A Transfiguração do Senhor e nossa Transfiguração de Cada Dia | Reflexão sobre Lc 9,28b-36; sob a perspectiva da Festa da Transfiguração do Senhor

Por Hermes Fernandes

Neste Sábado, 6 de agosto, celebramos a Transfiguração do Senhor. Na Liturgia e na Vida, somos chamados à Luz de Jesus, fazendo com ele e nele a experiência da transfiguração. Somos convidados, pela narrativa evangélica (Lc 9,28b-36), assim como os três discípulos, a testemunhar a Natureza Divina de Jesus inerente à sua condição humana. Como teologia, o fato transparece a certeza cristã de que, em Jesus, subsistia – desde sua concepção em Maria – o aspecto humano e a substância divina. Ao revelar-se aos discípulos, aos três de maior intimidade, Jesus quer garantir que a memória de sua glorificação seja testemunhada a todos os que o seguirão futuramente.

Há dois modos de compreender a transfiguração de Jesus. Uma coisa é certa: Ele se mostrou de modo completamente diferente do cotidiano. Era luminoso, claro, resplandecente. A questão que hoje a Teologia tenta desvendar é se Jesus tornou-se resplandecente ou se os apóstolos, livres de preconceitos, conseguiram ver o que ele realmente era, o Divino escondido no Humano. Aqui fica-nos a certeza de que o episódio da transfiguração é a prova definitiva de sua messianidade. Sim, Jesus é o Messias esperado! Outrossim, esse Messias não se configura concomitante ao consciente dos judeus de sua época. Não se trata de um Messias-Rei que libertaria Israel da colonização romana. Era mais que isso! Convidaria seus seguidores à uma nova realidade. Novos céus e nova terra. O Reino de Deus.

É importante lembrarmos que o episódio da transfiguração antecede imediatamente à decisão de Jesus em fazer o caminho para Jerusalém. Em Lucas, assim como em Marcos, esse caminhar para a cidade sede do poder religioso-político do tempo de Jesus, se faz como que um itinerário teológico e formativo. Durante esse caminho, Jesus vai aprofundando sua relação com os discípulos, solidificando seus ensinamentos. É nesse caminho, também, que Jesus apresenta o mistério de sua Paixão que está por vir. Por isso, no caminho para Jerusalém, os discípulos não só aprofundam seu processo catequético, como também, vão conhecendo a messianidade de Jesus como de fato se daria. Não o Messias Glorioso que tomaria o poder sócio-político, mas o Servo Sofredor profetizado por Isaías, o que podemos verificar do capítulo 40 ao 55 do livro do profeta. O Messias pobre, que tomaria sobre si nossas dores e por suas chagas seríamos todos curados de nossas enfermidades, nossos sofrimentos e, também, libertos de toda e qualquer forma de opressão, marginalização, exclusão (cf. Is 53,4-5). Transmutaria nossa dor em alegria, nosso sofrer em celebrar, nossa morte de cada dia, em ressurreição para uma Vida Plena e Eterna.

Aqui podemos fazer um paralelo dialético entre o Tabor, e o Calvário, este antecedido pelo Getsemani. No primeiro, Jesus se faz revelar em sua glória. Com aparência transfigurada, Jesus é visto por seus discípulos a dialogar com Moisés e Elias. Se fizermos uma retrospectiva da vida e ministério de Jesus até esse momento, podemos elencar que, a partir de sua apresentação em Nazaré (Lc 4,18), experimentou de seus interlocutores entusiasmos, incompreensões, foi – e ainda era – perseguido pelas autoridades religiosas do judaísmo. Para esses que conheciam a Escritura (Torá e Profetas), o Messias tinha que ser reconhecido segundo seus conceitos, seus arquétipos de digno salvador de Israel. Para eles, o Messias deveria vir de casta nobre, participante dos esquemas de marginalização e exclusão presentes na religião de Israel. Ao contrário, Jesus nasce pobre, inaugura seu ministério em uma sinagoga pobre da Galileia, opta por viver entre os pobres, rejeita os ideais de pureza e meritocracia da religião vigente, convidando-a à conversão. Um Messias que pede misericórdia, promove a inclusão, e proclama bem aventurados aqueles que a sociedade e religião judaica abominava, tomando-os como impuros, pecadores.

Este mesmo Jesus, odioso aos olhos dos sacerdotes e doutores da Lei, agora está diante de Moisés e Elias. Diante dele a Lei e os Profetas. A glória que se pôde presenciar, sua imagem transcendente, não se manifesta pela autopromoção. Ao contrário, é o encontro da Lei, dos Profetas e a Promessa. Não promessa futura. Ele, Jesus Transfigurado, mostra que o sonho de Deus está ali, realizado. O Sol habita a Casa Humana. A Promessa (Jesus), a Lei e os Profetas – juntos – conjecturavam sobre a história humana. Não! Não conspiravam pela derrubada do império romano. Nada disso! Jesus significa muito mais! Falavam da Paixão e Morte de Jesus, o Servo Sofredor. A verdadeira revolução! Onde o pecado seria destruído pela graça. A Luz iluminaria a mais recôncava condição humana, dissipando as trevas. A morte seria derrotada pela vida! A verdadeira glória: um homem, Verbo Encarnado de Deus, morreria por assassínio e, por sua morte abnegada, restauraria a vida de toda humanidade. Aqui, o Tabor entra em diálogo com o Calvário. O primeiro, justifica o segundo, dando-o sentido. Na Lei e nos Profetas. Tanto assim o foi que, dos céus, se pôde ouvir: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” (Lc 9,35).

Como não poderia ser diferente, a humanidade sempre faz das suas. A tibieza parece inerente à condição humana. Pedro, aqui também podemos identificar cada um de nós, diz a Jesus: “Mestre, é bom  estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Lc 9,33). E o texto ainda conclui que Pedro não sabia o que estava dizendo. Uma análise do Evangelista da contradição do Apóstolo. Uma catequese dentro do relato evangélico.

Ao experimentar Jesus transfigurado, ao testemunhar o encontro da Lei, dos Profetas e da própria Promessa realizada, o que menos se poderia esperar de um discípulo de Jesus seria a acomodação egoísta de se guardar aquele momento para si. Porém, não nos tomemos por juízes. Em nosso dia a dia, em nossas comunidades, não fazemos diferente. Quantos não são os de nosso meio, quem sabe nós mesmos, que preferimos adorar a glória de Jesus no Tabor, esquecendo-nos que essa só se realizará plenamente pela agonia mortal do Getsemani, seguida da sangrenta subida ao Calvário, antecedendo a morte de Cruz? Somos todos nós que nos apegamos aos cargos na Igreja, às celebrações que focam em um Jesus glorioso, ignorando que ele permanece crucificado nos pobres, marginalizados, nas mulheres vítimas de toda forma de misoginia, nas crianças prostituídas, tendo seu direito à infância negado, em nossos irmãos e irmãs em situação de rua. Jesus continua crucificado na História. Quantos de nós chamamos de comunismo a todo discurso em nossas comunidades eclesiais por Direito e Justiça? Acusamos nossos irmãos e irmãs de ter lido Karl Marx demais, enquanto – em verdade – somos nós que lemos pouco, ou deficientemente, os profetas e os Evangelhos. O cristão transfigurado deve renunciar sua busca pelas heresias dos outros; para encontrar, dentro de si, a santidade. Esta, só é possível a um espírito que transborde misericórdia e amor. É preciso renunciar à glória que advém do poder, sustentado pelo legalismo; para viver o Amor. E amor que leva ao escândalo da Cruz. Somente contemplando a Cruz, poderemos ter nossa face iluminada tal qual o Cristo. Só experimentando o Caminho para Jerusalém, com suas consequências por seguir Jesus, poderemos encontrá-lo – por fim – ressuscitado. Só abraçando o Cristo crucificado na dor de nossos irmãos e irmãs, que poderemos dizer com São Paulo Apóstolo que verdadeiramente, ele ressuscitou (cf. 1Cor 15,14).

É neste sentido que podemos entender que a transfiguração de Jesus vai além de sua imagem e da visão testemunhada por seus amados discípulos. Lança luzes em nossas trevas pessoais e nas escuridões em que vivemos. Assim como ele resplandeceu-se diante dos discípulos, pode nos tocar com essa Luz. Pessoas transfiguradas por Cristo contribuem para um mundo menos obscurecido pelas injustiças, desigualdade social, desemprego, fome, desgovernos etc. Ser iluminados exige iluminar, com a luz de Cristo, as realidades necessárias.

Que sejamos Luz na vida de nossos irmãos. Mesmo que para isso, devamos – nós também – abraçar o sofrimento e a Cruz. Subir aos nossos muitos calvários existenciais.

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