O livro de Amós: Coragem e determinação no anúncio da Palavra de Deus

Por Solange Maria do Carmo

Conforme o livro que traz seu nome, o profeta Amós era da cidade de Técua, ao sul de Jerusalém. Apesar de ser do Reino do Sul, sua atividade profética (século VIII aC, quando reinava Jeroboão II) é dita como exercida no Norte, especificamente em Betel, cidade da região que se tornara centro religioso, juntamente com a cidade de Dã, onde Jeroboão I mandara erguer um lugar para o culto. As dificuldades de Amós começam aí, no fato de ser de outra região, inclusive com fortes inimizades entre os dois povos que se formaram depois da divisão da monarquia. Além disso, Amós não pertencia a nenhum grupo de profetas, ou seja, suas raízes são outras bem diferentes. Ele não frequentava escola profética, não tinha parentes profetas… nada! Amós era vaqueiro e cuidava de suas vacas lá nas pastagens de Técua, onde também plantava sicômoros[1]. O texto diz: “Não sou profeta, nem discípulo de profeta. Sou vaqueiro e cultivo sicômoros. Foi o Senhor quem me tirou de detrás de meu rebanho e me disse: ‘Vai profetizar contra Israel, o meu povo’” (7,14-15).

Amós, vaqueiro e agricultor, tornou-se profeta por ordem do Senhor. Não sabemos muito bem como foi que o Senhor entrou na vida de Amós, como foi sua experiência de Deus, mas sabemos pelo texto que é, a partir desse encontro, que Amós deixou tudo e iniciou sua atividade profética. A missão de Amós não era fácil: anunciar ao povo do Norte que o Senhor não estava lá muito contente com a forma como estava levando a vida. Relaxado com a Lei do Senhor, o povo de Israel esquecia-se das exigências éticas da pertença ao Deus de Abrão, Isaac e Jacó, seus patriarcas. Amós terá a tarefa de lembrar a seus contemporâneos que Deus ama e protege os fracos, e que toda investida contra eles será tomada como uma afronta ao próprio Senhor. Com coragem Amós anuncia: “Não perdoarei Israel por seus crimes: eles vendem o justo por dinheiro e o indigente por um par de sandálias; esmagam a cabeça do fraco no pó da terra e tornam a vida dos oprimidos impossível” (2,4-7). Sua atividade será uma advertência dirigida aos que se esqueceram dos caminhos do Deus e um convite a abandonar o mal e a retomar o bem: “Procurai o bem e não o mal para poderdes viver” (5,14), insiste o profeta de Técua. Mas, pelo que o texto deixa transparecer, o problema da injustiça havia se alastrado. Não seria tão fácil assim convencer aquela gente a abandonar o pecado e a se converter ao Senhor. Acomodados em sua riqueza, advinda da exploração dos pequenos, os grandes dormiam em camas de marfim ou se esparramavam em cima dos sofás, comendo cordeiro (cf. 6,4), sem se importar com o sofrimento dos pobres. Ah! Mas pensou Amós: “Isso não vai ficar assim. Se essa gente pensa que engana Deus com seu culto vazio, apenas por causa de suas ofertas e sacrifícios, está muito enganada. Deus detesta celebrações rituais, que não levam ao compromisso com a justiça!” (cf. 5,21-27).

Cheio de coragem, então, Amós não se cala. Anuncia a palavra do Senhor, mesmo sabendo das consequências deste anúncio. Amós não tem medo. Ele sabia lidar com touro bravo, com vaca doida, com rebanho estourado. Não saberia lidar com a rebeldia de Israel? Mas, apesar da dureza da profecia de Amós, tanto contra povos pagãos tais como Damasco, Filisteia, Amon, Moab (primeira parte do livro), quanto contra Israel, seu principal foco (segunda parte do livro), o profeta de Técua anuncia também a esperança. A terceira parte do escrito, apesar de falar da destruição que virá sobre Israel – e que se concretizou em 722 aC, quando a Assíria invadiu Israel e dominou-a – traz uma bela mensagem de ânimo e esperança. A profecia final de salvação traz imagens belíssimas: Deus vai remendar as brechas de Israel e restaurá-la como nos tempos antigos; vai reverter o cativeiro do povo; vai fazer a montanha suar vinho novo… (cf. 9,11-15)

Lindo texto de Amós! Sua coragem e intrepidez fazem pensar nossa tibieza no anúncio da palavra do Senhor. Será que nós, pobres vaqueiros de outras Técuas, sem nenhuma linhagem profética, sem nenhum antecedente garantidor de sucesso na missão, poderemos também anunciar ao mundo que a religião cristã descolada da ética é apenas culto vazio, que não faz sentido algum? Deus nos conceda a graça de anunciar com coragem sua palavra de graça, mas sem perder a graciosidade jamais!

***

[1] O sicômoro é uma planta da família das figueiras, mais conhecida como figueira-doida, que produz um figo de qualidade inferior à figueira comumente cultivada na região da Palestina.

Colaborou: Fique Firme

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: