Os Últimos e os Primeiros no Reino de Deus | Reflexão sobre Mt 19,23-30

Por Hermes Fernandes

Estamos da Terça-feira da 20ª Semana do Tempo Comum. A Liturgia de hoje nos oferece o Evangelho de Mateus 19,23-30. Esta perícope evangélica é a continuação da anterior, oferecida pela Liturgia de ontem.

Após o fim do diálogo de Jesus com o personagem conhecido por ser jovem e possuidor de bens, e do frustrado chamado de Jesus ao seguimento; o Mestre volta-se aos seus interlocutores e aprofunda sua catequese sob os acontecimentos ali presenciados. Pode parecer um lamento de Jesus, mas – em verdade – aprofunda a compreensão do chamado com aqueles que permaneceram com Ele.

Quando Jesus propôs ao seu interlocutor que vendesse seus bens e desse o resultado aos pobres, não se tratava de um sacrifício estoico, alienando-se de toda realidade e necessidade que a vida nos confronta. Afinal, é difícil evitar as preocupações celebradas por Ben Sirac, contidas em Eclo 31,1-2 e 31,8-12. A vida nos pede responsabilidades, as quais, nenhum escolha religiosa pode se furtar a elas. Em verdade, o que Jesus propõe ao jovem é que se faça discípulo. Por isso, vender seus bens e ter um tesouro no céu, vem nos significar ter um tesouro em Deus. Não se trata de teologia da retribuição, mas abertura para uma nova realidade, tendo como prerrogativa a partilha, a fraternidade e a justiça.

Nesta linha de pensamento, se justifica o discurso de Jesus no Evangelho de hoje. Ao dizer: “Em verdade vos digo, dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus. E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mt 19,23-24); o Mestre comprova que os ricos e poderosos não estão dispostos às dinâmicas do Reino. Não se dispõem facilmente ao seguimento de Jesus, vivendo a dinâmica da partilha e da justiça. Este seguimento, o que compreendemos como condição de apóstolo, (cf. Mt 4,20), é um ato voluntário de a tudo renunciar pelo anúncio do Evangelho. Este convite foi e é dirigido a poucos. Há que se lembrar aqui o encontro de Jesus e Zaqueu (cf. Lc 19,1-10). Este homem faz uma experiência de conversão, renunciando aos erros do passado, se abrindo às dinâmicas da partilha e da justiça e, mesmo assim, não lhe foi proposto o seguimento apostólico.

A hipérbole usada por Jesus, “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha”, também é uma forma de aprofundar a catequese e formação de seus seguidores. Esta forma exagerada de se expressar, quando se refere à dificuldade dos ricos em fazer a vontade de Deus, era bem comum naquela época. Para verificar isso, basta bebermos de algumas fontes do Antigo (Primeiro) Testamento. Eclo 31,1-10 é a exemplificação mais clara desse jeito de expressar e compreender. Ao comentar a covardia do jovem em assumir o chamado de segui-lo, faz uso destas imagens para se fazer compreender. Muitos exegetas se preocupam sobre qual seria o real significado do camelo e da agulha presentes nesta analogia. Todavia, importa compreender o sentido da hipérbole. Ter aos olhos – e com clareza – a imagem construída na forma de se expressar de Jesus. Não podemos embotar a hipérbole proposta, mas canalizá-la à ação de Deus que, em seu Reino, torna possível o humanamente impossível.

Nos versículos seguintes, temos a comunidade dos discípulos se excluindo do grupo daqueles que não estavam plenamente comprometidos. Representados por Pedro, que diz a Jesus: “Vê! Nós deixamos tudo e te seguimos! Que e haveremos de receber?” (v. 27), podemos perceber que eles ainda estavam presos ao conceito de reciprocidade no seguimento do Mestre Galileu. Ainda entendiam o Reino anunciado por Jesus como algo imanente. Era momento oportuno para que Ele desvelasse definitivamente o véu do equívoco. Contrapõe o imanente com o transcendente. A lógica do poder da sociedade, com a lógica do Reino de Deus. Vejamos:

 “Em verdade vos digo, quando o mundo for renovado e o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, havereis de sentar-vos em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna. Muitos que agora são os primeiros, serão os últimos. E muitos que agora são os últimos, serão os primeiros” (Mt 19,28-30). 

Ao leitor descuidado, pode parecer que Jesus remonta em suas promessas futuras a lógica do poder e da dominação. Em verdade, ele usa dos olhos dos discípulos para mostrar sua própria visão. Da mesma forma com que as parábolas narravam as propostas do Reino de Deus a partir da realidade do povo simples, é pelos “pré-conceitos” dos discípulos que Jesus revela sua nova realidade. Como que um reciclar de ideias e ideais, que fica-nos claro no versículo 30. Os discípulos perguntam quais seriam suas recompensas no Reino. Esta pergunta tem nuances das pedagogias do poder. Da Teologia da Reciprocidade. Jesus fala a partir da abordagem deles, mas acrescenta no v. 30 uma novidade que desmonta toda estrutura anterior. “Muitos que agora são os primeiros, serão os últimos. E muitos que agora são os últimos, serão os primeiros”. Aqui, Jesus dá um xeque-mate na teologia da retribuição, reciprocidade ou prosperidade. Ele coloca a dinâmica do Reino como a única forma de viver o Evangelho. Onde os pobres, os pequenos, os marginalizados, os excluídos todos; têm primazia, predileção, no Reino de Deus.

Para compreendermos melhor os versículos de 28 a 30, vale sublinhar que Pedro – ao interpelar Jesus em nome da comunidade – pede maior esclarecimento da novidade de sua proposta. O Apóstolo fala a partir da lógica humana e social. Jesus responde apontando uma nova lógica, como dissemos acima, aproveitando a forma de ver dos discípulos. As comunidades dos pequeninos, que renunciam por causa dele aos ídolos da riqueza e do poder, formam um novo povo de Israel e, assim, tornam-se juízes da história (cf. 19,28). Mais ainda: aqueles e aquelas que vivem a fraternidade e a partilha, experimentam – aqui e agora – a plenitude do Reino. Vivem antecipadamente o aperitivo da vida em Deus. Esta é a recompensa de quem coerentemente luta pelo mundo novo (cf. 19,29).

Ainda vale sublinhar que Mateus, ao fim da perícope da Liturgia de hoje, acrescenta um dado original, quando comparado aos outros Evangelhos: “Muitos que agora são os primeiros, serão os últimos. E muitos que agora são os últimos, serão os primeiros” (19,30). No tempo das comunidades de Mateus, os opostos apresentados nesta forma de se expressar, podem significar os poderosos, as elites – incluindo os grupos do judaísmo formativo, por um lado. Por outro, as pequenas comunidades cristãs pobres e desprezadas.

Em nossas comunidades hoje, fica-nos o ensinamento de que nosso seguimento de Jesus não deve, nem pode, ter quaisquer relações com expectativas de reciprocidade. Optar pelo Reino de Deus é escolher estar no lugar dos últimos. Ter um coração de pobre, renunciando à corrida pelo lucro e pelo poder, não significa esperar mais riquezas e poder no último dia. Ao contrário, esse jeito de ser e viver – segundo a lógica do Evangelho – é a única forma de se confrontar eficazmente as desigualdades que a sociedade dissemina. Colocar-se no lugar do último, na perspectiva de um bom lugar no Reino de Deus, não pode repetir uma ambição pelas vias escatológicas. Ao contrário, é transformar esse mundo, nosso chão, que padece de desigualdades inúmeras, relegando à marginalização os pequeninos de Jesus.

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