O que é o Inferno?

Por Pe. Renato Alves de Oliveira*

A palavra “inferno” vem de inferior. Refere-se àquilo que está embaixo. Na cosmologia antiga, acreditava que o céu ficava em cima da terra e o inferno ficava embaixo da terra. Assim, a terra ficava no meio e era visto como elemento divisor entre o céu e a terra. No campo bíblico-teológico, o inferno é sinônimo de morte eterna, morte escatológica e danação.


No Novo Testamento, a ideia de condenação se formula numa série de expressões que significam dentro de sua variabilidade, a negação daquela comunhão com Deus em que consiste a bem-aventurança. Assim, se fala de perder a vida (Mc 8,35; Mt 10,28; Jo 12,25); não ser conhecido (Mt 7,23) é formula que inverte a que designa a vida eterna como conhecimento; ser lançado fora (Lc 13,23s; Mt 7,23). Em correspondência com a imagem do reino como banquete, os pecadores são lançados fora da mesa (Lc13,28; Mt 22,13); as virgens imprudentes que ficam fora do convite de bodas enquanto que as prudentes entram com ele (Mt 25,10-12). Paulo falará de não herdar o reino (1Cor 6,9s; Gl 5,21) e João de não ver a vida (Jo 3,36). O texto de Ap 14,11 que fala de um tormento que dura por séculos todos os séculos (Mt 13,50) certifica a eternidade e a definitividade do inferno. Para além da linguagem negativa, o NT contém numerosas descrições da morte eterna em termos positivos: geena de fogo (Mt 18,9), fornalha ardente (Mt 13,50), fogo inextinguível (Mc 9,43.48), choro e ranger de dentes (Mt 13,42) fogo e enxofre (Ap 19,20), verme que não morre (Is 66,24; Mc 9,48) etc. Trata-se de uma antiga oscilação das imagens de uma linguagem simbólica, com a que pretende sublinhar a privação eterna de Deus supõe para o homem o trágico fracasso de sua vida e o maior dos sofrimentos.


A imagem do fogo presente no inferno possui um aspecto simbólico e alegórico. Não se trata de um fogo real e físico, mas de um fogo simbólico que significa a ausência e a privação de uma vida sem Deus. O simbolismo do fogo se refere a uma vida distante e sem comunhão com Deus. Historicamente, o fogo infernal foi interpretado de modo físico e realista. No período medieval, chegou-se a especular sobre a temperatura do inferno.


O inferno não é um lugar. Não é possível fazer uma descrição geográfica e nem topográfica sobre o inferno. Aliás, céu, inferno, purgatório e vida eterna não são lugares, mas estados existenciais. Se o céu é o estado de comunhão com Deus, logo o inferno é o estado da ausência de comunhão com Deus. O inferno é a radicalização de vida sem comunhão com o outro, com a criação e com Deus. Trata-se de um estado existencial marcado pela ausência de relação e de comunhão. É um estado de absoluta negatividade e exclusão de toda espécie de comunhão com Deus e com os outros. O inferno é o estado existencial de quem é egoísta e busca simplesmente a autoafirmação de si mesmo. É a radicalização da afirmação de si mesmo e negação do outro. O inferno é a representação da egolatria.


Deus não manda ninguém para o inferno. É o ser humano que se autoenvia para o inferno. O inferno é um estado em que chega devido a uma autocondenação. O ser humano se autocondena devido às suas ações de negação do outro, da criação e de Deus. O inferno é uma consumação do pecado e da culpa. O inferno é possível porque o pecado é realidade na vida cristã. Alguns perguntam: se Deus é misericordioso porque o inferno existe? A misericórdia de Deus não cancelaria a possibilidade de existência do inferno? Não há uma divergência entre misericórdia de Deus e inferno. A misericórdia de Deus é uma oferta e não uma imposição. O desejo de Deus é que todos se salvem. Deus oferece todos os recursos necessários para que o ser humano se salve. Mas alguém pode dizer, com palavras ou ações: não quero ser salvo. O inferno não é uma criação de Deus. Se Deus deseja que todos os seres humanos se salvem ele não pode criar um estado de condenação. O inferno não é a manifestação da vingança e da raiva de Deus diante do pecado humano. É o pecado do ser humano, a negação do outro, a autoafirmação de si mesmo e a rejeição de Deus que criaram o inferno.


Não há nenhum documento da Igreja Católica que diz que há alguém no inferno. Porém, o inferno é apresentado como uma possibilidade porque o ser humano pode precipitar no pecado e manter-se nele. O inferno não é uma certeza, mas uma possibilidade. Aquele que pauta sua vida pela destruição do outro, da criação de Deus, pela negação da vida, pela afirmação absoluta de si mesmo, pela rejeição de toda relação com Deus, já faz na terra uma opção pelo inferno. Assim, o inferno pós-mortal será apenas uma confirmação do inferno interno. A condenação não será uma surpresa para ninguém. Ninguém será salvo ou condenado com um único ato. É o conjunto dos atos e das ações que determinarão o destino eterno do ser humano.

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*Pe. Renato Alves de Oliveira é Doutor em Teologia e professor de Teologia Sistemática na PUC Minas.

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