Estudos sobre o Evangelho de Mateus – Parte 34: Jesus e a Tradição (Mt 15,1-20)

Por Hermes Fernandes

Em nosso estudo anterior, tentamos responder à pergunta: Quem é Jesus? Hoje continuaremos respondendo a esta pergunta a partir do capítulo 15, refletindo dos versículos 1 a 20. Na perícope sobre a qual nos debruçaremos em estudo (Mt 15,1-20), nos dedicaremos em refletir a questão da Tradição, da impureza e da ética nas relações.

Mateus nos apresenta uma calorosa discussão de Jesus com um grupo de Fariseus e Doutores da Lei, provenientes de Jerusalém. Por trás desta discussão está o contexto histórico de Jesus e o confronto das comunidades de Mateus com os dirigentes do judaísmo formativo. Esse grupo defendia tradições antigas que, segundo eles, eram ordem de Deus a Moisés, transmitidas oralmente de geração em geração. Na verdade, era a interpretação oral da Lei mosaica desenvolvida pelos rabinos que exigiam sua observância tanto na Palestina como para os judeus que estavam em outras regiões – a diáspora. As exigências e cobranças dos grupos religiosos se davam pela vontade de manter seus interesses. Não estava em questão a fidelidade à Javé, por amor à sua vontade. Era uma forma de manter o poder sobre os pequenos. Desejo de uma sociedade e religião excludente e marginalizante.

A controvérsia de Jesus com os mantenedores do poder no Templo se concentra em torno da Tradição. As recomendações sobre abluções e outros temas, servia para incutir no povo o sentido de sua impureza. Um povo que se sente pequeno e impuro, é desmerecedor da benção e – assim – sujeita-se aos dirigentes da religião. Não se trata de fidelidade! A motivação dos Fariseus e Doutores da Lei era o poder religioso. Jesus responde ad hominem, denunciando a ausência daquilo que é primordial à Javé, isto é, o Amor e o Bem. A Tradição dos letrados invalida a Lei, pois a vontade de Deus serve – prioritariamente – à Vida (cf. Dt 30,19). Para denunciar a hipocrisia dos detentores do poder religioso, Jesus faz uma lembrança do decálogo, resgatando os preceitos fundamentais de responsabilidade para com a vida. O exemplo escolhido pelo profeta galileu é Ex 20,12; 21,17; que usa os verbos antitéticos kdk e qll. Ambos se referem ao campo da honra e do sustento (cuidado para com a vida): “Honrar/sustentar os pais”. A discussão se concentra no sustento que é subtraído dos pais necessitados, sob o pretexto de oferecer os recursos necessários ao amparo dos mais velhos ao culto. Não é este o culto que Deus quer. A citação do profeta Isaías (Is 29,13) se encaixa bem na situação: une culto e doutrina. Ao citar coração e lábios, disfere denúncia certeira à hipocrisia.

Os Fariseus estavam alarmados com o comportamento de Jesus e das comunidades cristãs que não estavam observando todas as prescrições de pureza legal, segundo as quais, deviam ser evitados certos contatos com coisas e pessoas, consideradas impuras. O que seria mais impuro do que condenar seus pais à indigência? Diante da interpelação destes judeus que se achavam puros sem o ser, a hipocrisia aflorava.

Jesus não se intimidou com as acusações. Mostrou para os acusadores, escribas e fariseus, que – em nome de suas interpelações – eles transgrediam o quarto mandamento, “Honre seu pai e sua mãe”, ao ensinar para as pessoas que podiam entregar seus bens como oferta para o Templo e ficar livres de cuidar dos pais idosos (v. 4-5). Era a chamada tradição do Corban, segundo a qual, os dons oferecidos simbolicamente ao Templo tornavam-se intocáveis. Por tais atitudes, o comportamento dos Fariseus e Escribas foi classificado como hipocrisia (v. 7), tema característico do Evangelho de Mateus (Mt 6,2).

Deus não precisa de nossas ofertas. Ele quer ser honrado com nossa vida, nossa prática de amor que começa em casa, com aqueles que nos geraram. Mateus cita Isaías mostrando que a honra que estavam prestando a Deus era da boca para fora (Is 29,13). De nada adiantam seus cultos, se ensinam e exigem observâncias de preceitos humanos como se fossem ordem do próprio Deus. Como podemos observar, para Mateus, Jesus não rejeitou as tradições judaicas, mas contestou sua validade quando estas impediam a solidariedade, o amor. As comunidades de Mateus queriam deixar evidentes a corrupção da Lei divina feita pelos Escribas e, ao mesmo tempo, mostrar Jesus como verdadeiro intérprete da vontade do Pai (Mt 5,17-20).

Jesus corrigiu o ensinamento dado pelos Doutores da Lei ao explicar que não há alimento impuro e que o fato de deixar de cumprir certos ritos não deixa a pessoa impura (v. 10-11). Com isso, Jesus elimina a barreira entre o puro e o impuro. Israel não é um povo superior aos outros. Aqui Jesus desmonta também a xenofobia. Em seu tempo e no nosso.

Os discípulos alertaram Jesus do escândalo que suas palavras provocavam nos fariseus e Escribas (v. 12-14). A resposta de Jesus é uma frase exclusiva de Mateus: “Toda planta que não foi plantada por meu pai celeste será arrancada” (v. 13). Com isso, as comunidades de Mateus mostram que os dirigentes do judaísmo formativo, que se consideravam povo escolhido, na verdade, são plantas que serão arrancadas. São guias cegos. Sobre eles pesa uma violenta condenação e uma terrível perspectiva para o juízo final.

Nesse momento, Pedro, representando a comunidade, toma a palavra e pede que Jesus explique melhor suas proposições (v. 15). Não entenderam nada! E nós, será que entendemos? A mentalidade farisaica, segundo a qual os judeus eram um povo superior aos outros, estava presente também na comunidade cristã. Essa mentalidade impede a abertura para a universalidade da proposta do Reino. Jesus retoma a explicação afirmando: o que suja o mundo e prejudica nossas relações com Deus, com os outros, conosco mesmos; é o que sai do nosso coração, sede das decisões práticas (Mt 5,8). Ele liberta as pessoas dos ritos e cultos e as torna livres para se relacionar entre si, com a natureza e com Deus. Só que a relação com Deus passa através do outro, pela prática da justiça, baseada no amor e na misericórdia.

Atualizando o texto mateano, podemos nos perguntar: Hoje, nós também confundimos Lei de Deus com leis humanas? Como estamos vivendo a prática evangélica da partilha? Da justiça? Vale a pena pensar!

(Continua)

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