os amalecitas (Ex. 17,8-16); E acompanhou Moisés ao monte Sinai (Ex. 24,13; 32,17); e fez parte da comitiva de reconhecimento da terra de Canaã (Nm.13,8; 14,38). Pela sua firme confiança no Senhor, Josué e Caleb, foram os únicos homens, daquela geração libertada da escravidão do Egito, que entraram na Terra Prometida (Nm.14,30.38; 26,65; 32,12). Josué, quando este era ainda jovem, foi escolhido por Moisés como seu ajudante mais próximo (Ex.24,13/33,11). Perto da morte de Moisés, o Senhor o indicou como seu sucessor (Nm.27,15-23). Por conseguinte, após a morte de Moisés, Josué tornou-se o líder do povo.

Qual a missão de Josué?  

1º – Zelar pela observância da Lei;

– Introduzir o povo na Terra Prometida;

– Proteger e orientar o povo contra as práticas pagãs dos cananeus;

– E distribuir igualitariamente a terra entre as tribos de Israel. Ao longo do livro se percebe que Josué acabou por se revelar como um líder determinado, corajoso, sensato e prudente.

Mesmo que não aparente, todas estas responsabilidades eram religiosas e não políticas, pois eram na verdade, etapas na organização do povo messiânico que preparava a vinda do Messias. Mais do que uma mera aglomeração de pessoas, o povo de Israel sempre criou a consciência de que era “o povo de Deus, escolhido para gerar o Messias”

COMO O LIVRO É ORGANIZADO OU DIVIDIDO:

O livro de Josué dá continuidade e confirma os eventos narrados ao longo dos livros que compõe o Pentateuco. Embora existam diversos modos de dividir a obra, aqui optamos por uma forma resumida. A obra divide-se em três partes, após a introdução (1,1-18):

a) Ocupação da terra de Canaã: 2,1-12,24

    entrada em Canaã: 2,1-5, 12

    tomada de Canaã: 5,13-12, 24

b) Distribuição da terra de Canaã: 13,1-22,34

c) Renovação da aliança com o Senhor: 23,1-24,33

Os capítulos finais (23 e 24), merecem atenção especial porque revelam o testamento espiritual de Josué e a solene assembléia de Siquém onde ele convida o povo a decidir que caminho tomar na história. Nasce aqui uma das profissões de fé mais relevantes e conhecidas do Antigo Testamento. Depois de relembrar as ações de Deus, Josué pergunta ao povo a quem eles querem de fato servir e enquanto espera a decisão, afirma: “quanto a mim e a minha família, nós serviremos ao Senhor.” (Js.24,15)

A MENSAGEM TEOLÓGICA

Podemos compreender sua mensagem teológica através de pontos que devido a frequência com que aparecem ao longo do livro se tornam personagens, mesmo que não sejam pessoas:

A Terra: a posse da terra prometida se tornou o maior sinal da bênção de Deus. Aos poucos, Israel vai entendendo que perder a posse da terra é perder a presença de Deus. A Terra Prometida já estava ocupada por povos poderosos muito superiores ao pequeno povo de Israel. No entanto, o Senhor havia prometido aos antepassados o dom da terra e eles permanecem acreditando que nenhum obstáculo será capaz de parar a vontade divina. E de fato, todos os problemas sucumbem ante o poder de Deus: as caudalosas águas do rio Jordão, a fortaleza de Jericó, os acordos dos reis do sul ou do norte. Durante os combates, os israelitas compreendem que não precisam temer nada, ao passo que os inimigos eram tomados pelo pânico ainda antes de lutar. Assim, para permanecer na posse de tão grande dádiva, o povo deveria se comprometer em uma adesão incondicional ao serviço do Senhor. Tal atitude exigirá então o cumprimento do tópico seguinte.

A Fidelidade: se Israel se afastar de Deus e procurar segurança junto a outras supostas divindades, acabará por ser expulso da terra que o Senhor lhe ofertou. Para permanecer puro e fiel, o povo deve evitar toda e qualquer aproximação com os povos pagãos que habitavam a terra anteriormente. Surge aqui a explicação ou justificação do exílio da Babilônia. Israel ao invés de exterminar os cananeus acabou por se misturar e se contaminar com eles nas suas idolatrias e através de alianças matrimoniais e políticas. Mesmo que Josué seja um livro com várias temáticas, seu tema principal é sem dúvida alguma a fidelidade de Deus que ao longo do livro vai sendo demonstrada por seu zelo, presença, poder, proteção e cumprimento de suas promessas. Em seguida aparece a fidelidade do povo de Israel. Os Israelitas estavam entrando em uma cultura agricultores, na terra de Canaã, cuja vida comunitária estava ligada à adoração dos deuses pagãos da natureza e com rituais associados a fecundação dos campos e do ventre das mulheres. Estas divindades se tornariam uma constante tentação para eles. Deus permaneceu fiel as promessas, no entanto o mesmo não aconteceu com o povo. Em vários momentos ao longo do livro, o povo acabou reprovado quando precisou provar sua fidelidade. Apesar disto a fidelidade de Deus jamais cessou.

A Unidade: mesmo que o povo comece a ser organizado em diversas tribos, o autor do livro enxerga a ação do povo como nascida de um único coração. Israel é visto como um único homem. Percebe-se aqui um desejo de ver renascer o sentimento de unidade nacional que havia sido destruído com o exílio babilônico.

O Herem ou Anátema: a mensagem teológica apresenta também este ponto obscuro e polêmico. Para evitar a contaminação com os costumes pagãos que levariam ao abandono da fidelidade a Aliança, o povo deveria, a cada vitória na “guerra santa”, realizar também o extermínio de tudo que estivesse no território conquistado, isto incluía queimar as casas e todos os objetos, matar os animais dos rebanhos e infelizmente também exterminar toda a população, inclusive crianças e mulheres. Como se pode dizer que esta destruição e os massacres se realizaram por ordem do Senhor?  Infelizmente esta prática não era costume apenas do povo de Israel, a grande maioria dos povos antigos possuíam a mesma prática em tempo de guerra. Os povos derrotados em destruídos por completo para demonstrar a vitória plena. A pretensa justificativa era que manter a população derrotada representava grande perigo, pois a convivência com os pagãos poderia levar ao possível contágio da idolatria.

A MOTIVAÇÃO PARA LER O LIVRO

O Livro foi escrito provavelmente no período do Exílio da Babilônia. E assim como Pentateuco, pretendia fortalecer a fé dos exilados para não perderem a esperança. Para os membros do povo de Israel que leram o livro escrito depois da queda de Jerusalém e à deportação para a Babilônia no 587 a.C. os fatos narrados permitiam-lhe reavivar a lembrança da herança, real ou retórica, de cada uma das tribos, que devido ao exílio babilônico haviam quase já desaparecido. A lembrança de como Deus doou daquele pedaço de terra sagrado aos antepassados ajudaria a manter vivo o espírito daqueles que restaram das tribos, na espera de tempos melhores.

o ministério de Josué é considerado simbolicamente um prenúncio do ministério do Messias. Assim como Moisés, em sua missão de profeta, legislador, mediador e libertador foi um protótipo de Jesus Cristo, também Josué, que conduziu Israel à terra prometida, foi um protótipo de Jesus, o qual leva todos os fiéis à sua terra prometida definitiva. No entanto, para os cristãos a dádiva plena de Deus, mas do que um pedaço de solo, é o próprio Jesus Cristo.  A principal lição que podemos colher da leitura do Livro de Josué é sem dúvida que Deus é fiel às Suas promessas. Ele prometeu a Abraão que seus descendentes morariam na terra e, com Josué, trouxe o povo para a terra que prometera. Este ato completou a missão de redenção que Deus iniciou com Moisés ao libertar Israel do Egito.

Em nossos dias atuais, esta obra sagrada e sua mensagem são um convite a manter a esperança na realização das promessas divinas, mas também um lembrete de que precisamos nos manter fiéis ao seu amor como Ele se mantém fiel. Como os deuses pagãos que representavam a infidelidade e o abandono da presença de Deus, em nosso tempo enfrentamos diversos reflexos da mentalidade moderna caracterizada pelo egoísmo, narcisismo e materialismo. Como Josué e o povo de Israel estamos em caminhada para a Jerusalém celeste, então de modo semelhante, assim como Ele, temos que dizer diariamente: “Eu e minha família serviremos ao Senhor.”

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Pe. Paulo Sérgio Silva é Presbítero na Diocese de Crato, CE. Atualmente é Pároco na Paróquia Nossa Senhora da Conceição em Farias Brito, CE.

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