O Evangelho de Mateus – Parte 5: Filho de Davi e Filho de Deus (Mt 1,18-25)

1

18 Ora, a origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo.19 José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la secretamente.20 Mas, no que lhe veio esse pensamento, apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor, que lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo.21 Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”.22 Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta:23 “Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus-conosco”.24 Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu sua esposa.25 E, sem que antes tivessem mantido relações conjugais, ela deu à luz o filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus.

Situando

Com a genealogia (Estudo 4), abre-se o “livro da origem de Jesus”, chamado “Cristo” (no grego) ou “messias” (no hebraico), pois Jesus é, de fato, o ungido de Deus para salvar Israel. Plenamente inserido na história do seu povo, Jesus é filho de Abraão e filho de Davi e, portanto, legítimo herdeiro de ambos. A partir da perspectiva do Primeiro Evangelista, não há espaço para “segredos” – como em Mc – nem motivos para adiar uma proclamação tão almejada: o messias esperado já chegou e não adianta esperar outro. Mateus anuncia a boa notícia da vinda do messias logo no começo.

Mas se, por um lado, a genealogia elucida a ascendência de Jesus, por outro, nos deixa às portas do mistério: por que razão Mateus apresenta José simplesmente como “o esposo de Maria”, em vez de apresentá-lo como progenitor do Senhor? E o que significa que de Maria “foi gerado” o Cristo? Gerado por quem? Aliás, se o genitor não foi José, como afirmar então a estirpe davídica do filho de Maria? No episódio do nascimento, que completa o relato da genealogia, encontramos as respostas aos interrogantes que a abertura do Evangelho levantou.

A geração

Uma vez referida a origem remota de Jesus, “filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1), o evangelista passa a narrar a sua origem próxima (v. 18a).

Maria estava prometida em casamento a José (v. 18b). Na tradição judaica, o casamento celebra-se em duas etapas: o contrato de noivado e a coabitação. Antigamente, entre uma e outra fase costumava transcorrer um tempo intermediário, que podia durar por volta de um ano. Caso não se celebrasse, dentro desse período, a festa nupcial, o matrimônio era considerado incompleto. Aquele intervalo visava ao amadurecimento dos noivos, uma vez que a idade legal para contrair matrimônio era de treze anos para os rapazes e de doze anos para as moças. Devemos considerar que, naquele tempo, a expectativa de vida era visivelmente menor do que a atual. Os ritmos da existência consequentemente eram outros. O certo é que, uma vez realizados os contratos esponsais, surgia entre os noivos um vínculo semelhante ao do casamento concluído.

Até aqui, o quadro apresentado por Mateus não tem nada de extraordinário: dois jovens judeus cujos destinos estão unidos mediante um contrato de esponsais. Mas, repentinamente, o inusitado, o absolutamente impensável irrompe na vida dos dois: Maria fica grávida “pela ação do Espírito Santo” (v. 18c). Como foi que isso aconteceu? Mateus – diferentemente de Lucas (cf. Lc 1,26-38) – guarda silêncio, deslocando o drama de Maria para José. É este, de fato, o verdadeiro protagonista da perícope, correspondendo à mãe de Jesus um plano secundário.

Todo o episódio da concepção, pois, é resumido na sobriedade de uma única expressão. A austeridade da frase, contudo, não deve nos enganar, pois nessas poucas palavras desvenda-se um grande mistério: o que foi gerado em Maria é obra do Espírito Santo, isso é, puro dom de Deus. Eis a primeira vez que aparece no relato mateano – implicitamente – a filiação divina do messias. Jesus é – como demonstra amplamente a genealogia – filho de Davi e de Abraão (cf. Mt 1,1), mas ele é também o Filho de Deus.

Como no começo do capítulo 1 (cf. Mt 1,1 – estudo 4), Mateus parece remeternovamente – embora de modo menos evidente – ao Livro do Gênesis. Pois o Espírito Santo que agiu sobre Maria é o mesmo que pairava sobre as águas no primeiro dia da criação (cf. Gn 1,2) e que, uma vez formado o homem a partir do pó da terra, penetrou por suas narinas, enchendo-o de vida (cf. Gn 2,7). Aliás, é o mesmo Espírito que, ora como um vento forte ora como uma brisa suave, sopra sobre o pó do qual somos feitos para que, em Jesus, o “novo Adão”, tenhamos vida.

Um homem justo

José era um homem “justo” (v. 19a). O conceito de justiça é fundamental na teologia do Primeiro Evangelista. Mas que justiça é essa? Certamente não é a justiça farisaica, que Mateus – em pleno conflito com a Sinagoga – caracteriza como o mero cumprimento externo de preceitos, como a mera observância de uma Lei esvaziada de sentido; como uma caricatura grotesca, enfim, da verdadeira justiça. Também não se trata da justiça grega, como é o caso da “justiça distributiva”, consistente na reta distribuição dos bens e das responsabilidades entre os membros do coletivo social; nem da “justiça corretiva”, que visa a reparação do dano causado ou a punição da ofensa cometida.

Muito mais do que isso, a justiça, em Mt, consiste em ajustar-se à vontade divina, como uma roupa apertada que, através do tecido, permite adivinhar o formato do corpo que está por baixo. Do mesmo modo, através do homem justo, pode-se contemplar, como num espelho, o coração misericordioso do Pai que, no seu agir e nas suas escolhas, torna-se visível. Não é de estranhar, pois, a opção de José: deixar em segundo plano a Lei, que mandava apedrejar Maria (cf. Dt 22,22), para obedecer ao mandato do Deus da vida. A situação de Maria era, de fato, comprometedora: incapaz de provar sua inocência, sucumbiria inexoravelmente ao legalismo que, por estar apegado à letrinha da norma, nada sabe de clemência nem se preocupa com a vontade divina. Por isso, mesmo sem compreender o sucedido, José se recusa a denunciar a Maria e pensa em despedi-la secretamente (v. 19b). Era preciso salvar a vida da jovenzinha Maria e do menino que ela carregava no ventre. Se a Lei dizia: “mata-os!”; a misericórdia dizia; “salva-os!”. José, homem justo, ou seja, ajustado ao coração bondoso de Deus, entende que a vida está acima da Lei e, em nome do amor, que foi o motivador original da Lei, José supera a própria Lei.

A intervenção divina

Mas, no que lhe veio a José a ideia de despedir Maria, “apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor” (v. 20a). Os relatos de sonhos constituem um gênero literário bem conhecido no AT. Abimelec (cf. Gn 20), Jacó (cf. 28,10-22), Salomão (cf. 1Rs 3,2-15) e Ezequiel (cf. Ez 40–48) são exemplos de grandes sonhadores. Também não faltam, nas páginas da Bíblia, intérpretes competentes desse universo simbólico e ambíguo, como José, no Egito (cf. Gn 40–41) e Daniel, na Babilônia (cf. Dn 2.4). Quando dormimos estamos desprotegidos, sem defensas, rendidos aos nossos medos e desejos. É o momento em que, por “baixarmos a guarda”, o nosso ser mais profundo aflora para valer. Aquilo que, durante a vigília, nossa consciência tenta abafar, encontra, durante o descanso, a ocasião propícia para emergir e reinar. Por isso, os povos antigos, que, embora desconhecessem os mecanismos secretos do inconsciente, intuíam que, durante o repouso, desponta o mais profundo de nós, consideravam os sonhos um âmbito privilegiado para a divina revelação. Afinal de contas, Deus habita o mais profundo do nosso ser; é ele o fundamento da nossa existência.

A intervenção de Deus não é referida de modo direto, mas como acontecida pela ação de um mediador: “o anjo do Senhor”. No ocaso do exílio, o povo judeu foi influenciado pelos persas, cujo grande imperador, Ciro, derrotou o império babilônico, autorizando o retorno dos exilados para a terra de Israel. A crença judaica nos anjos nasce precisamente nesse encontro intercultural. Além do mais, para a fé javista, Deus é o totalmente Outro e diverso de nós. Embora presente na história e próximo de Israel através da Lei mosaica, conserva sempre e em todo momento a sua absoluta transcendência. Por isso mesmo, o seu nome, revelado a Moisés, não pode ser pronunciado em vão (cf. Dt 5,11) ou, melhor, não pode ser pronunciado em hipótese alguma. Consequentemente, Mateus, que é um cristão proveniente do judaísmo e que escreve para uma comunidade de matriz judaica, situa a intervenção de Deus no marco de um sonho e coloca, entre Deus (alteridade absoluta) e a criatura (José), um mediador (“um anjo do Senhor”). O anjo é, então, uma figura literária para falar do próprio Deus que não pode ser visto e que, no segredo do coração rendido de José pelo sono da noite, comunica a sua vontade ao seu servo. Afinal, não era ele um homem justo? Ou seja, não era ele um homem ajustado a Deus? Como alguém ajustado a Deus poderia não ser comunicado dos desígnios divinos para levá-los a bom termo?

O resto do episódio segue o esquema do gênero literário dos anúncios, frequente tanto no Antigo (cf. Gn 17–18; Ex3; Jz 13) quanto no NT (cf. Lc 1,3-38). A saber: aparição (v. 20a); perturbação (v. 20b); mensagem (v. 20-21); nome e sinal (v. 21); conclusão (v. 24-25). Como demonstração de que tudo obedece aos desígnios salvíficos de Deus, Mateus acrescenta a fórmula de costume: “Tudo isso aconteceu para que se realizasse…” (v. 22). A citação que vem a seguir (v. 23) inspira-se no Primeiro Isaías (cf. Is 7,14; 8,8.10). O grande profeta de Judá (Reino do Sul) exerceu seu ministério profético num tempo de grande tribulação. Por um lado, estava o império assírio, prestes a engolir a região inteira; por outro lado, Israel (Reino do Norte) e Damasco, unidos para combater o ascendente império, ameaçavam com isso invadir o vizinho do sul, em decorrência da penosa aliança – inspirada no medo – entre Acaz, rei de Judá, e o imperador da Assíria. Entre os dois bandos, soçobrava Judá. Então, em meio à crescente angústia, ressoa a promessa esperançosa de um herdeiro: “Eis que a jovem [isto é, a mulher de Acaz] conceberá e dará à luz um filho [isto é, Ezequias] e lhe porá o nome de Emanuel” (Is 7,14). O original hebraico utiliza a palavra almah, que quer dizer “jovem” ou “moça”. Mateus, contudo, cita a partir da versão grega (Bíblia dos LXX), que emprega o termo parthénos, que significa “virgem”, e o aplica à Maria (v. 23).Ao reler o profeta Isaías, Mateus – possuído pela fé no messianismo de Jesus – reconhece na jovem apregoada por Isaías a mãe de Jesus e, no menino, o próprio Jesus em quem eles estavam depositando sua confiança. Afinal, se a mulher de Acaz e o seu filho Ezequias já são sinal de que Deus não abandonou seu povo e permanece com eles como o Emanuel (Deus conosco), muito mais agora por meio de Jesus de Nazaré, o filho de Deus encarnado no seio da jovenzinha Maria, Deus se faz presente na história!

José, pai da esperança

Uma vez que o que foi gerado em Maria vem do Espírito Santo, José é exortado a não ter receio de recebê-la em sua casa (v. 20). Maria é chamada de “esposa”, pois – conforme já foi apontado – o noivado constituía uma união equiparável, em seus efeitos, ao matrimônio. “Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome…” (v. 21a). A intenção do evangelista salta à vista: levar à completude, mediante a coabitação, o vínculo nascido dos esponsais e garantir, mediante o reconhecimento legal da filiação, da parte de José, a inserção de Jesus na estirpe davídica. A atribuição do nome era, de fato, expressão eminente da autoridade paterna (cf. Lc 1,62-63). O nome indicado é Jesus, que significa “Deus salva” (v. 21) e que deriva, por sinal, da mesma raiz linguística que o nome Josué. Porque, assim como Josué introduziu o povo na Terra Prometida, Jesus levará o ser humano à uma “terra” de esperança, salvando-o, não do opressor estrangeiro, mas “dos seus pecados”, isto é, de uma história ferida pela injustiça, pelo não-ajustamento a Deus. Ao nome próprio do menino, Mateus acrescenta outro nome, de natureza simbólica: ele será chamado Emanuel, que significa “Deus-conosco” (v. 23 – cf. Is 7,14; 8,10). Deste modo, o “Deus que salva” rompe as barreiras da transcendência para, mesmo sem deixar de ser o “totalmente Outro”, fazer-se o “Deus-conosco”, gente como a gente, um de nós, na pequenez de uma criança.

José, que – lembremos – era “um homem justo”, ou, em outras palavras, que estava ajustado à vontade de Deus, “fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu sua esposa” (v. 24). E não teve relações com Maria “até o dia em que deu à luz o filho, ao qual pós o nome de Jesus” (v. 25). Com essa lacônica frase, encerra-se o primeiro capítulo do Evangelho. A expressão nada não diz quanto ao acontecido após o nascimento. A preocupação do Evangelho de Mt, de fato, não é propriamente mariológica, mas cristológica, pois visa esclarecer, não a identidade de Maria, mas a realidade última de Jesus. Mateus quer mostrar que o menino que dela nasceu não é fruto do esforço e da virilidade humana, mas puro dom de Deus. Daí a insistência na “concepção pelo Espírito Santo” e não por José, o esposo de Maria. Parece importante para Mt, afirmar e reafirmar isto: “É Deus quem dá seu Filho ao mundo!”. Em tempos em que os fariseus entendiam que, por seu esforço no cumprimento da Torah, Deus traria o messias ao mundo e faria seu reino acontecer, o evangelista insiste na gratuidade de Deus. Não é a justiça de José ou sua virilidade, revelada no cumprimento da Lei e na gravidez de Maria, que fazem o reino acontecer. É a gratuidade de Deus que, na sua generosidade, apenas conta com colaboradores para fazer cumprir sua vontade. José é colaborador de Deus; o autor da ação salvífica é Deus mesmo. Ficam respondidas assim as duas perguntas iniciais: a) José é dito como esposo de Maria e não como pai biológico de Jesus para garantir a gratuidade da vinda do messias; b) Jesus é dito como quem “foi gerado” de Maria para garantir que Deus mesmo é o autor da ação; é ele quem dá Jesus ao mundo.

* * *

No filho de Maria, gerado pelo Espírito e amparado pelo justo José, somos salvos do pecado, que, como um martelo, nos desajusta e fragmenta. Nele, o Deus da vida, amigo e companheiro de caminho, se faz gente como a gente, para que, na fragilidade de um menino judeu, receba um nome a nossa esperança. Ele se: chama Jesus, o “Deus que salva”; Emanuel, o “Deus conosco”.

Colaborou: Fique Firme

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: