Estudos sobre o Evangelho de Mateus – Parte 31: Parábola é um Tesouro Escondido – Mt 13,10-23

Por Hermes Fernandes

Na perícope evangélica sobre a qual nos debruçamos em estudo hoje, continuamos a série de parábolas contadas por Jesus em Mateus. Em Mt 13,10-23, os discípulos perguntam a Jesus por que ele ensina por parábolas. As metáforas e analogias próprias e esta pedagogia usada por Jesus, refletem um discurso indireto. Como que codificado.

Entre exposições e comentários, se insere uma reflexão sobre a função das parábolas. Aqui vale evocar uma similaridade no Primeiro Testamento. O texto de Isaías 6,9-10 alerta sobre o fracasso do profeta por culpa dos ouvintes. Dado o coração infértil dos ouvintes, a dureza do anúncio irrita e endurece. Isaías nos fala do acontecimento e experiência de Is 30,9-11. Mesmo prevendo o resultado negativo, o profeta não pode calar-se, pois é Deus quem o envia e o anúncio, que sempre traz em si algo de denúncia, tem intenção salvífica. Este paralelo se nos faz útil também na compreensão do anúncio evangélico. Na particularidade do evangelho mateano, percebemos uma mudança do “para que?” e do “de modo que”, presentes em Marcos, em “porque”. Esta propriedade de estilo mateano sinaliza atitude de condicionamento à compreensão.

O capítulo 13 de Mateus é um discurso onde Jesus, através de sete parábolas, apresenta a natureza surpreendente do Reino do Céus. Os versículos de 1 a 2a faz a introdução do discurso que pode ser dividido em duas partes: v. 2b a 23 e 24 a 50. Cada parte consta de parábola, o porquê da parábola e explicação da parábola. Uma conclusão, também em forma de parábola, fecha o discurso no v. 51 a 52.

Desde os primeiros momentos do exercício de seu ministério na Galileia, Jesus gozava da credibilidade de uns, e da oposição – as vezes ferrenha – de outros. Para compreender o discurso em parábolas era preciso sensibilidade. Predisposição em receber a mensagem. As parábolas são como que um mapa do tesouro. Aos que sabem do que se trata, todos os símbolos, códigos, traços; são compreensíveis. Aquele que procura o tesouro da mensagem de Jesus, está em sintonia com ele e, por isso, compreende a nuance de suas palavras. Mesmo sendo as parábolas de linguagem simples, pedagogia apropriada ao cotidiano dos pequenos e humildes, eram ininteligíveis aos corações áridos pela arrogância e resistência ao projeto do Reino de Deus. Assim, Jesus responde aos seus ouvintes:  “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem. É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem” (Mt 13,11-13). É nesse sentido que Jesus confirma o que ensinou na Parábola do Semeador (Mt 13,1-9), presente no estudo anterior. A mensagem dele, mesmo que em forma de parábolas, quando chega aos corações dóceis, são como que sementes que caem em terra boa. Produz frutos.

Os discípulos não entendem porque Jesus ensina por parábolas. Eles acham que a multidão tinha condição de entender a mensagem. Jesus explica que somente a eles foi dado a entender “os mistérios do Reino do Céu” (Mt 13,11). Este poder de compreensão é Dom de Deus (Dn 2,27-30,47), dado à comunidade dos pobres e pequenos que assumem no dia-a-dia a prática de Jesus nas Bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12). Estes são a terra boa, onde a semente do Reino produz fruto. Somente da vida dos discípulos e discípulas, que partilham do caminho de Jesus e assimilam a proposta do Reino de Deus se pode esperar colheita abundante. “Vocês são felizes porque seus olhos veem e seus ouvidos ouvem” (Mt 13,16). O mesmo não acontece com quem está preso à viseira do judaísmo oficial, como é o caso de muitos dos interlocutores de Jesus nas multidões. Este é um dos grandes desafios encontrados pela comunidade de Mateus!

As multidões estão presas ao espírito dos Fariseus e Doutores da Lei. Elas escutam Jesus, veem suas atividades (seus gestos), mas não conseguem aderir a Ele. Por isso não entendem, não produzem frutos. Para entender a proposta de Jesus, não basta o raciocínio. É preciso ter os pés, as mãos e o coração livres! Ou seja, estar integralmente comprometido com a proposta do Reino de Deus. Para tanto, é preciso romper com os limites do passado – o pecado é a impossibilidade de sair do passado. O povo não tem forças para fazer isso porque o sistema farisaico oo colocou na prisão da Lei (cf. Mt 12,1-14). O povo está cego, surdo-mudo e de mãos atrofiadas, impedido de experimentar o impacto da presença e mensagem de Jesus. o Deus Conosco.

Mateus quer que suas comunidades sejam felizes, acreditem em si mesmas, em seu potencial, na força do Reino que lhes foi entregue. O reinado de Deus não será como um cedro que se destaca dentro de um bosque por sua aparência, nem como a farinha que constitui a maior parte dos ingredientes do pão. O Reino dos Céus é como a menor das sementes plantada que se transforma em uma frondosa árvore ou como o fermento que, quando se acrescenta só um pouquinho, fermenta uma grande quantidade de massa (Mt 13,33). Aquilo que parece insignificante e frágil aos olhos dos homens, é instrumento da força da vida do próprio Deus (cf. 1Cor 1,27).

Em nossa caminhada cristã, devemos estar atentos aos dois ensinamentos que a perícope nos apresenta hoje. É preciso decodificar a mensagem de Deus. Seu projeto de libertação nos chega ao coração e produz frutos quando estamos em sintonia com Ele. Quando não estamos a buscar a água podre do anti-evangelho e seus discursos de morte, pedagogias de poder, sistemas opressores. Para compreender a voz de Deus, presente nas profecias e nos ensinamentos do Mestre Galileu, é preciso ter um coração de pobre. Ter os olhos fixos na esperança que vem ao nosso encontro pelo coração amoroso de Javé, e pelo sacrifício Pascal de seu Filho. Ser Igreja é ser comunidade Pascal. Que anuncia a alegria e a esperança, não a morte e a submissão. Somos cidadãos do Reino, em Cristo Jesus. A nós foi dirigida a Palavra de Jesus no Evangelho: “Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram” (Mt 13,16-17).

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