Alicerçar a vida | Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O dom sagrado de viver é também tarefa, regida por lógicas que definem o cotidiano de cada pessoa, a vida comunitária, institucional, familiar e religiosa. As lógicas indispensáveis para alicerçar a vida incluem aquelas que se relacionam aos processos de conscientização social e política. Quando são considerados os ataques à democracia percebe-se que há carência de compreensão sobre o exercício da cidadania. E os estreitamentos de mentalidades precisam de oportunos tratamentos, por processos de formação capazes de construir novos entendimentos, distantes das polarizações que fanatizam, desdobrando-se em violência, criando um clima de insegurança e de medo. Sem lúcidos e qualificados processos de conscientização sociopolítica corre-se o risco de não ser priorizado o bem comum. Dentre as consequências está a falta de atenção a relevantes campos, a exemplo da salvaguarda do meio ambiente, com novas lógicas no tratamento da casa comum, e a superação dos vergonhosos cenários de desigualdade social.

Sem adequados processos de conscientização sociopolítica, corre-se sempre o risco de considerar o dinheiro mais importante em relação aos princípios, às perspectivas humanistas ou às soluções vigorosas para a superação da miséria e da exclusão social. O sentido de cidadania precisa contar com investimentos permanentes e consistentes em processos de conscientização social e política. Na contramão desses investimentos, o que se vê é uma estreita compreensão a respeito da cultura, por não se reconhecer que valores e princípios definem projetos e a própria sociedade. Consequentemente são acentuados, dolorosamente, os preconceitos e as crescentes discriminações que impõem pesos e perdas, até irreparáveis, impossibilitando a contribuição indispensável de cada cidadão nos processos de desenvolvimento integral, que permitem o crescimento de todos.

Há de se prestar atenção ao recrudescimento assombroso de discriminações e preconceitos, revelando a carência de processos educativos que favoreçam o reconhecimento do nobre sentido da convivência humana e da construção da sociedade, sobre os alicerces da fraternidade universal e da igualdade entre as pessoas. Providências urgentes devem ser adotadas para que sejam respeitados os padrões e as dinâmicas que garantam a civilidade. Ante essas necessidades, atenção redobrada deve ser dedicada ao atual contexto eleitoral. A responsabilidade cidadã exige qualificação de discursos eleitorais, especialmente quando são consideradas as facilidades tecnológicas no campo da comunicação.

A apropriação de redes sociais como instrumento de desinformação, disseminando notícias falsas para manipular a opinião pública em favor de um determinado projeto político, representa sério risco para a sociedade.

Percebe-se, quando são considerados os muitos problemas no exercício da cidadania, a acentuada carência social de uma formação humana que sustente adequada consciência sociopolítica.  Uma realidade preocupante, que pode ser revertida com a vivência da espiritualidade – isto é, a adoção de uma via mística. Uma via longe, muito longe, dos interesses político-eleitorais de certos segmentos e grupos religiosos que simplesmente almejam conquistar adesões a projetos de poder. Investir na espiritualidade é remédio para curar desequilíbrios, alimento para qualificar o sentido da vida e cultivar no coração humano sentimentos que promovam um discurso sapiencial – aquele que promove a verdade e a defesa do bem. A espiritualidade possibilita uma sabedoria capaz de reconhecer a beleza e o sentido de cada pessoa, inclusive aquela com quem se diverge – todos irmãos e irmãs.

A espiritualidade – experiência de crer no transcendente e, de modo coerente com a fé, buscar constantemente o amadurecimento – possibilita superar descompassos, acertar rumos. Assim, oportuno é acolher o que ensina a preciosa narrativa dos chamados “Padres do Deserto”: “Um irmão perguntou a um ancião: como poderei encontrar Deus? Será pelos jejuns, trabalhos, vigílias ou obras de misericórdia? O ancião respondeu: em tudo o que dizes… especialmente pela humildade”. É hora de mais humildade, para alicerçar a vida no horizonte da espiritualidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Colaborou: Arquidiocese de Belo Horizonte

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