Reflexão para o 23º Domingo do Tempo Comum – Lucas 14,25-33

Por Pe. Francisco Cornélio Rodrigues
Diocese de Mossoró, RN

A liturgia deste vigésimo terceiro domingo do tempo comum continua a nos situar no contexto do caminho de Jesus para Jerusalém, com seus discípulos. Como já sabemos, mais do que um percurso físico, este caminho é um verdadeiro programa formativo, na perspectiva de Lucas. É um itinerário catequético e teológico, no qual o evangelista distribui os principais ensinamentos de Jesus voltados à formação dos seu discipulado, sendo também uma projeção antecipada da natureza missionária da Igreja, que deve estar sempre em saída, apesar das dificuldades e perigos que a imagem do caminho evoca. O evangelho de hoje – Lucas 14,25-33 – apresenta a retomada da caminhada propriamente dita, após uma parada num dia de sábado para o culto da sinagoga, provavelmente, e um almoço festivo na casa de um dos chefes dos fariseus, conforme vimos no evangelho do domingo passado (cf. Lc 14,1.7-14). Por sinal, a alternância entre a casa e a estrada possui grande relevância na obra de Lucas. Como os espaços institucionalizados eram hostis à mensagem de Jesus, ele apresenta a casa e a estrada como alternativa para a anúncio da sua mensagem, tanto no Evangelho quanto em Atos dos Apóstolos.   

À medida em que avançava no caminho, Jesus aprofundava o seu ensinamento, deixando cada vez mais claras as exigências para o seu seguimento e a seriedade que esse implica. No evangelho de hoje, ele apresenta três condições indispensáveis para quem pretende ser seu discípulo ou discípula. E são exigências muito fortes e comprometedoras. Apesar de possuir elementos comuns a Mateus e Marcos, o texto é carregado de traços tipicamente lucanos. Além de reformular o material comum aos demais, Lucas ainda ilustra as exigências com duas pequenas parábolas exclusivamente suas, conferindo ao texto um refinado teor de originalidade. Tanto o conteúdo quanto a maneira como o texto é construído tem por objetivo responder às necessidades das comunidades destinatárias, na época da redação do Evangelho, em meados da década de 80 do primeiro século. Com o passar do tempo e o surgimento das perseguições, crescia o desânimo e a falta de entusiasmo na vivência dos ensinamentos de Jesus. As comunidades passavam por um esfriamento na fé, com uma forte tendência a relativizar as exigências do discipulado. Preocupado, o evangelista procurou recordar o que é indispensável na vida cristã. Por isso, a não aceitação de qualquer uma das exigências recordadas no evangelho de hoje tem como resposta a declaração “não pode ser meu discípulo” (vv. 26.27.33), que funciona como refrão neste texto.

Começamos a analisar o texto, partindo do versículo, que funciona como introdução, ao mesmo tempo em que recorda o contexto do caminho: “Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse:” (25). Como Jesus tinha passado um bom tempo parado, devido à refeição na casa do fariseu (cf. Lc 14,1-24), o evangelista recorda a retomada do caminho com um verbo um de movimento – acompanhar (em grego: συμπορεύομαι – symporeuomai) – que serve também de advertência à comunidade: muita gente apenas acompanhava Jesus, mas não o seguia verdadeiramente. Era o que faziam as multidões e muitos membros da comunidade começava a fazer o mesmo: de seguidores comprometidos, tinham passado a meros acompanhadores, deixando de viver a radicalidade exigida pelo Evangelho. Por isso, o evangelista faz questão de mostrar Jesus advertindo quem apenas o acompanha. Ora, nas multidões que acompanhavam Jesus estavam pessoas impressionadas pela sua pregação, outras interessadas em aproveitar-se de possíveis milagres, outras ainda movidas pelo messianismo nacionalista, e pouca gente, de fato, comprometida com a sua causa, que é a edificação do Reino de Deus. Diante disso, ele procura esclarecer o que é necessário para alguém não apenas acompanhá-lo, mas tornar-se verdadeiro discípulo ou discípulo, passando da superficialidade ao compromisso com a causa do Reino.

Voltando-se para as multidões, então, Jesus fala claramente quais são as exigências para um autêntico seguimento, advertindo para o risco de decisões precipitadas e equivocadas. Eis então, a primeira exigência: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (v. 26). Considerando a cultura, com os costumes e tradições do mundo semita, talvez essa exigência fosse a mais dura. Ora, o valor do clã era revestido de sacralidade para aquela cultura. Romper com os laços familiares era um grande desafio, era um processo doloroso. Aqui, a tradução do texto litúrgico procura suavizar as palavras de Jesus, pois no texto original o evangelista emprega um verbo que significa odiar (em grego: μισέω = missêo), ao invés de desapegar, sendo que, para a mentalidade semita, odiar significa também “amar menos”, e é esse o sentido atribuído pelo evangelista nesta passagem. É claro que Jesus não estimula a disseminação do ódio; o que ele diz aqui, portanto, significa que para alguém entrar no seu discipulado é preciso amar menos do que a ele até mesmo as pessoas mais caras que temos, como os familiares. A opção pelo Reino torna todo o restante relativo, inclusive a própria vida pessoal e familiar. Jesus exige prioridade, não por egoísmo, mas devido ao elevado comprometimento que sua mensagem comporta. A fórmula conclusiva da exigência, “não pode ser meu discípulo”, mostra que essa é uma condição indispensável: ou faz isso ou não entra no discipulado!

A segunda exigência é consequência da primeira, que já determinava a renúncia à própria vida, sendo ainda mais impactante, considerando o sentido da cruz aqui empregado: “Quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (v. 27). Ora, tanto no tempo de Jesus quanto na época da redação dos evangelhos, a cruz não era um mero adorno ou sinal sagrado como hoje, mas um sinal de condenação e maldição, aplicada às pessoas subversivas que representavam perigo para a ordem estabelecida, imposta pela “pax romana”. No contexto específico deste texto, a cruz significa perigo iminente de morte, e não a capacidade de suportar as provações e dificuldades do dia-a-dia com paciência e aceitação passiva, como algumas interpretações pregam, transformando o evangelho num discurso de resignação, quando na verdade é um manifesto de contestação ao(s) sistema(s). A disponibilidade para carregar a cruz significa, portanto, a disposição para entregar a vida por causa do Reino, e quem não tem essa disposição não pode ser discípulo ou discípula de Jesus. A cruz era o destino das pessoas inquietas, inconformadas e subversivas, e Jesus exige que seus discípulos sejam assim mesmo: subversivos e inconformados diante das injustiças e desigualdades.

Depois de apresentar as duas primeiras exigências, Jesus reforça o ensinamento e, ao mesmo tempo, prepara a terceira com duas pequenas parábolas que recordam a seriedade do seguimento e a necessidade de reflexão, diante do risco de decisões repentinas e movidas por emoções passageiras. Eis a primeira parábola: “Com efeito, qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, Ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!” (vv. 28-30). A opção pelo Reino, ou seja, a adesão ao discipulado de Jesus, exige uma séria reflexão, sobretudo, em relação às consequências. O cálculo minucioso dos gastos que um construtor deve fazer antes de iniciar um empreendimento significa a consciência das exigências que o discipulado implica. É claro que o Reino não pode ser experimentado a partir de cálculos minimalistas e matemáticos, mas quem pretende ser discípulo ou discípula deve estar ciente, com clareza, do que condiz ou não com o seguimento de Jesus. E o investimento exigido dos discípulos e discípulos é muito mais precioso do que qualquer gasto material, pois é a própria vida. Por isso, é necessário refletir bem.

A segunda parábola tem o mesmo sentido da primeira: “Ou ainda: qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar condições de paz” (vv. 31-32). A primeira parábola era mais interpelante, tanto é que começava com a envolvente fórmula “qual de vós”, ausente nesta seguinte. Qualquer pessoa poderia ter se envolvido em alguma experiência de construção, mesmo que não fosse de uma torre. Logo, era um exemplo mais acessível. Nesta segunda, o exemplo parece mais distante, mas também permite a reflexão, pois além da clareza da história contada na parábola, no imaginário popular não faltavam exemplos de narrativas de guerras vencidas ou perdidas por esperteza ou incompetência de reis. Obviamente, o objetivo de Jesus com esse exemplo não é convocar os discípulos à promoção de guerra, tampouco compará-los a um rei. Assim como na primeira, o que ele quer é chamar a atenção para a necessidade da reflexão antes de qualquer escolha ou decisão. Independentemente da instância da vida, uma decisão equivocada traz, inevitavelmente, consequências danosas. Acompanhar Jesus sem ter clareza das exigências concretas que isso implica terminará em decepção, constrangimento e frustração pessoal.

Por fim, ele apresenta a terceira condição: “Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!” (v. 33). Ora, Jesus quer pessoas completamente livres no seu seguimento. E o apego aos bens sempre foi um dos grandes obstáculos para isso; o fato de ser mencionado por último entre as três condições, sendo preparado pelas duas parábolas, significa que era uma exigência muito desafiadora, talvez mais até do que a primeira, quer é o desapego à família. De fato, a primeira exigência, que compreendia o distanciamento físico e sentimental dos familiares mais próximos, poderia ser cumprida gradativamente e até superficialmente, pois é algo interior. Em caso de arrependimento, se poderia voltar ao seio familiar, pedindo perdão pela separação, e ser novamente aceito(a). A renúncia aos bens, pelo contrário, não poderia ser remediada; uma vez renunciando-os, seria para sempre, já que essa atitude consistia em vender tudo o que possuía e distribuir aos pobres. Portanto, essa condição exige uma decisão irrevogável, sendo necessária uma reflexão mais aprofundada e séria, por isso, a necessidade das duas parábolas como introdução e preparação.

Como foi acenado ainda no início, a fórmula conclusiva de cada uma das exigências – “não pode ser meu discípulo” – significa que Jesus não está propondo sugestões, mas apresentando condições indispensáveis e inegociáveis para alguém fazer parte do seu discipulado. Diante disso, devemos refletir pessoalmente e comunitariamente se, na situação em que nos encontramos, com o que temos e o que somos, estamos sendo, de fato, discípulos e discípulas de Jesus? A positividade ou negatividade da nossa resposta depende das renúncias e opções que fazemos. É importante questionar se nossas comunidades atuais são formadas por discípulos e discípulas ou apenas por pessoas que acompanham Jesus.

Colaborou: www.fiquefirme.blogspot.com

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