Formação – parte 1: “Ave! Alegra-te!”

Por Pe. Valmir Andrade dos Santos, PODP

A palavra grega usada pelo evangelista Lucas é a saudação grega chaire (Lc 1,28), que corresponde ao shalom dos hebreus (Mc 15,18; Mt 27,29; Jo 19,3). Podemos traduzir desta maneira: “Alegra-te, a paz esteja contigo!”. Existe, nesta palavra (chaire), um sentido de alegria, porque, em grego, o termo para alegria é chára, que tem a mesma raiz de cháris, graça. Assim, como podemos dizer que a alegria brota da manifestação da graça.


O anjo – que na bíblia representa Deus mesmo, pois não se podia ver Deus a não ser sob pena de morte – vem até Maria e inicia o diálogo com um imperativo: “Alegra-te, Maria” (1,28). A expressão inicial, colocada nos lábios do enviado de Deus, está carregada de significação e nos fala de Maria e do seu encargo. Nos meandros da Ave Maria, podemos contemplar o início da história que mudou os rumos da humanidade. É um anúncio de misericórdia: Como dizer que Deus principia tudo de novo e recomeça com uma mulher? A recriação em Cristo, que no dizer da Igreja é mais importante que a própria criação, consiste no diálogo entre Deus e uma jovem mulher, que sozinha decide dizer seu sim, o que seria uma ação inconcebível para a época.


A história salvífica começa com uma mulher que é capaz de se encantar e maravilhar-se diante do mistério de Deus que se manifesta no mundo e na vida das pessoas. O encanto é uma virtude; se perdermos a capacidade de nos encantar não experimentaremos jamais o que Maria viveu e jamais compreenderemos a proposta do Reino de Deus. Para compreender Maria e o mistério que a envolveu, precisamos nos despojar de nossa autossuficiência e nos revestir da abertura e disponibilidade de Maria.


O salmo 45 (44), no versículo 3 nos diz: “Tu és o mais belo entre os filhos dos homens”. Encanta-nos pensar que O mais belo entre os filhos do homem, no desenlace, foi procurar a mais bela de todas as mulheres e convidá-la para cooperar com o novo que estava por vir, a salvação do mundo. Maria é convidada a se alegrar. Lucas realça a alegria como um sinal próprio de Jesus e dos seus discípulos (Lc 10,17.21; 19,37; 24,52). A alegria brota quando a graça se manifesta.


Maria é chamada a alegrar-se por duplo motivo. Primeiro, porque encontrou graça diante de Deus (Lc 1,30). Deus se revela à humanidade no diálogo do anjo com Maria: ele é o Deus que traz a paz e a alegria. A mulher de Nazaré é cheia de graça, por isso pode e deve se alegrar. Na Sagrada Escritura, o Espírito Santo e a graça são praticamente sinônimos. A graça de Deus, que é o Espírito Santo, veio efetivamente sobre ela, pois deus mesmo a recobre com sua sombra (Lc 1,35). Maria se abre para acolher o Espírito e se torna um templo vivo, vocação para a qual todos nós também somos chamados.


O anúncio do anjo Gabriel (1,26-38) toma como base três profecias do Antigo Testamento: de Sofonias (3,14-17), de Joel (2,21-27) e de Zacarias (9,9). Tais profecias querem anunciar a felicidade messiânica. E, nas três vezes, o fazem utilizando a expressão chaire, que São Jerônimo traduziu para o latim como Ave. A pequena palavra Ave esconde a sublime manifestação da alegria. O mensageiro de Deus convida Maria para se ligar a este evento de singular originalidade e maravilhamento. Por isso, ao invés de dizermos apenas Ave Maria, deveríamos anunciar, Laetare, isto é, Alegra-te, Maria.

Colaborou: www.fiquefirme.com.br

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