O livro de Joel: No meio da catástrofe, a esperança

Por Solange Maria do Carmo

O livro de Joel[1] é o segundo da coleção Profetas Menores. É um livrinho pequeno, apenas quatro capítulos; dá pra ler numa piscada só. Mas seu teor não é dos mais fáceis. O livro de Joel fala sobre o dia do Senhor e traz textos belíssimos, promessas maravilhosas, mas não deixa de ter trechos obscuros. Fica-nos, ao ler o livro, uma sensação de que ele é como uma roupa, um vestido, por exemplo, constituída de dois tecidos diferentes. Nem por isso o texto perde sua beleza e sua capacidade de comunicar a experiência de Deus!

A primeira parte surge da observação de desastres ecológicos: seca e gafanhotos. A segunda parte trata do dia do Senhor. Bela mensagem é a da efusão do Espírito de Deus nos últimos dias, deixando claro que este Espírito é para todos: jovens, velhos, escravos, livres… Mas, se o dia do Senhor traz esperanças por causa da efusão do Espírito, também adverte e corrige pensando na justiça de Deus. Ao final, tudo termina bem, com bela mensagem de esperança no capítulo 4, sobre a alegria final.

Vejamos a primeira parte (1–2). Para começar, um lamento, um cântico fúnebre sobre o país devastado. Apesar da melancolia, o texto é belíssimo: “O que o louva-Deus deixou, o gafanhoto comeu; o que o grilo deixou, o saltão comeu” (1,4). Na expressão de Joel, o país “suspira igual à jovem que está de luto pelo amor de sua adolescência” (1,8). Tal é a tristeza que não só “todas as árvores secaram; até a alegria da gente murchou!” (1,12). Belas metáforas têm Joel! Logo em seguida, um apelo à conversão. Será que, ao olhar para o país devastado, aquela gente vai reconhecer que precisa se voltar para o Senhor? Na cultura daquele tempo, qualquer sinal estranho na natureza era lido como castigo de Deus: inundações, gafanhotos, granizos, eclipses, secas etc. Tudo convidava a rever a vida e a se ajustar ao Deus da vida. É o que faz Joel ao olhar para o país devastado por seca e gafanhotos: “Vesti luto e chorai… convocai para um jejum”(1,13-14), afinal tamanhas catástrofes faziam pensar que o dia do Senhor estava próximo.  Este é o tema do capítulo 2, que completa a primeira parte do livro de Joel.

A segunda parte (3–4) traz esperança de que, depois de toda essa desolação, virá a consolação do Senhor. Afinal, como enfrentar o juízo do Senhor se não cheios de sua própria força? É o capítulo 3, com a promessa do derramamento do Espírito: “Derramarei o meu Espírito sobre todos os viventes” (3,1). E a presença do Espírito é dita em forma de profecias, sonhos, visões… modos próprios do agir de Deus no Antigo Testamento. Moisés profetizava: José do Egito tinha sonhos; Jacó tinha visões… Os homens de Deus, de alguma forma, recebiam a sua comunicação. Assim será nos últimos dias: todos entrarão em comunhão com o Senhor e este não será privilégio de profetas, líderes ou patriarcas. Esta é a esperança de Joel! Logo em seguida, o capítulo 4, com imagens do julgamento final e do combate. Mas Joel fecha seu texto com chave de ouro: “Acontecerá naqueles dias que as serras estarão suando vinho novo; os morros escorrendo leite e os córregos de Judá terão água o ano inteiro” (4,18). Belíssimas imagens para encher de coragem e ânimo os seus leitores. Em meio às catástrofes, é preciso manter a esperança, sempre!

O que a leitura de tal livro nos acrescenta? Certamente, esperança e desejo de conversão. Em meio ao turbilhão de problemas que muitas vezes nos assolam, melhor nos voltarmos para o Senhor, buscarmos sua presença e sua força. Não porque a tribulação – tal como o granizo e a seca para a comunidade de Joel – nos pareça castigo do Senhor. Não! Deus é amor e não castiga ninguém. Mas porque nele está a força de superação. Nele nós podemos confiar. No meio da catástrofe, mantemos a esperança: não estamos sós! O Ressuscitado está conosco!

[1] Sobre o profeta Joel, sabe-se pouco, quase nada na verdade. Não é como Oséias, Isaías ou Jeremias, cuja atuação profética localizamos com facilidade na linha do tempo. Mas, pelo teor do livro, podemos localizar o texto por ocasião do ano 400 antes de Cristo, ainda que não saibamos se o profeta que inspira o escrito tenha vivido na mesma ocasião. 

Colaborou: Fique Firme

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