Catequese e Liturgia – Parte 26: Formalismo versus invencionismo litúrgico

A liturgia é tema polêmico, todos dizem. Mas nem por isso devemos nos calar em relação ao modo de celebrar a fé. Tem celebração de todo jeito, para o gosto de todo “freguês”. Tem até o rito de Pio V, ressuscitado por Bento XVI, depois dos avanços do Vaticano II! É mesmo uma pluralidade que, se por um lado, simboliza riqueza, por outro, ameaça não a unidade, mas o bom senso da fé. É tanta extravagância que a gente fica a admirar a inventividade das equipes de liturgia, incluindo o pároco – é claro!

Sou totalmente a favor de uma liturgia menos cerimoniosa, com menos rubricas, menos romanizada e mais encarnada na vida do povo! Se a liturgia não é expressão da vida, então já se transformou em um rito vazio, repleto de superstição. A liturgia deve fluir do coração: cada prece deve ser rezada com espontaneidade; cada gesto deve expressar um desejo do coração; cada silêncio deve ser pleno de presença; cada palavra deve ser dita desde dentro – tanto da parte do presidente da celebração quanto do povo que celebra, cada música deve ser cantada com todo o pulmão!

Infelizmente, porém, em vez de liturgias espontâneas e orantes, temos assistido a (e o verbo é mesmo transitivo indireto – “assistir a”!) liturgias totalmente “enformadas”, nas formas romanas – é claro! – ou, por outro lado, temos nos divertido com (ou sofrido com) liturgias que são verdadeiras produções cinematográficas. Estive tomando conhecimento de uns eventos que fariam morrer de inveja os grandes cineastas de Hollywood. Vejamos alguns exemplos. Numa missa de crisma, amarraram uma pomba numa bíblia e levaram-na no ofertório, entregando-a nas mãos do bispo. O pobre do bispo não sabia o que fazer. Depois de muita peleja, orientado pelos “mestres da celebração”, ele soltou a coitada da pomba que, desorientada, voou direto para o ventilador. Foi pena, sangue e pedaço de pomba para tudo quanto é lado. Uns riam, outros choravam; as crianças gritavam, os adultos tentavam contornar a situação. O horror ficou estabelecido! Como continuar rezando depois disso? Outro exemplo: numa celebração do mês da bíblia, para ilustrar a mensagem de que devemos estar plenos da palavra e dá-la ao mundo, o padre colocou na frente do altar, bem no centro do presbitério, uma mulher que se passava por grávida e gemia horrores na hora do parto. Fazendo caras e bocas de uma parturiente, abriu as pernas e, para surpresa de todos, “pariu a bíblia”. O presidente da celebração vibrava com sua originalidade, enquanto que os mais tímidos coravam de vergonha e as pessoas de bom senso ficavam a menear a cabeça buscando uma explicação para tal representação. Não faltam também casos sobre os presbíteros que transformaram a missa em programa de auditório. Gritando palavras de ordem em nome de Jesus, pulam, cantam, dançam e ordenam que os espíritos impuros cacem rumo de suas casas, pois ali não é lugar deles: um teatro de mau gosto, com atores amadores, cenário impróprio e teologia totalmente equivocada. Um verdadeiro processo de emburrecimento dos leigos e de culto ao presbítero! Chega a dar vergonha de ser católico!

Não estamos fazendo apologia de uma liturgia formal e sem vida, na qual o povo não possa se expressar nem deixar fluir suas angústias. Longe disso! Mas transformar as celebrações em teatros mal feitos é tão sofrível quanto enlatar a liturgia! Às equipes de liturgia, aconselho sobriedade, leveza, abertura para o diálogo e muito bom senso. Aos presbíteros, aconselho uma teologia provada, menos narcisismo e mais escondimento como o Verbo que se fez carne. Ao povo, peço paciência para suportar sem desistir da fé e coragem para protestar, manifestando sua insatisfação e reivindicando seu direito a uma liturgia prazerosa e orante! Fica aí a dica!

Solange Maria do Carmo
Colaborou: www.fiquefirme.com.br

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