Como é o barro na mão do oleiro, assim somos nós nas mãos de Deus | Reflexão sob a inspiração de Jr 18,1-6 e Mt 13,47-53

Por Hermes Fernandes

Hoje, Quinta-feira da 17ª Semana do Tempo Comum, mais uma vez aqui estamos reunidos ao redor da Palavra de Deus. A Liturgia nos sugere a leitura de Jr 18,1-6 e do Evangelho de Mt 13,47-53.

Na Primeira Leitura, o Livro do Profeta Jeremias (Jr 18,1-6) nos revela o diálogo de Javé com seu profeta, sob a luz da analogia do Barro e do Oleiro. Estas imagens nos são muito caras, preciosas em nosso imaginário religioso. Tanto o é que inspirou canções em nosso cancioneiro religioso e coletânea de cânticos litúrgico. Também podemos encontrar essa imagem no Salmo 2,9, e ainda em Ap 2,27, entre outras perícopes bíblicas.

Para bem compreender o uso da imagem do Oleiro e do Barro trabalhado em suas mãos, vem a calhar bebermos da sabedoria de Pe. Luís Alonso Schökel em suas notas na Bíblia do Peregrino. O estudioso nos fala que da atividade artesã do Oleiro, que modela sua cerâmica, surge um dia a imagem de Deus como Oleiro, que modela o homem do barro da terra (cf. Gn 2,7-8 e 8,19). Daí resulta que o homem possui um caráter ou arquétipo do próprio Deus. Bem o sabemos que o artista, e compreendamos o artesão como tal, imprime muito de si em sua obra. Assim, o homem e a mulher são aquilo que Deus sonhou para ambos, a partir de sua inspiração na ação criadora. O que podemos concluir que o homem e a mulher são resultados do amor de Deus e de sua vontade de estar junto da criação com sua identidade impressa e atuante. É neste sentido que compreendemos que Javé não só cria o homem e a mulher, mas permanece presente como perene formador. Intervindo na existência e no aperfeiçoamento dele e dela. Fazendo de sua presença no mundo um sinal da presença do próprio Criador. O vaso é sinal da existência do Oleiro. A beleza desse barro formado com esmero e amor, até que se torne objeto admirável aos olhos que os veem, testemunha a existência e o trabalho do Oleiro que forma e ama.

Além da bela alegoria de Jeremias sobre a ação formadora e transformadora de Deus, como que um Oleiro e sua cerâmica, ainda podemos beber da fonte bíblica de Isaías. Este outro profeta também aprofunda a reflexão sobre a ação formadora de Deus. Podemos ver isso em: Is 27,11; 43,21; 44,2; 49,5; 64,7. À guisa de aprofundamento exegético, ainda podemos ir aos textos de Zc 12,1; Sl 33,15; 139,16.

Afunilando um pouco mais nossa visão sobre o texto de Jeremias da Liturgia de hoje, cabe sublinhar que o profeta é enviado a contemplar um Oleiro trabalhando. A partir da cena, somos levados a entrar no contexto em que vivia Jeremias. O profeta é enviado para reconstruir a mentalidade do Povo de Deus. Naquele tempo, a Babilônia se fazia um poderio emergente. O que geraria muitos sofrimentos a Israel. Diante disso, o Povo deveria confiar no Senhor. Não em armas, costumes e deuses estrangeiros. A Analogia do Oleiro e do Barro vem incutir no coração humano a certeza de que só o Senhor pode transformar a história. Assim como o Oleiro refaz seu trabalho com o barro até atingir a perfeição desejada, devem o homem e a mulher depositar a esperança no Senhor e, pela fidelidade a ele, superar quaisquer dificuldades, quaisquer “feiúras” ou imperfeições que se manifestem na história humana. É Deus quem reconstrói o homem e a mulher, assim como o Oleiro reconstrói sua obra imperfeita. É Javé que pode refazer nossa história. Rumo ao Bem, à Liberdade e à Felicidade sem limites.

No Evangelho, Mateus dá continuidade à secção das Parábolas do Reino. Mt 13,47-53 nos apresenta a analogia da pescaria, como referencial do Reino de Deus. Os pescadores lançam suas redes ao mar e, quando estas são recolhidas repletas de peixes, estes trabalhadores se dedicam a separar os peixes bons, dos que não são tão bons. Os peixes que correspondem à expectativa, são guardados em cestos e destinados ao seu fim. Os não aceitáveis, são dispensados. Muito oportuno à nossa reflexão é relacionar a parábola apresentada na Liturgia de hoje com a que nos foi apresentada ontem, isto é, a do Tesouro e da Pérola (Mt 13,44-46). Não deixemos de fora uma parábola anterior, também em Mateus: a do Joio e do Trigo (Mt 13,24-30). Como foi dito anteriormente, estamos na secção do Evangelho de Mateus que apresenta uma longa série de parábolas. Estas se inter-relacionam, pois fazem parte de um único objetivo: a catequese de Jesus.

Os peixes que não servem e o joio são destruídos pelo fogo. Uma imagem escatológica recorrente, pois habitava o imaginário religioso do tempo de Jesus. O Hades ou Xeol, simbolizavam o mundo inferior. Respectivamente, sob a ótica da cultura helênica e hebraica. Nestes, as almas lá deixadas eram subjugadas ao fogo. Para bem entendermos essas analogias, voltemos à outra perícope bíblica, a Parábola do Rico e de Lázaro (Lc 16,19-31). Ainda sobre os peixes presentes na alegoria sugerida por Jesus, cabe lembrar que o chamado dos discípulos, em Mateus, se inicia com um episódio de pescaria (Mt 4,19).

Diante do exposto, podemos relacionar a parábola, apresentada por Mateus na Liturgia de hoje, diretamente com o discipulado de Jesus. Não nos deixemos impressionar com as imagens escatológicas do texto. Onde podemos cair na tentação de uma leitura fixada em uma Teologia da Condenação. Não se trata de temer a condenação, tendo assim o mesmo destino dos peixes que não prestavam ou do joio nas parábolas. Entendamos a mensagem de Jesus a partir da lógica do Tesouro e da Pérola em comunhão com a Boa Pescaria. O texto de Mateus de hoje, antes de falar dos peixes ruins, fala da boa pescaria. Informa que a rede estava repleta de peixes. Por isso, foi um benfazejo resultado. E os peixes ruins? Vamos entender isso com a ajuda de nosso profeta de hoje, Jeremias.

Assim como o Oleiro desfaz seu trabalho malfazejo, Deus remodela o homem e a mulher para que possam ser cerâmicas primorosas, agradáveis aos olhos. Ao contrário do fatídico fim dos peixes ruins e do joio, a pedagogia de Javé para com seus filhos e filhas é a do Oleiro e não do hades ou xeol. Deus não quer a destruição de seus filhos e filhas! Quem prega isso, desconhece a Deus, ou deseja – pela pedagogia do medo – tirar algum proveito disso.

Que neste dia possamos entender que os pescadores da parábola de Jesus em Mateus somos todos nós. Também somos o barro na mão do oleiro, da alegoria do Profeta Jeremias. Devemos nos deixar moldar pelas mãos de Deus e, como foram chamados os discípulos do primeiro momento, somos chamados a lançar as redes. Trazendo para o Reino de Deus todos aqueles e aquelas que ainda não se comprometeram com o Projeto de Jesus.

Sejamos pescadores de homens e mulheres para o Evangelho, com a ousadia e a coragem dos que buscam tesouros e pérolas no Reino de Deus!

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