“Quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo” | Reflexão sobre 2Cor 4,7-15 e Mt 20,20-28, por ocasião da Festa de São Tiago Maior

Por Hermes Fernandes

Hoje a Igreja celebra a Festa do Apóstolo São Tiago. Chamado Tiago Maior, nasceu em Betsaida. Era filho de Zebedeu e irmão do Apóstolo João. Esteve presente nos primeiros sinais realizados por Cristo. Foi morto por Herodes, por volta do ano 42 EC. É venerado com grande devoção em Compostela, na Espanha, onde se ergue a célebre basílica dedicada a seu nome.

Para bem celebrar a festa deste mártir do primeiro momento das comunidades cristãs, a Liturgia nos sugere a leitura de 2Cor 4,7-15 e do Evangelho de Mt 20,20-28.

A Primeira Leitura, da Segunda Carta aos Coríntios, nos traz uma mensagem de exortação à perseverança no seguimento de Jesus. Devemos mantermo-nos firmes no Projeto dele, não obstante nossas limitações humanas, uma vez que “trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós” (2Cor 4,7). Nos versículos seguintes, S. Paulo nos exorta à esperança, mostrando-nos que as provações fazem parte da dinâmica do Reino. Todo aquele que escolhe pautar sua vida pelos valores do Evangelho, se coloca em oposição aos desvalores que lhe são contrários. Em tempos de exclusão social, marginalização dos pobres, perseguição aos que amam de forma diferente, discursos e pedagogias de ódio; o Evangelho nos impele à ousadia do amor incondicional, sem barreiras. Neste amor revolucionário, devemos acolher sempre, integrar sempre, humanizar sempre. Em consequência ao amor subversivo do Evangelho, nós – seguidores e seguidoras de Jesus – “Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; por toda a parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos” (2Cor 4,8-10). Em tempos, nos quais a liberdade para amar incondicionalmente é tolhida por discursos de moralismos hipócritas, aporofobia, misoginia; amar como Jesus amou, pode ser ato de subversão aos poderes que insistem em se estabelecer. Usamos aqui a palavra subversão em seu sentido mais puro, mais genuíno. Falar a partir de baixo, isto é, a partir dos que estão subjugados por essa sociedade plutocrática, excludente, legalista, assassina de vidas e consciências. Todos nós, cristãos e cristãs que escolhemos os valores do Reino de Deus, estamos em estado de subversão. Opomo-nos ao mal que abate-se sobre nós, subjugando até mesmo nosso direito de amar, conforme os ensinamentos do Santo Evangelho. Amar para libertar. De todas as formas de opressão! Existenciais, espirituais, materiais. Porque, em Cristo, somos chamados à liberdade plena (cf. Gl 5,13). Só o amor pode libertar.

No Evangelho, Mateus nos apresenta uma narrativa de interpretação bem desafiadora. Em uma leitura desatenta, podemos nos antipatizar com a postura da mãe dos apóstolos Tiago e João. No primeiro bloco da narrativa (Mt 20,20-21), esta mãe pede a Jesus que dê lugar privilegiado aos seus filhos no Reino. Precisamos entender com alguma lucidez esse pedido. Consideremos que Jesus anunciava o advento do Reino de Deus, entretanto, grande parte dos seus ouvintes, entendia que este reino se tratava de uma realidade sócio-política. Uma derrubada da ocupação romana e a restauração do Reino de Israel. Até mesmo as profecias do Primeiro Testamento corroboram para essa interpretação. A de que Jesus seria um Messias político. Vendo assim, entendemos as motivações do pedido da mãe dos discípulos. Que estes se sentasse um a direita, outro a esquerda de Jesus em seu Reino. Qual mãe não deseja que seus filhos se encaminhem na vida? Não julguemos a esposa de Zebedeu! Era mãe. Queria o melhor para seus filhos e não tinha entendido a essência da proposta de Jesus.

Jesus, Mestre que fala com sabedoria e educa com amor, aproveita a oportunidade para aprofundar sua catequese. Lapidar algumas arestas na formação de seus discípulos. Afinal, após sua morte, seriam estes que dariam continuidade ao anúncio do Evangelho e à instauração do Reino de Deus. Convém que estivessem afinadinhos na compreensão da pedagogia e da dinâmica dos ensinamentos do Mestre Galileu. Por isso, no segundo bloco da narrativa de Mateus (Mt 20,22-23), Jesus anuncia sua Paixão e ainda adverte que, bebendo do cálice que lhe será apresentado, também eles encontrarão o mesmo fim: perseguição e morte. E no terceiro bloco da narrativa, (Mt 20,24-28), fica elucidada a confusão. Seguir Jesus não confere dignidade, segundo a pedagogia de poder. Ao contrário, esta mesma pedagogia de poder irá perseguir aqueles que anunciarem a novidade do Evangelho, pois “sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (Mt 20,25-28).

Aqui Jesus dá um xeque-mate em toda e qualquer confusão interpretativa do que seria o discipulado. Todo aquele que deseja ser cristão ou cristã, deve ter como ponto de partida o lugar dos últimos. Servindo com aquele amor subversivo que falamos anteriormente, ao comentarmos a Primeira Leitura da Liturgia de hoje. Este amor nos impele ao serviço aos pobres. À profecia diante das muitas injustiças presentes em nossa sociedade. Mesmo que essa postura de falar a partir dos subjugados possa nos custar algo, até mesmo a vida.

Este foi o lugar que foi reservado a Tiago. Não lhe foi oferecido a cadeira ao lado do Mestre no reino deste mundo. Em contrapartida, participou de sua Páscoa, dando – também ele – seu sangue pela causa do Evangelho. Seu martírio, seu sangue derramado, fecundou as sementes do Reino de Deus.

Que possamos nós, Igreja peregrina, compreender de qual forma seremos – de fato – seguidores e seguidoras de Jesus. Renunciando a toda forma de tentação pelo poder, fama e prestígio; consideremos o que – de fato – nos aproxima do ideal evangélico. Servir e amar, mesmo que isso custe nossas vidas.

São Tiago Maior,
Rogai por nós!

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