Estudos sobre o Evangelho de Mateus – Parte 33: O Novo Povo de Deus

Por Hermes Fernandes

O grupo dos seguidores de Jesus cresce. A lavoura, a messe de Deus – o novo povo – torna-se fecundo como o trigo. E, para a surpresa de todos, no meio do trigo cresce, também, o joio. Este, plantado pelo inimigo, conforme nos informa a parábola (Mt 13,24-45). O novo Povo de Deus é desafiado no seu crescimento pelas forças de destruição presentes na história. Para resistir, faz-se necessário cuidados especiais para que o fruto cresça e nada se perca. É o desafio que encontramos nos capítulos de 13,53 a 18,35. Vamos caminhar junto à comunidade mateana, compreendendo quem é Jesus, qual seu projeto, quem somos nós – seus discípulos e discípulas – quem é o joio e, por assim dizer, os inimigos do projeto de Jesus. Por fim, sigamos com Ele até Jerusalém, fazendo nele a Experiência Pascal.

O Semeador e a Semente, Jesus e o Discipulado

Esquema de Exposição

Os capítulos de 13,53 a 17,53 constituem uma grande narração em torno da pergunta: Quem é Jesus? Ou: Quem são as comunidades dos discípulos e discípulas de Jesus? Em primeiro lugar, esta questão aparece entre os judeus (13,53 – 14,36). A personalidade e a prática de Jesus entram em confronto com a religião oficial (15,1-20). Surge novamente a pergunta “quem é Jesus”, agora na região dos gentios (15,21 – 16,20). A seguir, Mateus apresenta o início da caminhada de Jesus rumo a Jerusalém com o primeiro anúncio da Paixão e Ressurreição (16,21). Esse primeiro anúncio é seguido da incompreensão de Pedro e a repreensão de Jesus (16m22-23). O Mestre Galileu dá várias instruções aos seus discípulos sobre o seguimento dele (16,24 – 17,21). Há um novo anúncio da Paixão e Ressurreição (17,22-23a) e a incompreensão dos discípulos (17,13b). Mais uma vez Jesus proclama a liberdade do novo Povo frente ao poder religioso e político (17,24-27).

“Esse homem não é o filho do carpinteiro?” (13,53-58)

Jesus vai para sua terra, entra na sinagoga – casa de oração do seu povo – e aí começa a ensinar. Todos ficam admirados com sua sabedoria e autoridade. Mas sua origem é fonte de dúvida: “Esse homem não é o filho do carpinteiro?” (…) E ficaram escandalizados por causa de Jesus” (13,55-57). A origem de Jesus o desvaloriza aos olhos das autoridades e do povo.

O povo acostumado com a ideologia dominante não consegue acolher Jesus com sua proposta de vida. Como acostumamos dizer: “O uso do cachimbo faz a boca torta!”. Por trás do comportamento dos conterrâneos de Jesus está o sistema farisaico que aprisionou o povo no seu passado. Os preconceitos a respeito dos pobres e simples os impedem de aceitar o segredo do Reino presente em Jesus e nas comunidades cristãs.

“…Tu és o Filho de Deus” (14,1-36)

Afinal, quem é Jesus? Esta pergunta estava no meio da elite do governo, representada por Herodes (14,1-12). Estava também dentro do povo (14,13-21) e no meio daqueles que conviviam mais de perto com Jesus, ou seja, seus discípulos – as comunidades cristãs (14,22-36).

Em resposta à crescente dúvida sobre Jesus e as comunidades de seus seguidores e seguidoras, Mateus destaca características de sua prática. O que podemos elencar:

  1. Jesus é aquele que denuncia as injustiças (14,1-12):

A mesma pergunta dos conterrâneos de Jesus é retomada por Herodes, governador da Galileia, testa de ferro do Império Romano. Os opressores do povo têm pés de barro, por isso têm medo daqueles que lutam pela justiça. Herodes, cheio de medo, mistura a fé na ressurreição – recebida dos fariseus e escribas – com superstições pagãs e faz uma bela confusão entre Jesus e João Batista: “Ele (Jesus) é João Batista, que ressuscitou dos mortos. É por isso que os poderes agem nesse homem” (v. 2).

Jesus denuncia as injustiças como João Batista, assassinado para satisfazer o capricho dos convidados de Herodes (v.1-12). Herodes é a personificação do poder que se alimenta da violência e do assassinato. O que aconteceu com João é um anúncio do que acontecerá com Jesus e com o novo Povo de Deus (17,11-13).

2. Jesus é aquele que partilha (14,13-21):

Com a primeira multiplicação dos pães, Mateus deixa claro mais uma característica de Jesus e das comunidades cristãs: a partilha.

Ao ter notícias da morte de João Batista, Jesus toma o barco, atravessa o lago e vai para o deserto. A multidão sai da cidade e o segue mesmo sem compreender bem quem Ele é. Ao ver a multidão, Jesus “teve compaixão deles, e curou os que estavam doentes” (v. 14). Chega o final da tarde e o pessoal está sem comer. O que fazer? Os discípulos pedem a Jesus que mande o povo de volta para a cidade (antigo sistema que descarta os necessitados) para comprar comida para sobreviver. A resposta de Jesus caracteriza a sua prática: “Vocês é que têm de lhes dar de comer” (v. 16). Aqui está o “nó da questão”: voltar à cidade e comprar, ou a alternativa proposta por Jesus que é dar, isto é, compartilhar. Tal proposta significa produzir e partilhar para que todos usufruam, conforme a experiência do Dom do Maná no começo do Êxodo (Ex 16). Jesus é o novo Moisés que prepara alimento para a multidão. No entanto, olhando suas provisões: cinco pães e dois peixes, os discípulos acham que não têm o suficiente.

Jesus manda o povo assentar-se na grama, uma atitude de pessoas livres, pois lembra a refeição Pascal, memória da saída do Egito (Ex 12). Recolhe o que o grupo tem e pronuncia a benção, ou seja, agradece ao verdadeiro dono de todas as coisas, autor de toda benção, o Pai, Senhor do Céu e da Terra. Este Deus que, por sua generosidade e seu amor, dedica-se e cuida de todas as pessoas. Todos comem à vontade e ainda sobra. É o milagre da partilha que faz multiplicar. Cinco e dois somam sete que, para o povo judeu, indica totalidade. Todos se saciam e ainda sobra. Dozes cestos cheios! Esse é o novo povo de Israel, a viçosa lavoura de Deus!

A comunidade que partilha, concretiza a generosidade do Pai. Deus criador, cujo projeto é libertar o ser humano do egoísmo que gera o acúmulo e a morte. Isso é um milagre que faz multiplicar, ter abundância onde todos se saciam e ainda sobra para aqueles que virão depois (cf. Sl 104,27-28; 136,25).

Interessante notar que Mateus não fala na distribuição dos peixes. Somente, dos pães. Sinal de que eles não eram usados nas celebrações de suas comunidades. O que podemos confirmar uma íntima relação da partilha do episódio narrado (a multiplicação dos pães), com a partilha litúrgica – alimento da solidariedade e sustento da vida eclesial. O que se acrescenta um segundo ponto: Jesus dá uma particular atenção ao papel dos discípulos que fazem a mediação entre Ele e a multidão. Referência à diaconia. Mais um dado a se acrescentar ao nosso conhecimento é que no Evangelho de Marcos, os discípulos não entendem nada, enquanto – em Mateus – eles compreendem perfeitamente o que o Mestre quer, embora tenham dúvidas da possibilidade de alimentar tanta gente. A atuação participativa dos doze na cena da multiplicação dos pães nos indica a atuação dos ministros das comunidades no serviço da Palavra e da Mesa (At 22-33). No que se refere à Jesus, a partilha do pão não é algo extraordinário, mas norma de vida da comunidade cristã.

3. Jesus está no meio de nós (14,22-33):

Na perícope de 14,22-33; temos uma nova viagem de Jesus. O Mestre manda os discípulos entrarem na barca e seguirem para o outro lado do mar, enquanto ele despedia as multidões. Jesus não quer que seus discípulos cedam à tentação de buscar nele um Messias poderoso. Ele está em nosso meio como aquele que serve, que sustenta na crise!

Antes da nova etapa missionária, Jesus sobe sozinho ao monte para orar (v. 23). Ele é homem orante. Sua vida é marcada pela oração: Ele ensina a rezar (6,5-15), na agonia dialoga com o Pai (26,36) e na cruz morre rezando (27,46).

Enquanto Jesus reza, a barca dos discípulos se dirige para o outro lado, a religião dos gentios. A barca é símbolo da comunidade, enviada para outra margem, no meio dos gentios (8,28), para ensinar que a sociedade nova se constrói pela partilha. O mar está agitado. Referência análoga aos povos não judeus e as tensões entre eles, assim como, a rejeição a eles; por parte do judaísmo. Há resistência dos discípulos em se afastar do lugar do triunfo e aceitar que o projeto do Reino é para todos.

O mar está agitado e os discípulos são tomados pelo terror. Alguém se aproxima. Eles não reconhecem em Jesus a presença do Homem-Deus, o Emanuel (1.23). Pensam que é um fantasma. Jesus tranquiliza a temerosa comunidade com uma expressão do Deus do Êxodo a Moisés: “Sou eu” (Ex 3,14; cf. também Is 41,10; 43,1; 3,10). “Andar sobre a água” é um atributo próprio de Deus (Jó 9,8) presente nos desafios enfrentados pela comunidade ontem e hoje. Por isso, “Coragem! Sou eu. Não tenham medo” (14,29). Pedro desafia Jesus: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (14,29). Ele quer participar da condição divina de Jesus. Para Jesus, tudo bem. Isto já está prometido às comunidades dos pobres que assumem o projeto das bem-aventuranças em meio às perseguições (5,9). Mas Pedro esqueceu esta segunda parte. Ou seja, que o discípulo e discípula deve – antes – se fazer filho e filha de Deus com entrega total, no meio das oposições. E estas lhe causam medo! Ele crê em milagres, mas não crê no amor libertador do Messias. Jesus o censura: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” (14,31).

Jesus entra com Pedro na barca. O vento pára. Ou seja, a resistência das comunidades cristãs cessa. Elas deixam de buscar um messias triunfalista e reconhecem em Jesus, o Filho de Deus presente na comunidade. Mateus acrescenta os versículos 28-33 ao antigo relato para estimular suas comunidades a assumirem o compromisso com o Reino da justiça, acreditando em Jesus como Filho de Deus (14,33), presente entre seu povo.

Chegando em Genesaré, Jesus e seus discípulos são reconhecidos e a notícia de sua presença se espalha (14,34-36). Nesta região, vivia uma população sofrida, constituída – na sua maioria – de pobres e doentes. Jesus não ensina. Interrompe seu magistério, e põe-se a agir. Às vezes é preciso silenciar as palavras e pôr mãos à obra no Projeto do Reino de Deus. Por isso, deixa-se tocar pelos doentes, pessoas impuras que estavam longe de Deus e da sociedade e – em vez de se tornar impuro – Ele os purifica, curando a todos.

Quem se deixa tocar pelos pobres e excluídos, se torna portador da presença de Deus que liberta, integra e oferece vida. Mas para sermos tocados por eles, devemos estar no seu meio… Aqui se fundamenta o mistério da encarnação! Deus-amor no meio de nós.

(Continua)




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