Celebrando São Joaquim e Sant’Ana sob a inspiração de Eclo 44,1.10-15 e Mt 13,16-17

Por Hermes Fernandes

Hoje aqui estamos reunidos ao redor da Palavra de Deus para celebrar São Joaquim e Sant’Ana. Segundo uma antiga tradição, já conhecida no Século II, assim eram chamados os pais da Santíssima Virgem Maria. A veneração de Sant’Ana já era um costume no Oriente desde o Século VI e difundiu-se no Ocidente no Século X. Mais recentemente, também São Joaquim passou a ser venerado. Na intuição de se celebrar a Família de Nazaré. De seu patriarcado e matriarcado, Joaquim e Ana, até a Sagrada Família de Jesus. Tudo converge para Jesus. De seus avós maternos à sua Mãe, nossa veneração sempre deve ter uma dimensão cristológica.

Maria: a Bem amada de Deus. Teve como pais Joaquim e Ana, segundo a tradição. Ela, a amada, a escolhida para abrigar em si a encarnação do Verbo, se faz grande em sua pequenez. Não estava nos palácios herodianos aquela que seria a Mãe de Jesus. Assim como grande parte dos personagens bíblicos, a Mãe de Jesus veio do meio dos pobres. Em Nazaré da Galileia, Deus encontrou graça em uma jovem de nome Maria (cf. Lc 1,28). Bela e formosa, simples e humilde, encontra em Deus a graça por alimentar em si fidelidade e amor ao Deus da promessa. A sua participação nas festas (cf. Jo 2,1-10), na comunidade (cf. At 14) e no sofrimento (cf. Jo 19,26) aponta para uma inversão da lógica social do seu tempo. Ela vem “sintetizar” e aprimorar as mulheres profetisas do Primeiro Testamento, cuja única honra era educar os filhos para a Lei.

Havia muito que o povo de Israel esperava um Messias, mas um Messias que viesse glorioso e com forte exército para dominar o poder romano, o qual explorava e oprimia a maioria pobre e marginalizada. Mas Jesus pede que se traga um jumento, animal usado para o trabalho e não para as guerras, e entra em Jerusalém aclamado como rei. Ele não aceita o poder da terra e vem revestido do amor. Essa experiência do amor de Deus anunciado por Jesus é a grande reviravolta para uma sociedade injusta. Enquanto César e seus servidores o viam como agitador político, Jesus dava o testemunho e sua Palavra anunciava um Reino de justiça e de vida para todos. Jesus vem anunciar que o sinal maior é o amor. Esse amor desinteressado e exigente convoca cada pessoa a cuidar da vida, a cuidar do outro, para que a vida prevaleça. O Messias, Servo Sofredor, realiza o Mistério Pascal em sua Vida, Morte e Ressurreição. Anunciando as promessas do Reino, remindo nossas culpas, inspirando os primeiros discípulos para dar continuidade ao seu Mistério: a instauração do Reino de Deus. E a tudo isso, Maria participava, meditava e guardava em seu coração (cf. Lc 2,16-21).

Nesta dinâmica da Ação Redentora, nas origens da família de Jesus, se insere Joaquim e Ana. Para bem celebrá-los, a Liturgia nos sugere na Primeira Leitura o Livro do Eclesiástico 44,1.10-15. Trata-se de um elogio aos antepassados. Um ode, um poema lírico para exaltar a descendência dos que se fizeram fiéis a Javé. Os fiéis ao Altíssimo têm sua descendência eternizada na história e na memória do povo. Diz o texto: “A descendência deles mantém-se fiel às alianças, e, graças a eles, também os seus filhos. Sua descendência permanece para sempre, e sua glória jamais se apagará. Seus corpos serão sepultados na paz e seu nome dura através das gerações. Os povos proclamarão a sua sabedoria, e a assembleia vai celebrar o seu louvor” (Eclo 44,12b-15). Os que confiam no Senhor e permanecem fiéis à sua Aliança serão eternizados em nossos corações como testemunhas que testificam a ação e o amor de Deus por nós e em nós. Assim foi com os antigos do Primeiro Testamento. Assim foi com a Família de Nazaré que participou intimamente do Mistério da Salvação.

No Evangelho da Liturgia de hoje, temos o texto de Mt 13,16-17. Esta perícope já nos visitou na Liturgia deste Ano Litúrgico. Mateus põe nos lábios de Jesus um regozijo em nome de todos aqueles que puderam testemunhar o infinito amor do Pai por seus filhos e filhas e a revelação deste amor preferencialmente aos pequenos e humildes. Diz o texto: “Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram” (Mt 13, 16b-17). Este texto é muito oportuno quando celebramos aqueles e aquelas que puderam presenciar e participar do Mistério da Salvação que se fez carne. Nestes, podemos incluir Joaquim e Ana. A família escolhida para abrigar o Verbo Encarnado.

Louvando a Deus pelas vidas de São Joaquim e Sant’Ana, somos convidados a voltar nossos olhos a todas as famílias em nossos tempos. Assim como os santos venerados hoje, nosso povo deseja ver as maravilhas advindas do Senhor. Assim como as famílias do tempo da Santíssima Virgem, nosso povo está sob muitos desafios. Fazendo uma devida atualização à nossa realidade, nós também temos os impérios opressores. Temos nossas tribulações e, assim como o Povo de Israel, clamamos aos céus por força e libertação. Quantos não são os pais e avós que se sentem atribulados pela eminência da fome, da instabilidade financeira, da seguridade alimentar, do direito à moradia e saúde postos em risco? Nestes últimos tempos, nosso povo se vê ameaçado em seus direitos e necessidades mais elementares. Enquanto isso, no mundo dos poderosos, seguidores do falso messias fazem sinal de “arminhas na mão”, reivindicam o direito de se armar; enquanto o Povo de Deus clama desesperado diante da necessidade de, pelo menos, se alimentar. “Mais feijão e menos fuzil!” É o clamor do Povo de Deus em nossos dias.

Com Maria de Nazaré e seus pais Joaquim e Ana, clamamos ao Pai do Céu para que olhe por nós. Que possamos testemunhar o advento de um novo tempo. Em que, com os antigos, possamos nos regozijar emprestando as palavra de Simeão:

“Agora podeis deixar vosso servo ir em paz,
conforme prometestes, ó Senhor!
Pois meus olhos viram vossa salvação,
que preparastes ante a face das nações!”

(Lc 2,29-31)

Que as famílias de hoje, assim como a Família de Nazaré e os antigos da história da salvação, possam testemunhar a ação libertadora de Deus, por seu Filho Jesus. Que venha a nós o Reino do Pai. Justiça, paz, alegria, amor fraterno, pão e beleza; é o que clamamos a Javé. Assim como Israel, esperamos o Tempo de Deus. Tempo de alegria e dignidade. Reino de Deus, entre nós. Aqui e agora!

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