“Não tenham medo! Sou eu!” | Reflexão sobre Jr 30,1-22 e Mt 14,22-36

Por Hermes Fernandes

Estamos no segundo dia de Agosto. Mês das Vocações. No calendário hagiográfico, celebramos a memória litúrgica de Santo Eusébio de Vercelli. Nasceu na Sardenha, no princípio do século IV. Fazia parte do clero de Roma quando em 345, foi eleito o primeiro bispo de Varcelli, também na Itália. Propagou a fé cristã por meio da pregação e introduziu a vida monástica na sua diocese. Por causa da fé católica, foi exilado pelo Imperador Constâncio, e suportou muitos sofrimentos. Tendo regressado à pátria, combateu valorosamente os arianos, para restaurar a fidelidade à fé cristã católica. Faleceu em Varcelli, em 371.

Para bem celebrar este dia, a Liturgia nos sugere a leitura de Jeremias 30,1-2.12-15.18-22 e Mateus 14,22-36. Vamos conversar sobre a Palavra de Deus?

Iniciamos hoje a leitura do capítulo 30 do Profeta Jeremias. No esquema em que podemos dividir o livro, esta é uma seção que trata da Restauração e Nova Aliança com Israel. Este bloco vai de 30,1 a 33,26. Por causa da mistura de textos originais de Jeremias com outros ulteriores, que evocam a volta dos exilados e a conversão das nações, convém sempre se perguntar quem está falando. No pós-exílio, muitos textos sagrados passaram por revisões com o objetivo de se resgatar a dignidade de um povo que foi espoliado pela dispersão e humilhação exílica. Grande parte destas reformas literárias se deu pela intenção de se resgatar o moral do povo, acabrunhado por anos de humilhação. Por isso, no bloco do capítulo 30 ao 33, convém nos perguntarmos se é Jeremias, o profeta-sentinela que, por volta do ano 600 aEC, tenta conscientizar e converter o povo à fidelidade ao Senhor Javé, ou se estamos diante de um profeta ulterior, uma espécie Deutero-Jeremias, que pode ser identificado como profeta-consolador, que anima a restauração da identidade e dignidade do povo. Há que se considerar que nem mesmo o estilo de escrita ajuda a identificar qual destes é, de fato, o autor dos textos. Haja visto que as formulações textuais sequer nos permitem identificar quando é o profeta ou quando é Deus quem fala. Esta pedagogia mais organizada só foi possível ser percebida no primeiro bloco do Livro de Jeremias, composto pelos capítulos de 1 a 25.

O texto de Jeremias na liturgia de hoje mostra uma espécie de lamentação posta nos lábios de Javé. Em suas palavras, o Senhor lamenta a dor de seu povo. Palavras como: “Incurável é tua ferida, maligna tua chaga” (v. 12) traduzem bem esta intenção. Importa que entendamos a manifestação da tristeza do próprio Deus face a tanto sofrimento do seu povo. Não obstante as várias denúncias e exortações de Jeremias pela fidelidade e confiança em Javé, o sofrimento de Israel por sua desobediência dói lancinantemente no coração amoroso do Deus de Israel. Por isso, mesmo sendo um Deus contrariado e traído, sua aliança será restaurada, pois Javé é um Deus de misericórdia; não de vingança e ódio. Por isso promete: “Hei de multiplicá-los, eles não diminuirão, hei de glorificá-los, eles não serão humilhados” (v. 19).

Conversando sobre o Evangelho, podemos tomar como palavra chave do texto de Mateus escolhido para Liturgia de hoje, a confiança. Após despedir o povo e enviar os discípulos para a outra margem do lago, “Jesus subiu ao monte, a fim de orar”. Retira-se para a montanha, para perto de Deus. Silêncio e solidão. Logo após, ele vai ao encontro de seus discípulos, que, num barco, se dirigiam a Cafarnaum. A tarde já ia avançada quando Jesus se aproxima deles “caminhando sobre as águas”. Soprava um vento forte e impetuoso. Eles avistam, em meio às águas revoltas, um vulto que se aproxima. Aqui vale registrar que a exegese bíblica nos ensina que as águas revoltas e os ventos impetuosos simbolizam a maldade, os poderes, que ameaçam a vida humana.

Vindo sobre as águas, Jesus faz menção de passar adiante, como o fez com os discípulos em Emaús. Provocação para despertá-los à responsabilidade da liberdade, pois Deus é aquele que passa. Assim se deu na primeira Páscoa do Egito ou nas grandes visões de Moisés ou de Elias. Também agora com a sua vinda entre os homens. Por isso, destaca S. João Crisóstomo: Jesus “não acorre imediatamente para salvar os discípulos, mas os instrui, através do temor, a afrontar os perigos e aflições”.

Assustados, eles ouvem a voz serena do Mestre: “Sou eu, não temais”. Não é um fantasma, é o próprio Jesus. Sua resposta: “não temais”, que recorda a promessa a Isaías: “Não temais, pois eu estou convosco” (Is 41,10), significa “crede unicamente”, sede confiantes! Soa como um apelo aos Apóstolos para estarem abertos interiormente à presença divina, sempre surpreendente. Nesse sentido, ao concluir: “Sou eu”, Ele lembra aos Apóstolos as manifestações inauditas de Deus, conduzindo o povo de Israel no deserto, e que agora é ele, Jesus, presença do Deus “inefável”, acompanhando o seu povo à Jerusalém Celeste, ao Reino de Deus.

No entanto, Jesus exige confiança e entrega irrestrita, atitude fundamental, graças à qual seus discípulos participarão do seu poder. Este se dá significado no Evangelho de hoje quando permite que Pedro, representante dos doze, caminhe sobre as águas. O relato evolui para mais uma exortação à esperança: Caso afundem ou vacilem, não lhes faltará sua mão misericordiosa, que os conduz à barca, onde estarão em companhia do seu Mestre e alcançarão a serenidade (apátheia) e o repouso (hesychia). Então, o vento cessará.

Em nossa caminhada cristã, podemos aplicar o ensinamento das duas perícopes bíblicas que a liturgia nos oferece hoje. Quer em Jeremias, quer em Mateus, a palavra chave é confiança. No contexto de Jeremias, é o próprio Deus que participa da dor de seu povo. Lamenta e promete estar com ele e o restaurar em plenitude e dignidade. No Evangelho, Mateus nos oferece a certeza de que Jesus não nos abandonará nunca. Seja qual for a noite tempestuosa, os ventos ferozes, ou mar revolto; nos incitará a caminhar sobre as águas. A superar todos os limites. Assim como Pedro, dominaremos os poderes e as ameaças à vida e dignidade humana, pelo força do Pai que habita nele, Jesus. E, se porventura fraquejarmos, ele estará sempre próximo, a estender suas mãos; fortificando-nos e nos restaurando a segurança. Por isso, não podemos deixar que o medo tome conta de nós. Jesus quer nos libertar de todos os temores. De todas as ameaças ao projeto do Reino de Deus. Devemos ser livres para anunciar o evangelho! (cf. Gl 5,1).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: