“Basta Cinco Pães e Dois Peixes para o Milagre do Amor” | Reflexão sobre Jr 28,1-17 e Mt 14,13-21

Por Hermes Fernandes

Iniciamos hoje o mês de Agosto. Para a Igreja, um tempo especial quando se reflete e celebra as vocações. A pauta das vocações está intimamente ligada aos ministérios. Ao contrário do que alguns possam pensar, esse tempo não tem enfoque exclusivo aos ministérios ordenados ou à Vida Religiosa Consagrada. Celebramos, refletimos e animamos todas as vocações. Para todos os ministérios na Igreja. Somos todos ungidos e enviados. Discípulos e discípulas que devem se comprometer com a evangelização. Dom Orani João Tempesta, em seu artigo disponível na página da CNBB de 30/07/22 nos diz:

“A Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Ecumênico Vaticano II, recorda, em seu número 5, o Chamado, portanto, a vocação universal à santidade. Pela graça do Batismo, quando somos incorporados na Igreja, recebemos as virtudes teologais da fé, esperança e caridade e somos constituídos o novo Povo de Deus, ou seja, Povo de Sacerdotes, Profetas e Reis.”

E ainda:

“O Documento de Aparecida (resultante da  5ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e Caribe) possui uma página de ouro no capítulo quinto, dedicado à comunhão, onde afirma que na Igreja todos somos discípulos missionários. Tanto o Bispo, como o presbítero, o diácono, o leigo, o consagrado e a consagrada, todos vamos no caminho do seguimento de Jesus Cristo.”
(Para ler o artigo de D. Orani na íntegra, clique AQUI)

Portanto, pela graça de nosso batismo, estamos todos na condição de vocacionados. Chamados, ungidos e enviados a evangelizar. E como nos adverte e anima o texto paulino, “Ai de mim se não anunciar o Evangelho”! (1Cor 9,16).

Neste 1º de Agosto, também celebramos a Memória Litúrgica de Santo Afonso Maria Ligório, Bispo e Doutor da Igreja. Nasceu em Nápolis, em 1696. Doutorou-se em Direito Civil e Eclesiástico. Foi ordenado para o ministério presbiteral e fundou a Congregação do Santíssimo Redentor, ou seja, os Redentoristas. Eleito bispo para Sant’Agata dei Goti, renunciou algum tempo depois ao cargo. Faleceu em Nocera dei Pagani, na Campânia em 1787.

Para bem celebrar tantos mistérios, a Liturgia de hoje nos sugere a leitura de Jeremias 28,1-17 e do Evangelho de Mateus 14,13-21. Vamos conhecer a mensagem dos textos sagradas na Liturgia de hoje:

Estamos na segunda parte de Jeremias, onde se encontram os relatos. Conforme visto em reflexões anteriores, podemos dividir o livro do profeta em dois blocos. Os primeiros capítulos contendo seus oráculos, e o segundo bloco, contextualizando sua profecia, pelos relatos dos acontecimentos, nos quais, Jeremias foi suscitado a profetizar. O cerne do texto de hoje é a idoneidade do profeta de Deus. Aqui fica-nos a provocação de se discernir sobre a quem deve o profeta servir e se comprometer. Jeremias contrariava os poderes daquele tempo, quando insistia nas exortações à fidelidade a Javé. No contexto inicial que resultará no exílio babilônico, os poderosos fiavam suas esperanças nos poderes deste mundo, enquanto Jeremias propunha uma volta à fidelidade. À confiança no Senhor.

Ainda hoje, precisamos nos perguntar a quem servimos. Quem de fato é nosso Deus? Estamos comprometidos com a Verdade que nos liberta de toda forma de opressão, ou nos enganamos e aos que nos cercam, anunciando um anti-evangelho, corrompido pelas pedagogias de poder, opressão e ódio? Anunciamos o Deus da Vida ou nos corrompemos aos ídolos, aos falsos messias, aos mitos que surgiram em nossos tempos para roubar, matar e destruir? Cuidado, só o Senhor é Deus!

No Evangelho (Mt 14,13-21), temos a continuidade do texto anterior da liturgia de Sábado (Mt 14,1-12), onde nos foi oferecido o relato do martírio de João Batista no Evangelho de Mateus. Hoje temos como tema o relato da multiplicação dos pães. Este texto tem seus paralelos em Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14. Nos Evangelhos de Mateus e Marcos, a partilha maravilhosa do alimento, ou multiplicação dos pães como gostamos de chamar, aparece por duas vezes em cada um deles. Esse sinal – mesmo que não tão fantástico, como nos instruem os exegetas – deve ser lido tendo como pano de fundo os relatos de Êxodo e Números a respeito do maná. Também podemos aprofundar essa referencialidade bebendo das fontes do Segundo Livro dos Reis. Pode ser um pré-evangelho, um preconizar ao Pão Eucarístico. Outrossim, é mais palpável e pertinente entender como ação de Deus face às necessidades imediatas de seu povo. Assim foi no Primeiro Testamento, com os hebreus a atravessar o deserto rumo a terra prometida, e com Eliseu, no contexto de 2Rs 4,42-44. O que podemos fixar bem em nosso coração e entendimento são as muitas intervenções de Javé, Pai de Jesus, quando seu povo estava fadado ao sofrimento pela fome.

Neste sentido, a partilha maravilhosa do alimento não preconiza a Eucaristia e, sim, nos forma e exorta ao compromisso com as necessidades materiais daqueles que nos cercam. O “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16b) deixa claro o tom imperativo de Jesus. Com isso, Jesus descarta a oportunidade de um milagre exibicionista, fantástico. Poderia simplesmente fazer aparecer o pão necessário. Ou que o mesmo caísse dos céus como o maná dos relatos do Primeiro Testamento. Não! Aquele era momento de se confirmar o Evangelho e as propostas do Reino de Deus. Tomando do alimento que já havia entre eles, isto é, cinco pães e dois peixes, deu graças ao Pai pelo pouco que tinham. E, na gratidão e disponibilidade para partilha, estes poucos sete elementos (cinco pães e dois peixes) introduziram a partilha do todo, suficiente para uma multidão. Ainda sobrando doze cestos.

Muitas são as interpretações ou teorias sobre como tão poucos pães e igualmente irrisório número de peixes, foram suficientes para toda uma multidão. E mais: ainda deixar doze cestos com sobras. Ora, que possamos entender os números descritos no relato, como símbolos da essência e do ensinamento evangélico. Cinco pães e dois peixes somam sete elementos. Sabemos que a exegese bíblica atribui esse número à perfeição, à ação de Deus. Outro número de grande valor simbólico é o de doze cestos restantes. Uma referência às doze tribos de Israel. Com isso, se identifica o ministério de Jesus com a ação salvífica do próprio Javé. O Cristo é a Nova Aliança, plenitude da primeira, que elegeu o povo hebreu como destinatário original do amor de Deus.

Por fim, cabe ter um olhar atento à forma com a qual o alimento chegou às mãos daqueles que dele necessitavam: “Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (Mt 14,19). Podemos perceber que Jesus oficia a ação de Graças e a partilha. Em seguida, seus discípulos fazem a distribuição aos que esperavam pelo alimento. Aqui se pode entender a necessidade do discipulado em ser agente de distribuição dos dons. Há todo um trato de missionaridade e diaconia no gesto dos discípulos. Eles agem em continuidade ao agir de Jesus. Como continuadores no ministério.

Em nosso caminhar cristão, devemos nos inspirar nos textos da liturgia de hoje. Inter-relacionando Jeremias com Mateus, somos confrontados com duas necessidades: ter uma postura profética diante dos desafios que nos cercam e sermos uma Igreja samaritana, diante dos muitos esfomeados de nossos tempos. Homens, mulheres, humanos todos, com fome de pão material, pão de dignidade, Pão da Vida.

Que neste Mês das Vocações, possamos renovar em nós o chamado de sermos Igreja missionária e samaritana, anunciando o Reino de Deus, preparando-o já aqui entre nós. Aclamemos esse Novo Tempo, cantando:

Pão em todas as mesas
Da Páscoa a nova certeza
A festa haverá
E o povo a cantar, aleluia!

(Zé Vicente)

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