“Eu sou a ressurreição e a vida” | Reflexão sobre 1Jo 4,7-16 e Jo 11,19-27, sob a inspiração da Memória Litúrgica de Santa Marta

Por Hermes Fernandes &
Karina Moreti

Hoje, 29 de julho, a Igreja celebra a Memória Litúrgica de Santa Marta e, extensivamente, sua Família de Betânia, isto é, Maria e Lázaro. Sua vida e testemunho estão gravados nas Sagradas Escrituras. Padres e teólogos encontram em Marta e sua irmã, Maria, a figura da vida ativa (Marta) e contemplativa (Maria). Todavia, vimos em reflexão recente que esta pode ser uma visão periférica, ou – até mesmo – equivocada. Que não abraça em si toda a riqueza do testemunho destas duas irmãs, amigas de Jesus. Ao título de compreensão, é importante saber que o nome Marta vem do hebraico e significa “senhora”. Maria pode significar “a bem amada, ou agraciada” e Lázaro, “Deus socorreu, ou Deus ajudou”.

Como dito acima, com base no texto Lucano (Lc 10,38-42), as figuras destas duas irmãs foram usadas para fundamentar duas formas de seguimento de Jesus: a Vida Contemplativa e a Vida Ativa. Fica-nos clara na intenção daqueles que usam dessa premissa, a tentativa de se supervalorizar a Vida Contemplativa, reservada a pessoas criteriosamente escolhidas por Deus para viver separadas do mundo, preservadas em mosteiros e conventos; em preterimento da Vida Ativa. “Manter o texto nesta perspectiva é aprisioná-lo e deixar de perceber a sua riqueza ímpar no conjunto da obra de Lucas. Este é o autor do Novo Testamento que mais valoriza a participação das mulheres na missão de Jesus e das primeiras comunidades cristãs”, conforme nos explica Pe. Francisco Cornélio[1], em seu artigo de 16 de julho do ano corrente [2]. Por isso, antes de nos dedicarmos à leitura comentada dos textos litúrgicos de hoje, desejamos deixar sublinhada nossa opinião: Marta não significa a Vida Ativa e Maria a Vida Contemplativa. Marta é símbolo de desprendimento e disposição em seguir Jesus, pondo-se ao serviço das causas do Reino e Maria, modelo de discípula atenta; pondo-se aos pés de Jesus. Servir e estar atenta à mensagem, sintetiza a condição de discipulado. Estas duas mulheres abrigavam em si a condição ideal de ser discípulo e discípula de Jesus.

Ainda sobre o equívoco de se entender Marta e Maria como modelos de vida ativa e contemplativa, cabe lembrar que o pai do monaquismo ocidental, São Bento de Núrsia (480-547), constituiu no binômio Ora et Labora (Reze e Trabalhe), o imperativo essencial à vida contemplativa. O que significa que nem mesmo os monges e monjas se entendem inclinados à uma atitude isolada. Quem reza deve trabalhar e quem trabalha, deve rezar. Isolar estas dimensões é traduzir na própria vida uma forma deficiente, até mesmo alienada, de seguir Jesus. Historicamente, não podemos negar que a evangelização da Europa na Idade Média deve muito aos monges e monjas. E isto vem nos significar que, mesmo escolhendo o claustro, todos se comprometeram com o ideal primeiro: Anunciar o Reino de Deus, pregando o Evangelho de Jesus (cf. Mt 28,19-20).

Na Liturgia de hoje, lemos a Primeira Carta de João 4,7-16. Neste trecho, João vem aprofundar seu discurso sobre o amor. Pelo estilo de escrita, percebemos algo de quase poético. Identifica-se, também, que o autor faz uma retomada da dinâmica salvadora, como que por uma midrash. Um fazer memória, lembrando da Encarnação do Verbo como ato inaugural da ação soterológica, fundamentada no amor primeiro, o amor de Deus. Diz o texto: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados” (1Jo 4,10). Esta leitura da história salvífica a partir de sua fonte, isto é, do amor originário em Deus, serve-nos de premissa para compreender, conforme a catequese joanina, a necessidade de que nós vivamos essa pedagogia do amor, na condição de continuadores da missão de Jesus na Igreja, enquanto anúncio do Evangelho e instauração do Reino de Deus. “Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4,11). A vivência do amor é forma eficaz e concreta de se fazer em nós o Mistério de Cristo. Sem esse amor, que se traduz em compromisso, vã é qualquer pregação. É falar do intangível, do improvável, do irreal. O amor convertido em gestos é o testemunho de que Deus habita em nós e nós nele, na pessoa de seu Filho Jesus, presente – aqui e agora – em sua Igreja.

No Evangelho (Jo 11,19-27), o evangelista nos oferece um fragmento do relato da morte e reanimação de Lázaro, irmão de Marta e Maria, amigos de Jesus. O texto selecionado para a Liturgia de hoje deseja enfocar a questão da ressurreição. Liturgicamente, percebemos que há a intenção de deixar impressa em nosso coração a compreensão da personalidade de S. Marta e a forma com a qual ela entende e testemunha o Mistério. Marta inicia o diálogo com Jesus a partir de sua praticidade natural de ideias. Há que se reconhecer: Marta era uma mulher prática, transparente, resolvida. Por isso, somos levados – muitas vezes – a uma compreensão injusta de seus diálogos com o Mestre. Isso acontece no texto Lucano, onde ela pede que Jesus mande que Maria a ajude nas tarefas domésticas (Lc 10,40) e agora, no Evangelho de João, quando diz, como que por questionamento, que se ele estivesse presente com eles naquele momento anterior à morte, Lázaro não teria morrido (Jo 11,21). Importa que sublinhemos a frase seguinte: “Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá” (Jo 11,22). Aqui temos uma profissão de fé. Fé em Jesus. Em sua ligação íntima, Filial, com o Pai. Com a mesma praticidade e desenvoltura que reclama e questiona, professa sua confiança no Messias. Quantos de nós não precisam ser um pouco assim? Sem rodeios e decididos quando se trata de seguir Jesus com compromisso e arrojamento? Em resposta à sua fé clara e decidida, Jesus diz: “Teu irmão ressuscitará” (Jo 11,23).

O que se segue pode maravilhar nossos ouvidos. Inflar nossos corações. Marta vai além em sua profissão de fé, encaminha-se às certezas escatológicas. Adianta, antes mesmo da própria ressurreição de Jesus, a certeza da ressurreição no último dia. Que mulher! Que discípula! Bendito seja Deus por essas mulheres fortes que nos ajudam em nosso caminhar, às vezes claudicante, rumo às certezas últimas do Reino de Deus!

E como não poderia ser diferente, Jesus desvela o Mistério, tira o véu. Fala abertamente. Oferece a Marta a oportunidade de testemunhar sua fé. Diante de muitos, como anunciadora do Mistério, antes mesmo que ele se revelasse historicamente, na vida de Jesus. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês nisto?”  (Jo 11,25-26).

Marta não se faz de rogada. Nem mesmo titubeia. Com a força característica de sua personalidade, testemunha: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (Jo 11,27). O resultado não poderia ser outro. Nem mesmo Lázaro permanece morto daquela morte temporal. Deixa o sepulcro, para que as palavras de Jesus e o testemunho de Marta não se perdessem pelo esquecimento (Jo 11,41-45).

A reanimação de Lázaro foi temporária. Sabemos que, como todos os humanos, ele voltou a morrer. Permanece assim até o último dia, onde – conforme o testemunho de Marta – ressuscitará para a Vida Eterna.

Em nossa vida eclesial, precisamos imitar de Marta algumas de suas atitudes. Quem sabe, reconhecer nela uma forma ideal de nos postarmos diante de algumas situações, nas quais, somos confrontados com o estado de morte. Entendamos aqui a morte de uma forma mais abrangente. Toda dor, tristeza, fome, desespero, desemprego, miséria; é uma forma de morrer. Com Marta, possamos repetir: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias!” (11,27). Precisamos desta fé. Desse desprendimento sincero, quase atrevido, diante das dinâmicas do Reino. Que Santa Marta nos inspire ações ousadas, confiantes, arrojadas diante de tantas situações de morte, às quais somos subjugados. Sem medo e confiantes no Senhor, retiremos as pedras de nossos sepulcros existenciais e possamos, como esta grande mulher, testemunhar que nenhuma forma de morte é definitiva diante de Jesus, Messias dos pobres, Filho de Javé libertador.

Notas

[1] Pe. Francisco Cornélio  F. Rodrigues, Presbítero da Diocese de Mossoró, RN.
[2} Artigo de Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues, publicado em 16 de julho de 2022, em sua página Por Causa de um Certo Reino.

2 comentários em ““Eu sou a ressurreição e a vida” | Reflexão sobre 1Jo 4,7-16 e Jo 11,19-27, sob a inspiração da Memória Litúrgica de Santa Marta

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