Arquitetar um Mundo Aberto | Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arquitetar um “mundo aberto” é tarefa missionária, abrangente, que pede o envolvimento de todos os cidadãos, para dissipar as sombras de um “mundo fechado”. A expressão “As sombras de um mundo fechado” é titulação do primeiro capítulo da Carta Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, chamando atenção para algumas tendências atuais que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal. Mesmo com avanços e conquistas científicas, há sinais claros de regressão na história da humanidade contemporânea. O Papa Francisco focaliza o reacender de conflitos originados de nacionalismos fechados, ressentidos e agressivos. O sentido social, na contramão dos avanços tecnológicos e científicos, está contaminado por ideologias, egoísmos e atitudes perversas.  É preciso investir na qualificação da cidadania: tarefa de cada pessoa, que precisa ter como meta o bem, a justiça e a solidariedade. E o bem, a justiça e a solidariedade não são alcançados “de uma vez para sempre”, conforme alerta o Santo Padre. Precisam ser conquistados diariamente, o que exige o esforço incansável e permanente de todas as gerações.

O ponto de partida será sempre o compromisso de cada pessoa cultivar o “coração da paz”. Exercício que exige a adequada compreensão a respeito da paz – que é, ao mesmo tempo, dom e missão. Dom que vem de Deus, mas também missão, pois a paz precisa ser cultivada nas relações – entre pessoas, nações, grupos, instituições e segmentos que formam uma civilização. Quando se reconhece que a paz é, acima de tudo, uma dádiva divina, percebe-se grande incoerência naqueles que justificam ações na contramão da paz sob o pretexto de que o fazem “em nome de Deus”. Não é possível professar a fé em Deus com ações perversas, que afrontam a dignidade humana, trazendo desordem sociopolítica. Há, pois, uma lógica moral que é inegociável e não pode ser desrespeitada. É justamente essa lógica que pode iluminar a convivência humana, tornando possível o diálogo entre pessoas e povos.

A Doutrina Social da Igreja aponta para a importância de uma gramática transcendente, em referência ao conjunto de regras que precisam balizar a ação individual e o relacionamento entre as pessoas, favorecendo o exercício da solidariedade e a promoção da justiça. Inscreve-se no coração humano uma dimensão sagrada e divina que não pode ser ignorada sob pena de embrutecimento, da perda de racionalidade. Sem dedicar devida atenção a essa dimensão sagrada e divina, tornam-se cada vez mais banalizadas as indiferenças terríveis e comprometedoras, não se reconhece o sentido de pertencimento a uma nação, a um povo, cultura e sociedade. Consequentemente, não se efetiva a arquitetura de um “mundo aberto”, pois o ser humano se distancia do mistério do amor de Deus.

A dimensão divina e sagrada que se inscreve no coração humano, uma lei natural, seja base indispensável para o diálogo entre pessoas que se vinculam a diferentes religiões, também entre estas e os não crentes, respeitando ainda a laicidade na organização social e política. Somente se avança na arquitetura da paz por meio da busca pelo encontro dialogal, que, para se efetivar, exige respeito à dignidade de cada ser humano – em cada pessoa se reflete a imagem de Deus-criador. Por isso mesmo, a Igreja Católica sempre defendeu os direitos fundamentais, colocando-se, lealmente, em debate com aqueles que detêm maior poder político, econômico ou tecnológico, mas violam os direitos dos outros, especialmente dos pobres.

Inegociável na arquitetura de um “mundo aberto” é defender, incondicionalmente, o direito à vida, especialmente aquelas ameaçadas por conflitos armados, terrorismos, violências, aborto, fome e por muitas outras situações que geram vítimas. A tarefa de vencer as sombras de um “mundo fechado” inclui investir no entendimento de que a humanidade é uma família, comunidade onde deve prevalecer a paz. Neste horizonte, a Doutrina Social da Igreja Católica lembra: a família natural, enquanto comunhão íntima de vida e amor fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher, é o lugar primário da humanização, da pessoa e da sociedade. Uma vida familiar saudável é escola de elementos fundamentais para fortalecer a paz. Importa fortalecer e qualificar a vida em família, para não ocorrer a debilitação da paz na comunidade humana. Buscar a paz é caminho para superar um “mundo fechado” em suas sombras, com atrasos e perdas muito sérias. A poesia da construção de um “mundo aberto” precisa, urgentemente, e de modo contagiante, de cidadãos e cidadãs assumindo a condição de arquitetos da paz para edificar uma civilização alicerçada na justiça e no amor.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Colaborou: Arquidiocese de Belo Horizonte

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