Catequese e Liturgia – Parte 4: Ainda sobre a Eucaristia

Outro costume que vem se firmando sorrateiro é o de comungar ajoelhado. Vez ou outra a gente vê um devoto piedoso se ajoelhando para receber a hóstia. Bom, na dica anterior já falamos que a Eucaristia é refeição; é primeiramente para comer que para adorar. Vamos ser sensatos: a gente não come ajoelhado, apesar do dito popular: “É de comer rezando!”. Mas ninguém se ajoelha e se põe a rezar enquanto come. A expressão “comer rezando” significa a atitude de reconhecimento que aquele alimento é dádiva de Deus, dom dele que, além de nos dar os alimentos, dá o prazer de comer. E isso é louvável, ou morreríamos na inanição sem apetite algum. Seria nosso fim.

Ora, se a expressão vale para os alimentos do cotidiano, ainda mais para a Eucaristia, é claro. A Eucaristia se come rezando, ou seja, reconhecendo que ela é puro dom de Deus que se dá a nós como alimento. Manducar a Eucaristia, ou seja, comer com as mãos a hóstia, é gesto de oração. Só quem crê na força da presença de Deus na Eucaristia comunga, ou seja, só esses deveriam comungar. Só quem crê que esse alimento é força para a vida deveria se aproximar dele. E quem crê se aproxima dele em atitude orante, reverente. Mas, para rezar, não é preciso ajoelhar-se. A atitude orante está mais no coração que no corpo exterior, ou seja, é algo que vem desde dentro e não desde fora, como diria o Evangelho de Marcos. Não é que seja proibido ajoelhar-se, mas não é conveniente.

Mas por que não é conveniente?

Primeiro porque a Eucaristia é refeição. A gente não se ajoelha para comer. Bom sobre isso já explicamos na dica anterior. É só conferir (Catequese e Liturgia – Parte 2: Oração após a comunhão).

Segundo, porque na liturgia é importante a unidade dos gestos. Quando é hora de ajoelhar, todos se ajoelham; quando é hora de cantar, todos cantam; quando é hora de se levantar, todos se levantam etc. A comunhão da assembleia orante se plenifica na força do gesto comum.

Terceiro. Além disso, é preciso tomar cuidado. Muitos têm se ajoelhado diante do ministro para comungar, porque, no fundo, estão fazendo um retorno ao passado mais ou menos remoto: o tempo da cristandade, quando a Eucaristia se tornou centro de adoração e em torno dela muitas devoções e costumes foram criados. Se é para voltar, que voltemos às origens cristãs, das comunidades primitivas, não aos costumes tridentinos. Algumas mulheres só faltam usar véu para comungar; algumas só usam saia, não se sentam ao lado de seus maridos nas igrejas etc. Parecem inocentes esses costumes, mas não é bem assim. Não fazer o caminho da história é perigoso. Mantenhamos, pois, o sentido original do cristianismo, mas atualizando as práticas conforme as exigências de nosso tempo. Jesus se encarnou no seu tempo; viveu tudo que seu povo vivia. Não voltou aos tempos de Abraão e foi morar de novo em tendas. Assim é a fé cristã: encarnada em seu tempo.

Seria bom, então, não recriminar nem brigar com quem criou o hábito de se ajoelhar para comungar. Nem mesmo repreender em público, como alguns fazem. Mas, em particular, o ministro chama a pessoa e orienta ou orienta a todos na hora da missa. Mas é preciso argumentar e não apenas dizer que está errado, que é um retrocesso. Expliquemos que não há necessidade alguma desse gesto e que ele não encaixa no rito litúrgico da comunhão, que é refeição. E se alguém insiste em comungar ajoelhado? Fazer o quê, meu Deus? Vamos orientando o povo. Uma hora nossa gente aprende. Paciência com nosso povo! Bom, fica aí a dica.

Solange Maria do Carmo

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