Estudos sobre o Evangelho de Mateus – Parte 26: A Misericórdia e a Lei – Mt 12,1-14

Por Hermes Fernandes

O capítulo 12 de Mateus se inicia com duas questões envolvendo o sábado (12,1-8 e 12,9-14). O repouso sabático era o “carro chefe” dos celeumas dos Fariseus e Mestres da Lei, quando desejavam confrontar a Jesus.

Contextualizando

Os Fariseus acusam Jesus de permitir que seus discípulos violem o sábado, preceito do Decálogo (cf. Ex 20,10), tido em máximo grau de importância depois do exílio babilônico. Este preceito, conforme a teologia do Templo, era tão importante que, em certo fato narrado pelo Primeiro Livro dos Macabeus, alguns homens se deixaram matar por não achar digno e legítimo se defender de seus perseguidores em dia de sábado (cf. 1Mc 2,31-32). Preferiram a morte por obedecer o preceito, do que a punição em contristá-lo. Segundo a Lei, violar o sábado era delito punido por morte (cf. Nm 15,32-36; Ez 20,13). Aqui está claro que se trata de uma interpretação fundamentalista da vontade de Javé.

Analisando

O primeiro bloco da narrativa (Mt 12,1-8), fala que os discípulos de Jesus arrancavam espigas em um dia de sábado. Este “arrancar espigas” não nos é apresentado no contexto de colheita, pois não tinha fins comerciais e – sim – consumo imediato. O que podemos concluir que os discípulos colhiam espigas para saciar a fome. Algo de caráter emergencial. Já dizia o saudoso sociólogo e humanista Betinho: “Quem tem fome, tem pressa”.

A resposta de Jesus traz em si o estilo Halaká, trazendo à baila o relato sobre o rei Davi e seus soldados (1Sm 21,2-7) que, aparentemente, violam a proibição de Lv 24,5-9. Se o sábado é dia consagrado ao Senhor, também o pão – relacionado no paralelo acerca do rei Davi – era consagrado ao Senhor. A necessidade anula a proibição e o pão consumido por não sacerdotes, não fica profanado. No caso do relato evangélico de Mt 12,1-8 vale o mesmo princípio. O sábado não era profanado, dada a necessidade imediata de alimento. A analogia histórica feita por Jesus em resposta aos Fariseus é de astuta pedagogia. Não se atreverão os opositores de Jesus a criticar o rei Davi.

Indo além, o Messias acrescenta uma segunda disposição legal, ou seja, Nm 28,9-10. O ato de se oficiar o sacrifício ritual, configura uma forma de trabalho. Este, exercido no sábado. Exercer o sacerdócio na liturgia é uma forma de trabalho e, este, não é previsto como quebra da Lei, conforme nos informa o Livro de Números acima citado. Em síntese: a Escritura, tomada como forma de conduta, desacredita a casuística sobreposta. Jesus quebra os argumentos dos Fariseus com a própria Escritura.

Uma outra contribuição, a partir das Escrituras, é oferecida por Jesus, à guisa de argumentação. Jesus completa seu discurso apelando à sensatez. Chamando à compreensão, apresenta a palavra do Profeta Oseias. A citação de Os 6,6 adapta-se perfeitamente à situação. Analisando as raízes etimológicas das palavras, sacri-fício traz em sua raiz de significado, fazer de algo sagrado. Refere-se a consagrar. Em contrapartida, dar pão ao faminto é ato de misericórdia. Assim, Jesus declara “inocentes” seus discípulos, pois – pelas palavras do Profeta Oseias – Javé prefere a misericórdia, em preterimento ao sacrifício. “Misericórdia eu quero, não sacrifícios” (Os 6,6). Aqui está em jogo o valor do homem e da mulher, acima da instituição. Por fim, conclui com um aforismo lapidar: “Com efeito, o Filho do Homem é Senhor do sábado” (12,8). Marcos dará, em seu paralelo sinótico, um grifar à questão, não menos incisivo: “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Mc 2,27).

O segundo bloco da narrativa (Mt 12,9-14), relata que Jesus efetua uma cura em dia de sábado. O homem com a mão seca, uma espécie de paralisia, sofria com sua deficiência. No contexto veterotestamentário, e ainda nos tempos de Jesus, as doenças eram entendidas a partir da teologia do condenação, um desdobrar da teologia da retribuição. Um deficiente era alguém marcado pelo pecado. Tanto o é que, em outra perícope evangélica, do Evangelho de João, quando têm diante de si um cego de nascença, os discípulos perguntam: quem havia pecado? Ele ou seus pais? (cf. Jo 9,2). Este pensamento estava acrisolado na teologia da retribuição. Onde o Bem era sinal de virtude e graça, e o mau, pecado e maldição. Com isso, deficientes e doentes eram considerados pecadores públicos. Sendo excluídos e marginalizados. Não só na sociedade, como também, na religião judaica. Neste sentido, a cura deste homem com a mão seca se fazia algo emergencial, dado o muito sofrimento que sua deficiência lhe outorgava.

O segundo caso, conforme o Evangelho nos informa, acontece em uma sinagoga. Ali é o lugar por excelência da Lei. Assim o Templo é sagrado enquanto espaço. O Sábado é sagrado enquanto tempo. Assim, na perícope de Mt 12,9-14, o Tempo e o Espaço sagrados são confrontados por Jesus, conforme a lógica fundamentalista dos judeus.

Ben Sirac nos informa que a distinção do Templo e do Sábado, como Espaço e Tempo consagrados ao Senhor, procedem do próprio Deus (Eclo 33,7-9). No sábado o homem participa ou se associa ao descanso genesíaco do Criador (Ex 20,8-11). É sob estes argumentos que os rivais de Jesus se sustentam em sua questão capciosa. Podemos perceber que eles se adiantam. Questionam-no, antes mesmo que a cura se faça. Isto podemos atribuir ao fato de que, antes, Jesus já havia curado em dia de sábado. Neste sentido, o celeuma era – de fato – uma armadilha para pô-lo à prova.

Jesus responde com um argumento a minore ad maius, apelando ao senso comum e não à Escritura. Diferente do verificado no bloco anterior (Mt 12,1-8). O sábado não proíbe de se fazer o bem. Jesus o faz publicamente, polemizando ainda mais diante de seus interlocutores. Fazendo um paralelo com a Criação, Deus “descansou” no sétimo dia, depois de bem fazer todas as coisas. Outrossim, o Criador não deixou de fazer o bem. Afinal, a manutenção do cosmos é uma perene ação. Ininterrupta. Ao contrário, seria o caos. Por isso, fazer o bem não se opõe ao descanso. Mesmo no sétimo dia – dia do descanso do Criador, conforme o mito da Criação nos informa – a obra criada continuou seu curso natural. As águas se moviam, a brisa soprava, a vida seguia seu fluxo. Nisto também estava o agir de Deus. Nesta manutenção da ordem cósmica pode se encaixar a cura. O sofrimento humano não faz parte do sonho de Deus. Assim, Jesus restaura a ordem natural da Criação, que concorre sempre para o bem, mesmo em dia de sábado. A cura, ação de misericórdia e manutenção da criação amada de Deus, não fere o preceito do sábado. Ao contrário, plenifica-o. Todavia, esta interpretação da Lei, feita por Jesus a partir da lógica do amor de Deus, irrita aos Fariseus. Tanta misericórdia, confronta o legalismo e a exclusão dele resultante.

O relato se conclui dizendo que os fariseus se afastam de Jesus, conspirando sobre uma forma de matá-lo (Mt 12,14). Para eles, o profeta galileu chegou ao limite. A misericórdia, que promove vida, tem que morrer.

Atualizando o Texto

Assim como os Fariseus, nossa sociedade e – até mesmo – a comunidade cristã, tende a limitar a graça. Desejam contristar o Espírito de Deus (cf. Ef 4,30). Limitar sua ação, segundo critérios humanos. Ou, desumanos. Pode ser que o contexto em tempos hodiernos seja diferente. Outrossim, a questão não se difere ao todo. Quantas vezes não fomos questionados se este ou aquele irmão é digno da graça? Quantas vezes não se julga o beneficiado de uma ação de misericórdia por não lhe ser de mérito? A graça limitada à Lei. O Amor de Deus rebaixado à meritocracia. Assim como Jesus não podia curar nos dias de sábado, os discípulos não podiam saciar a fome, conforme o relato do Evangelho de hoje; pessoas em situação de rua são julgadas como não merecedoras de auxílio material por sua forma de vida. Dizem que são vagabundos, bêbados e drogados. Escolheram o sofrimento. Tudo muito fundamentado em doutrina e teologia. Claro que estamos a usar de ironia! Deus não nos ama por nossos méritos e, sim, por sua infinita misericórdia. Há quem julgue e condene em nome da Lei de Deus. E ele? Ama loucamente. Loucura de Cruz (cf. Jo 15,13).

O alimento que os discípulos buscavam pode ser entendido por nós de forma mais abrangente. Consideremos que não sejam as espigas da narrativa de hoje. Imaginemos que seja o pão espiritual, o Pão Eucarístico, e o acolhimento. Quantos não são nossos irmãos e irmãs que são interditados na comunhão plena na Igreja, em razão de alguma lei? Há quem defenda, com ardor apologético, que a Igreja não deve flexibilizar sua abordagem com os casais em segunda união, com os homossexuais, com os taxados como pecadores públicos, que – ainda hoje – são marginalizados e até excluídos em nossas comunidades. A dignidade, o afeto e a acolhida, devem ser negados a aqueles e aquelas que a moralidade, cheirando a moralismo, marginaliza. Seria o Pão Eucarístico mérito dos santos? Dos puros? Dos que atendem às expectativas de normalidade? Afinal, o que pensa Deus? Acolhe ou condena? Afasta os que, por motivos diversos, fazem escolhas que nem todos aprovam? E mais: onde está o Ábba – o Paizinho de Jesus – quando as portas da Igreja são fechadas e a comunhão negada aos que não correspondem a uma moral excludente e legalista?

Precisamos redescobrir Jesus. O Nazareno, caminheiro do Reino. Este Jesus que a todos acolheu, amou, perdoou, incluiu. Na Igreja de Jesus todas as portas estão sempre abertas. Aos que nela se apresentam, desejando acolhida. Nós, seguidores e seguidoras dele, não podemos nos arrogar o direito de administrar a entrada em sua Casa. Se deixarmos que o legalismo, o moralismo e o olhar de condenação pautem nosso agir; poderemos ser alvos de outra invectiva de Jesus dirigida aos Fariseus: “Ai de vós Fariseus, hipócritas! Fechais aos outros o Reino dos Céus, mas vós mesmos não entrais e não deixais entrar aqueles que desejam.” (Mt 23,13-14).

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