O Pai Celeste não deseja que se percam os Pequeninos | Reflexão sobre Mt 18,1-14

Por Hermes Fernandes

Estamos na Terça Feira da 19ª Semana do Tempo Comum. Na Liturgia da Palavra nos é sugerida a leitura de Ez 2,8-3,4 e Mt 18,1-5.10.12-14. Vamos nos atentar ao Evangelho.

Todo o tema do fragmento do Evangelho de Mateus, que a Liturgia nos oferece, gira em torno da pequenez em relação ao Reino de Deus. Aqui os pequeninos estão em oposição aos que estão em busca de grandeza. Um antônimo de significado, em resposta aos afãs dos discípulos por prestígio e poder. Isto fica bem sublinhado quando perguntam a Jesus quem seria o maior no Reino dos Céus (v. 1). Quanto a alguns equívocos dos discípulos de Jesus, em relação a qual seria sua real vocação apostólica, e qual seria esse Reino anunciado por Jesus; há que se considerar que os seguidores e seguidoras do Mestre Galileu eram seres humanos. Não anjos! Por isso, foi gradativa sua formação na compreensão de qual era, de fato, o projeto de Jesus. Não são poucos os relatos bíblicos que nos revelam o entendimento de que Ele seria um Messias Glorioso que, com seu poder, derrotaria os opressores de Israel. Por isso, uma vez triunfado seu poder, seus companheiros teriam lugares especiais no reino que se instalaria. Os discípulos estavam equivocados quanto à identidade de Jesus, não disputavam poder entre si. Neste sentido, Ele aprofunda sua catequese, dando aos discípulos uma verdadeira perspectiva de qual seria a revolução proposta por Ele. O Reino de Deus se constrói pela pedagogia do amor, onde os pequenos – os menores e últimos – tem lugar de precedência. Em grau de importância.

Nesta perspectiva, as criancinhas simbolizam a mais assertiva alegoria para a compreensão desta controversa realidade de Javé. Já no discurso inaugural de Jesus em seu ministério, ou seja, o conhecido Sermão da Montanha (Mateus, capítulos de 5 a 7), a felicidade plena, a bem-aventurança, é destinada aos últimos. Aos pobres, aflitos, marginalizados, aos que clamam por justiça, aos de coração manso etc; destina-se a predileção e plenitude de Deus. E na perícope evangélica da Liturgia de hoje, parece que Jesus retoma esta perspectiva. A de que Javé, Deus dos pobres e sofredores, se coloca radicalmente ao lado deles e, neles, nutre especial afeição; destinando-os o melhor lugar em seu Reino. Aqui vale sublinhar os versículos de 2 a 5 do capítulo 18 de Mateus.

A instrução para entender a lógica da importância na nova comunidade de Jesus, tem íntima relação com as revelações do Antigo Testamento. Javé já havia se comprometido com os últimos. Em um contexto veterotestamentário, em grau de valia, as crianças e as mulheres simbolizavam peso e entrave na compreensão da sociedade judaica. As mulheres não tinham direito à propriedade e, por isso, não eram referenciais econômicos, sendo dependentes da figura masculina e, por isso, sofriam marginalização – mesmo que velada. Um pai preferia ter um filho homem, que continuaria sua descendência e ampliaria seus bens e patrimônios. A mulher nunca poderia exercer esse papel. Por isso, ter uma filha mulher, significava perder a perspectiva de progressão econômica e continuidade da descendência. Afinal, a figura masculina era sempre a lembrada enquanto clã. Era o homem que dava nome à descendência.

Javé inverteu essa mentalidade patriarcal. Muitas mulheres participaram ativa e essencialmente dos planos divinos pelo bem de Israel, seu povo. Vale lembrar aqui a Profetiza Débora, Ana (mãe de Samuel), a Profetiza Hulda, Judite, Ester; Maria, Mãe de Jesus. Tantas mulheres, que da pequenez de seu viver, se tornaram protagonistas do sonho de Deus para a humanidade! Javé sempre fez muito do pouco. Fez magnânimo, o que parecia pequeno.

Neste mesmo grau de marginalização, se compreende a imagem de uma criança. Não estando em sua idade adulta, não poderia se responsabilizar pela pedagogia da economia doméstica. Uma criança é uma criança, por isso é a esperança do futuro. Sob um olhar imediatista, uma criança não tinha importância no presente, sendo completamente dependente, era um peso. Neste sentido, dizer que só poderá ser grande aquele que se tornar como uma criancinha, significa se colocar na lugar de pequeno, último, vulnerável, desvalido. E Jesus não só diz que para ser grande é preciso estar no lugar e condição de uma criança (v. 4), como também nos exorta a não menosprezar uma criança (v. 10), e com isso, não desmerecer qualquer que seja quem esteja na sua condição, ou seja, ser um último na lógica da pedagogia do poder.

Ao fim do Evangelho da Liturgia, temos um arremate que não poderia ser melhor. Diante do anteriormente exposto – a busca do poder e a exortação a identificar-se com os marginalizados, como caminho de seguimento de Jesus – Mateus, a partir do versículo 12, aborda a questão da misericórdia. Oportuna conclusão da catequese de Jesus na Liturgia de hoje!

A pedagogia do Mestre para tratar da misericórdia, em formato de parábola, vem confirmar tudo o que antes fora exposto. A ovelha perdida significa aquele que está fora do rebanho. Com isso, acrescenta aos preferidos de Javé, também os pecadores públicos, excluídos do convívio na religião e sociedade judaica. O Messias dos pobres reintegra todos e todas que a religião do Templo exclui de seu meio, considerando-os impuros e, até mesmo, odiosos. A ousadia das palavras do Cristo sublinha a radicalidade do amor de Deus, seu Pai. Ele prefere – se alegra – com a ovelha perdida. Muito mais do que com aquelas que estão no redil. Com isso, põe por terra a religião dos puros, da meritocracia, da teologia da retribuição. Conclui exortando aos seus discípulos que é missão primeira ir ao encontro daqueles que estão excluídos da comunidade religiosa e marginalizados na sociedade. Isso podemos verificar quando disse Jesus: “Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos” (Mt 18,14).

À luz das exonerações de Jesus, nós que somos continuadores da Igreja de Jesus, devemos trazer para nossa vida a mesma radicalidade enquanto compromisso com o Reino de Deus. Não nos deixarmos corromper pelas pedagogias do poder que a sociedade nos incita, entendendo que só poderemos ser – verdadeiramente – discípulos e discípulas de Jesus, se nos colocarmos no lugar e ao lado dos últimos. Devidamente comprometidos com o Evangelho, devemos acolher em nosso coração a certeza de que a maior riqueza da Igreja não é sua tradição e, sim, sua disposição em transformar a realidade à luz dos valores Evangélicos. Por eles, com ele e neles; deve estar focada nossa ação evangelizadora. Devemos acolher sempre, amar sempre, optar sempre pelos últimos. Só acolhendo estes que são os descartados da sociedade, por uma economia da exploração, e excluídos pela religião, em razão de uma teologia da condenação, poderemos – de fato – construir aqui na Terra o Reino de Deus, na expectativa do Reino Definitivo. A misericórdia deve ser a nossa Lei. E ela vai contra a dinâmica do poder, da condenação e exclusão.

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