Estudos sobre o Evangelho de Mateus – Parte 32: Os Mistérios do Reino de Deus – Mt 13,24-50

Por Hermes Fernandes

Nossos estudos sobre o Evangelho de Mateus se encontram no capítulo 13. Hoje nos dedicaremos à seção dos versículos 24 a 50.

Nesta perícope, temos as parábolas do Joio e do Trigo, da Rede e da Pesca, da Pérola e do Tesouro. São parábolas próprias do texto mateano. Expressam, de uma maneira particular, a vida das comunidades de Mateus.

Trata de comparações circunstanciais do cotidiano, e da realidade local daquele povo, com o Reino de Deus.

O Joio e o Trigo, a Rede de Pesca

“O Reino do Céu é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Uma noite, (…) veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo e foi embora” (v. 24). Cresce o trigo e cresce o joio. Como eles são muito parecidos, só na hora da colheita é possível separar um do outro. A imagem do joio e do trigo nos tornou proverbial, quase que corriqueira, em nossos tempos. De sorte que a parábola evangélica nos é transparente. Duas coisas não se tornaram corriqueiras, proverbiais, e se faz necessário dar algum destaque. Primeiro: o joio foi semeado por algum malfeitor. “Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio” (Mt 13,25-26). Este malfeitor reflete os poderes empenhados em malograr a boa colheita, aproveitando o momento do descanso legítimo, para sorrateiramente semear o mal junto ao bem (cf. Sl 127,2). Mesmo quando se há iniciativas dignas, fundamentalmente boas como o plantio do alimento, sempre haverá aquele que deseja destruir o outro, com projetos de maldade, às vezes, injustificáveis. Em segundo lugar, devemos observar a orientação da mensagem de Jesus para que se tome o joio com discernimento e paciência. Esta é uma orientação que pode ser aplicada em níveis sociais e eclesiais. Combater o joio passionalmente, pode matar também o trigo. Neste sentido, o discípulo e discípula de Jesus deve ter o discernimento entre o bem e o mal, mesmo que esses se pareçam em demasia, como pode o joio se camuflar em meio ao trigo. Há que se atentar aos que se dizem ao serviço do Reino de Deus e, em verdade, são inimigos do Projeto de Jesus. A estes devemos dedicar nosso discernimento, nosso olhar de sabedoria e ter a paciência de combater o mal em nosso meio, sem fazer perder aqueles que buscam – de fato – seguir Jesus.

O combate ao joio de forma prematura ou passional, pode ser entendido como os conflitos dentro da Igreja de Jesus que, no desejo de defender uma verdade, acaba-se pondo a perder os pequeninos. Há quem hoje se autodesigne defensor da Sã Doutrina e, com isso, ataca a todos que têm pensamentos divergentes aos seus, acusando-os de hereges, entre outros impropérios. Quando a apologética fere a caridade fraterna, está mais ao serviço do mal do que do bem. Há quem acredite defender a vontade de Deus e a Doutrina da Igreja, mas – em verdade – estão escandalizando e confundindo os pequeninos de Jesus. Condenando e julgando. Estes cristãos apologetas, moralistas; são joio, disfarçados de trigo. Lobos em pele de cordeiro.

Quando nos depararmos com o mal em nosso meio, que possamos usar da sabedoria apreendida de Jesus. Separando o joio do trigo, sem que se perca o trigo, isto é, sem machucar os corações de nossos irmãos e irmãs. Sobretudo, os pequeninos. Que possamos, enquanto seguidores e seguidoras de Jesus, sermos agricultores dignos e amorosos com sua colheita, isto é, o anúncio e a construção do Reino de Deus.

Mais adiante, Jesus explica essa parábola para os discípulos (v. 16-42) e conta outra com o mesmo sentido. Ele compara o Reino do Céus com uma rede, que – lançada ao mar – pega peixes de todo o tipo. Somente na praia é possível fazer uma boa separação, dando a cada um o destino adequado (v. 47-50).

Na comunidade há que se tolerar a presença do joio e do trigo: do bem e do mal. Não nos pertence julgar (Mt 7,1-2). Na hora da colheita, os frutos nos definirão, assim como a proximidade do olhar dos pescadores distingue na praia a qualidade dos peixes. Na construção do Reino é preciso ter paciência e esperar a hora certa para fazer o discernimento adequado. Senão, pode acontecer que – depois de banhar a criança, ao jogar a água fora – o bebê vá junto.

O Tesouro e a Pérola

A comunidade dos pequenos, percebendo o valor e a importância do Reino, quer que ele chegue a todos. Para mostrar isso, o Reino do Céu é comparado com um “tesouro” (v. 44) e com uma “pérola” (v. 45-46). Seu valor não tem limites. Vale a pena deixar tudo (cf. Mt 5,3; 19,21) para se comprometer totalmente com ele. O tesouro e a pérola são a experiência do reinado de Deus, fonte de vida e de alegria que ninguém pode tirar.

Mateus termina a instrução de Jesus aos discípulos com o tema da compreensão do Reino. A compreensão da comunidade dos pobres é bem diferente da dos doutores, que estão presos aos Limites da Lei. A comunidade que recebeu o segredo do Reino não se baseia em primeiro lugar no que fizeram Moisés e os Profetas, mas na mensagem de Jesus, chave para se entender o Primeiro Testamento. O mestre da Lei aqui é comparado a um proprietário de coisas velhas que agora quer se colocar como discípulo doo Reino. Ou seja, quem quiser se fazer discípulos, tem que ser discípulos. É o que fez o próprio evangelista. “E assim, todo doutor da Lei que se torna discípulo doo Reino do Céu é como o pai de família que tira do baú coisas novas e velhas” (v. 52).

O discurso do capítulo 13 traz um retrato das comunidades de Matheus nos anos 80 da E.C. As parábolas do Semeador (v. 3b-23), do Grão de Mostarda (v. 31-32) e do Fermento (v. 33); foram colocadas para animar as comunidades cristãs que se sentiam impotentes e desanimadas com os problemas internos e externos.

A oposição do judaísmo formativo, que desencadeou a expulsão dos judeus cristãos “das sinagogas deles” (Mt 10,17; 12,9; 23,34) e a crescente perseguição, gerou desânimo nas comunidades de Mateus. Daí a exortação catequética do Evangelho de Mateus. O Reino do Céu está aí com toda sua potencialidade e força. As comunidades não podem desencorajar-se diante das perseguições. Nessas circunstâncias, o juízo final assume um valor pedagógico para Mateus estimular a sua Igreja no seu compromisso de vida. É preciso fidelidade na prática da Palavra de Jesus. Por isso, o Reino é comparado a uma pérola e a um tesouro. Vale a pena empenhar a vida na luta por ele.

O tesouro escondido no campo e a pérola encontrada, são os valores que o Reino de Deus nos oferece. O Evangelho é uma mensagem de mudança de vida e de mentalidade, com a qual podemos reconstruir nossas vidas e nossa sociedade a partir dos paradigmas do sonho de Deus para nós. O amor proposto pela mensagem de Jesus e as relações a partir da justiça e da fraternidade, podem ser soluções para muitos dos nossos desafios. Em dias de abandono dos pequeninos, marginalização da solidariedade, entre outros valores antievangélicos; devemos apostar nossa esperança nas pedagogias do Reino. Dedicar todas as nossas expectativas nele. Sem medo e com a ousadia dos personagens das Parábolas do Reino, devemos colocar todos os nossos esforços na proposta de Jesus, na construção do Reino de Deus.

Sigamos firmes e esperançosos na caminhada e na luta por um mundo melhor. Vamos construir uma nova realidade. Pedra por pedra. Dia após dia. Tendo como norte as propostas de Jesus, sigamos com ousadia e desprendimento, escolhendo e arriscando tudo pelo Reino de Deus.

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