“É Preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus Santos” | Reflexão sobre Jr 26,11-16.24 e Mt 14,1-12

Por Hermes Fernandes

Neste 30 de julho, a Liturgia nos oferece as leituras de Jeremias 26,11-16.24 e do Evangelho de Mateus 14,1-12. Estes textos vêm nos falar de perseguições, às quais, se sujeitam os que se colocam ao serviço da Verdade e da Justiça de Deus. A História da Salvação e da Igreja de Jesus se fez fecundar pelo compromisso e martírio dos que se sentem chamados ao serviço do Reino.

Em Jr 26,11 vemos que os sacerdotes iniciam um projeto de conspiração contra o profeta. Diziam: “Este homem foi julgado réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com vossos ouvidos”. Pode parecer que esse relato foge da sequência lógica do Livro do Profeta Jeremias. Vejamos!

Na composição da obra de Jeremias, percebe-se o desejo de se reunir em uma parte os oráculos e, em outra, os relatos. Por isso a separação sistemática entre eles. A perícope de hoje se encaixa como contexto do capítulo 7. Convém que se leia a profecia de Jeremias transcrita no capítulo 7 paralelamente aos acontecimentos relatados no capítulo 26. O convite à conversão feito por Jeremias no capítulo 7, as exortações à fidelidade a Javé, a confiar no Senhor e não em promessas mentirosas; provocam a irritação dos sacerdotes. Aqueles que estavam ao serviço do Templo e do Reino. É neste sentido que se entende o julgamento relatado na primeira leitura da Liturgia de hoje.

Para surpresa dos que tramavam contra o profeta, Jeremias não se sujeita. Nem mesmo retrata o teor de seus oráculos. Ao contrário, insiste nas denúncias e exortações no que se refere aos caminhos de infidelidade em que Israel se enveredou. Assim como sonhamos todos nós, a verdade vence. Nós que porventura nos vimos vítimas de injustiça e conspiração para o mal. A justiça prevalece. Mais do que ter frustrado o efeito daquelas acusações, o povo aclama Jeremias como servo legítimo de Deus. Para nossa alegria e como semente de esperança para nossos desafios de hoje, o povo reconhece: “Este homem não merece ser condenado à morte; ele falou-nos em nome do Senhor, nosso Deus” (Jr 26,16). Quiséramos todos nós, hoje em dia, ver o povo acordar diante de tantas injustiças e de tantas maracutaias pelo poder e pelo lucro! Quem sabe um dia o povo se levante contra a mentira dos poderosos?! Contra a exploração dos trabalhadores – sobretudo os pobres?! Contra o desrespeito às mulheres; entre tantas outras minorias que são oprimidas e espoliadas em nosso país?! Jeremias foi aclamado como profeta legítimo. Reconheceu-se sua profecia como Palavra e Vontade de Deus. Precisamos que nosso povo entenda que nosso futuro só será profícuo e feliz, segundo a vontade do Altíssimo. E a vontade do Pai é que sejamos comtemplados com justiça e dignidade em nossas vidas.

No Evangelho, temos como que um parêntese nos relatos de Mateus. Após algumas parábolas, presentes no capítulo 13, iniciamos o seguinte, capítulo 14, com o relato do martírio de São João Batista. Podemos ver os paralelos desse relato nos sinóticos em Mc 6,14-29 e Lc 9,7-9.

Mateus insere a notícia da morte de João Batista no contexto de questões relacionadas à identidade de Jesus. Não é de se surpreender, pois – aquele que se compromete com Jesus e o Reino de Deus – deve antes reconhecer sua messianidade e as consequências de suas propostas. A nova realidade proposta por Jesus levantará grande comoção adversária. Antes mesmo da Paixão do próprio Cristo, sangue fora derramado; para que a Palavra de Deus chegasse à plenitude. Lembremo-nos do martírio dos santos inocentes, antes profetizado pelo mesmo Jeremias de nossa leitura de hoje (cf. Mt 2,16-17 e Jr 31,35). E no Evangelho, temos a decapitação de João Batista (Mt 14,1-12). Mártir da precursão do Evangelho.

João Batista sintetiza o Tempo da Promessa. Encerra em sua vida o Primeiro Testamento, abrindo os caminhos para a Nova Aliança, Jesus: Messias dos Pobres, Servo Sofredor, ressignificador da vida humana. Abrindo nossos horizontes para a plenitude de Deus. Alegria que não passa. Esperança que não se frustra. O Reino de Deus! Antes do anúncio da Boa Nova feito por Jesus, João Batista anuncia o fim do tempo do sofrimento. O Cordeiro de Deus que será o derradeiro sacrifício. Alvorada da Vida Digna e Eterna.

Diante de tantas Boas Novas, os que tramam pelo mal, os que conspiram contra as belezas da vida acessíveis a todos; não poderiam deixar por menos. Em suas pedagogias de morte, conspiram, tramam, confabulam. E acusam injustamente, caluniam, condenam e matam. Tentaram malfadadamente contra Jeremias. Posteriormente, mataram João Batista. Mataram Jesus. Mas a esperança, ressuscitou. O Bem é imortal.

Na história da Igreja temos muito sangue derramado. Vidas tiradas pelos valores do Evangelho. Gostaríamos de convidar a quem chegam nossas palavras, que façam memória daqueles que derramaram seu sangue pelas causas do Reino. Desde a Igreja dos primeiro momento – até nossos dias – homens, mulheres, até crianças, deram suas vidas por amor a Jesus e pelo que ele representa para a humanidade. Mateus, Paulo, Pedro; os apóstolos todos. Clemente, Silvestre, Inês, Luzia; memoráveis do tempo antigo. Josimo, Gabriel, Oscar Romero, Dorothy Stang, Lúcia; testemunhas de nossos tempos.

Que o sangue dos mártires fecunde nossa vocação ao seguimento de Jesus. Que possamos, nós também, herdar deles ousadia e coragem para seguir ao Cristo até as últimas consequências. Clamamos que venha a nós o Reino de Pai. Mas isto nunca será possível se nós mesmos não lançarmos suas sementes ao chão. Nesta seara do Senhor, somos os agricultores, o campo, a semente e o chão. Estamos integralmente relacionados com os frutos da árvore da vida, o Evangelho, como nos ensinam os Santos Padres. E o sangue dos mártires fecunda nosso plantio e colheita. Entre lágrimas e risos, floresça entre nós o Reino de Deus.

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