Um Papa Pecador

“O senhor muitas vezes se definiu como ‘um pecador’. Ao encontrar-se com os presos de Palmasola, na Bolívia, em 2015, disse: ‘Diante de vocês está um homem perdoado dos seus muitos pecados…’. Impressiona ouvir um Papa falar assim de si mesmo…” (Andrea Tornielli)

Francisco: Está falando sério? Não acho que seja assim tão fora do comum, mesmo entre os meus predecessores. Li na documentação do processo de beatificação de Paulo VI o testemunho de um dos seus secretários, ao qual o Papa, fazendo eco das palavras que já citei no seu Pensamento sobre a morte, lhe confidenciou: ‘Para mim, sempre foi um grande mistério de Deus estar diante da minha miséria e estar diante da misericórdia de Deus. Não sou nada, sou miserável. Deus Pai gosta muito de mim, quer salvar-me, quer tirar-me desta miséria em que me encontro, mas sou incapaz de fazer isso por mim mesmo. Então manda o seu Filho, um Filho que traz a misericórdia de Deus traduzida num ato de amor por mim… Mas para receber este dom é preciso uma graça especial, a graça da conversão. Tenho que reconhecer a ação de Deus Pai no seu Filho em meu favor. Após reconhecer isso, Deus atua em mim através do seu Filho’. 

É uma síntese belíssima da mensagem cristã. 

E o que dizer da homilia com que Albino Luciani iniciou o seu episcopado em Vittorio Veneto, explicando que a escolha recaíra nele porque determinadas coisas, em vez de escrever no bronze ou no mármore, o Senhor preferia escrevê-las no pó da terra. Assim, se a escrita permanecesse, estaria claro que o mérito seria todo de Deus. Ele, o bispo, o futuro Papa João Paulo I, definia-se como ‘o pó’. 

Devo dizer que, quando falo sobre isso, penso sempre no que Pedro disse a Jesus no domingo da sua ressurreição, quando o encontrou sozinho. Um encontro a que se refere o evangelista Lucas (24, 34). Que terá dito Simão Pedro ao Messias assim que Ele ressuscitou do sepulcro? Terá dito que se sentia um pecador? Terá pensado na negação, no que acontecera poucos dias antes, quando por três vezes fingira não conhecê-lo no pátio da casa do Sumo Sacerdote? Terá pensado no seu pranto amargo e público? Se Pedro fez isso, e se os Evangelhos nos descrevem o seu pecado, a sua negação, e se apesar de tudo isso Jesus lhe disse: ‘Apascenta minhas ovelhas’ (Evangelho de João 21, 16), não creio que devamos ficar surpresos se também os seus sucessores descrevem-se a si mesmos como ‘pecadores’. Não é uma novidade. 

O Papa é um homem que precisa da misericórdia de Deus. Falei isso com toda sinceridade, inclusive aos prisioneiros de Palmasola, na Bolívia, perante aqueles homens e aquelas mulheres que me receberam com tanto carinho. Relembrei a eles que também São Pedro e São Paulo estiveram presos. Tenho um afeto especial pelos que vivem na prisão, privados da liberdade. Sempre fui muito ligado a eles, por esta consciência do meu ser pecador. Cada vez que entro numa prisão para uma celebração ou para uma visita, sempre me vem este pensamento: por que eles e não eu? Devia estar aqui, merecia estar aqui. A sua queda poderia ser a minha, não me sinto melhor do que aqueles que tenho diante de mim. Assim me encontro a repetir e a rezar: por que eles e não eu? Isso pode escandalizar, mas consolo-me com Pedro que negou Jesus e apesar disso foi escolhido”. 

Papa Francisco, livro-entrevista O Nome de Deus é Misericórdia.
Foto: L’Osservatore Romano.

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