A Misericórdia não tem Fronteiras | Reflexão sob a inspiração de Jr 31,1-7 e Mt 15,21-28

Por Hermes Fernandes

Estamos na Quarta-feira, da 18ª Semana do Tempo Comum. Importa reforçar que estamos em Agosto, mês das vocações. A Liturgia nos sugere a leitura de Jeremias 31,1-7 e do Evangelho de Mateus 15,21-28.

No fragmento de hoje da profecia de Jeremias, temos uma continuidade do texto da Primeira Leitura da Liturgia de ontem. O capítulo 31 é um dos mais importantes da obra do profeta, conforme nos informa Pe. Luís Alonso Schökel. Também é um dos textos mais densos de sua profecia. Na perícope de hoje, as palavras de Javé veem como forte sinal de esperança e conforto. Ouvimos na leitura da Liturgia de ontem que Javé se apresenta como sinal de esperança. Hoje, pelo teor e a densidade das palavras, esta presença de Javé restaurador da dignidade do seu povo se confirma. Vai mais além: temos literalmente uma jura de amor de Deus. “Amei-te com amor eterno e te atraí com a misericórdia. De novo te edificarei, serás reedificada, ó jovem nação de Israel; de novo teus tambores ornarão as praças e sairás entre grupos de dançantes!” (Jr 31,3b-4). Que a esperança que floresceu em Israel naquele tempo, deslumbre nossos olhos hoje, em tempos tão difíceis em que vivemos.

No Evangelho da Liturgia de ontem, vimos Jesus dominando as forças dos ventos e das águas. Porém, nas suas andanças pela sua terra natal, ele também fez uma coisa ainda mais difícil. Ele ultrapassou fronteiras humanas, fronteiras de raça, religião e preconceito. Sobre esta questão se ocupa o Evangelho de hoje. Diante da importância deste tema, para nossa reflexão de hoje, propomos beber das fontes do saudoso Pe. Johan Konings, em seu livro/subsídio: Espírito e Mensagem da Liturgia Dominical, publicado pela Editora da Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, em Porto Alegre, RS, no ano de 1981. Também utilizamos nesta nossa reflexão o trabalho de Lúcia Weiler, em seu artigo: Mulher siro-fenícia: um encontro transgressor e revelador, também subsídio da Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes.

Iniciemos nossa reflexão, conhecendo um pouco das referências históricas e geográficas que servem de pano de fundo para a perícope evangélica de hoje.

Tiro é uma cidade com ambição de domínio e com grande poder. Desde sua origem até o período romano, havia uma luta do povo fenício sobre as terras da Galileia. Tiro pode ser considerada uma cidade rica e economicamente estável. Mas, ao lado desta realidade, também há pobreza. O diálogo acontece entre os pagãos e os judeus.

Jesus anda em território pagão, perto de Tiro e Sidom. Nesse lugar é normal encontrar-se alguma mulher “cananeia”, conforme o relato do Evangelho de hoje. Ela mora numa região de gentios. Não são semitas, não são israelitas, nem seguem a religião judaica. Mas ela chama Jesus de “Filho de Davi”, que é o título messiânico israelita por excelência. Podemos pensar que ela está tão profundamente angustiada, que se humilha até invocar o Messias dos israelitas. Seu amor de mãe por sua filha a leva a quebrar as possíveis fronteiras da sua tradição e das brigas dos povos na busca pela restauração da saúde de sua filha.

Mateus descreve com muito mais detalhes o gradativo clamor da mulher e as diferentes reações de Jesus e dos discípulos. O grito da mulher pede a compaixão de Jesus, reconhecendo-o como Filho de Davi. Ao seu clamor que expressa a solidariedade entre mãe e filha, Jesus fica em silêncio e nada responde (Mt 15, 23). Será indiferença ou presença silenciosa e reflexiva? O silêncio também faz parte da aproximação para um verdadeiro encontro, quando as diferenças são muito grandes.

Os discípulos ficam bravos com a mulher. Querem afastar o grito porque incomoda. Dizem: “Despede-a, porque vem gritando atrás de nós” (Mt 15,23). Eles querem que Jesus mande-a embora para que não os incomode mais. Jesus parece pensar em voz alta e Mateus coloca em sua boca a mentalidade dos judeus da época, através de uma compreensão exclusivista da missão: “Eu não fui enviado senão para as ovelhas perdidas de Israel” (Mt 15, 24). Diante da insistência do grito da mulher, a resposta de Jesus é muito dura e difícil de entender. Para isso, é preciso entrar em sua atitude pedagógica, destinada aos discípulos e também à mulher.

O Mestre Galileu insiste no seu messianismo israelita: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas de Israel” (Mt 15,24). E era verdade mesmo: Jesus foi mandado a um povo pequeno, para realizar uma esperança limitada nos seus termos – ele é o Messias de Israel. Jesus não a rejeita, mas a provoca para uma maior confiança. Ele vai pedir que ela transgrida as fronteiras de suas próprias ideias. As fronteiras marcadas dentro do seu coração e de seus conceitos.

A mãe da menina doente volta a insistir. Seu grito agora é acompanhado por um gesto de aproximação maior. Prostrando-se de joelhos implora: “Senhor, ajuda-me” (v. 25). Jesus responde: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para atirá-lo aos cachorrinhos” (Mt 15, 26). Os judeus se consideravam filhos de Deus e diziam que os estrangeiros não eram dignos da benção divina.

A mulher pagã ajudou Jesus a compreender que ele era enviado de Deus não só para os judeus, mas para toda pessoa humana de todas as culturas e tempos; o que é uma alusão à profecia do Servo de Javé (Is 49,1-6). A mulher assumiu sua condição de “cachorrinho” com grande esperança; não aceitou as condições que a deixavam excluída da vida, mas quebrou as fronteiras que a discriminavam.

Jesus ficou admirado com os valores que encontrou nos pagãos e compreendeu que Deus já estava entre eles como Deus vivo e libertador: aquele que ouve o clamor e desce para libertar (cf. Ex 3,7ss.). O evangelho de Mateus faz esse caminho progressivo e muito diferente do envio de discípulos apenas para as “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10, 6), e conclui: “Ide e fazei com que todos os povos sejam meus discípulos” (Mt 28, 19). O encontro de transformação e libertação só aconteceu quando Jesus “desce” ao nível humano, tornando-se aprendiz e discípulo da mulher estrangeira, excluída. E confirma sua cidadania teológica: “Mulher, grande é tua fé! Seja feito como queres!” (Mt 15, 28).

A partir do exemplo da mulher siro-fenícia, somos convidados a ir onde a vida clama, sem discriminações. Ir aos sofredores, sem levar em conta suas origens étnicas, suas opções religiosas, ou barreiras de gênero. Somos todos povo de Deus! Este mesmo Deus que nos jurou amor eterno, conforme podemos constatar na leitura de Jeremias hoje; e que é salvação a todos e todas, conforme nos exorta a grande lição do Evangelho.

No seguimento de Jesus, que se deixou tocar pelo grito da mulher siro-fenícia, “escutar Deus onde a vida clama” é convocação do Espírito que sopra onde e como quer. Precisamos ter nossos corações abertos e atentos aos múltiples clamores da vida que aparece ao nosso redor.

Que possamos aprender dos textos da Liturgia de hoje a ter esperança e coragem para transformar nosso mundo. Com respeito às diferenças, anunciemos um novo tempo. Em que o Bem chegue a todos e todas e que a esperança floresça do amor incólume de Deus. Amor que nunca morre. Que restaura toda existência humana.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: