“Melhorai vossa conduta e vossas obras, que eu vos farei habitar neste lugar” | Reflexão sob a inspiração de Jr 7,1-11 e Mt 13,24-30

Por Hermes Fernandes

Neste Sábado da 16ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos sugere os textos de Jr 7,1-11 e Mt 13,24-30. Ao redor da Palavra de Deus, vamos conhecer estes textos, ver qual relação têm entre si e a mensagem que deixam para nós, Igreja de Jesus. Vejamos!

No capítulo 7 do livro do Profeta Jeremias, a Palavra de Javé foi apresentada ao profeta para que este exortasse o povo à conversão. Jeremias viveu no século 7º aEC. Tempo em que a Babilônia ameaçava as nações do Oriente Médio, no desejo de subjugá-las. Este poder emergente irá resultar no lamentável episódio do exílio, que tanto estudamos em nossos círculos bíblicos. O Povo de Deus será expatriado e subjugado à condição de diáspora.

No contexto de Jeremias, os povos que não se aliaram à opressora Babilônia, organizavam-se em resistência com outras nações que se sentiam ameaçadas. Estas alianças se faziam perigosas ao Povo de Javé. Aqueles que confiavam nas armas estrangeiras contra a Babilônia, também se deixavam influenciar pelas divindades e costumes destes povos. Aos olhos de Jeremias, Israel deveria confiar em seu Senhor, Javé. Não em armas, costumes e deuses estrangeiros. Por isso, podemos entender que a perícope bíblica de hoje, da Primeira Leitura da Liturgia, é uma exortação à fidelidade a Javé.

A fidelidade a qual Jeremias exorta o Povo não se restringe ao culto exclusivo à Javé. Vai além. O profeta cobra do Povo de Deus uma conduta consoante com a vontade do Altíssimo. Podemos verificar isso nos versículos a seguir:

“Ouvi a palavra do Senhor, todos vós de Judá, que entrais por estas portas para adorar o Senhor. Isto diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Melhorai vossa conduta e vossas obras, que eu vos farei habitar neste lugar. Não ponhais vossa confiança em palavras mentirosas…” (Jr 7,2-3)

E mais:

“…se melhorardes vossa conduta e vossas obras, se fizerdes valer a justiça, uns com os outros, não cometerdes fraudes contra o estrangeiro, o órfão e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar, e não andardes atrás de deuses estrangeiros, para vosso próprio mal, então eu vos farei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais, desde sempre e para sempre.” (Jr 7,5-7)

E ainda:

“Eis que confiais em palavras mentirosas, que para nada servem. Como?! Roubar, matar, cometer adultério e perjúrio, queimar incenso a Baal, e andar atrás de deuses que nem sequer conheceis; e depois, vindes à minha presença, nesta casa em que meu nome é invocado, e dizeis: ‘Nenhum mal nos foi infligido’, tendo embora cometido todas essas abominações.” (Jr 7,8-10)

Nas palavras do profeta, o Povo de Deus deixava-se levar pela hipocrisia. Estando diante do Senhor em adoração, mas praticando obras que não lhe agradavam. Javé escolheu seu Povo desde Abrãao (cf. Gn 12,1-3). Todavia, pela tibieza e infidelidade, este mesmo povo se deixava tentar pela mentira, idolatria e infidelidade. A mentira aqui pode ser entendida como as promessas dos povos estrangeiros, incitando à falsa esperança de libertação da ameaça babilônica. Com isso, se deixavam seduzir pelos costumes contrários à vontade de Javé, pelas injustiças e toda sorte de maldade, assim como, a idolatria.

Contra todos estes comportamentos que contrariavam a vontade divina, Jeremias exorta para que voltem à Casa de Deus. Pela fidelidade a ele e aos seus desígnios.

No Evangelho (Mt 13,24-30), Jesus conta a parábola do Joio e do Trigo. A imagem do joio e do trigo nos tornou proverbial, quase que corriqueira, em nossos tempos. De sorte que a parábola evangélica nos é transparente. Duas coisas não se tornaram corriqueiras, proverbiais, e se faz necessário dar algum destaque. Primeiro: o joio foi semeado por algum malfeitor. “Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio” (Mt 13,25-26). Este malfeitor reflete os poderes empenhados em malograr a boa colheita, aproveitando o momento do descanso legítimo, para sorrateiramente semear o mal junto ao bem (cf. Sl 127,2). Mesmo quando se há iniciativas dignas, fundamentalmente boas como o plantio do alimento, sempre haverá aquele que deseja destruir o outro, com projetos de maldade, às vezes, injustificáveis. Em segundo lugar, devemos observar a orientação da mensagem de Jesus para que se tome o joio com discernimento e paciência. Esta é uma orientação que pode ser aplicada em níveis sociais e eclesiais. Combater o joio passionalmente, pode matar também o trigo. Neste sentido, o discípulo e discípula de Jesus deve ter o discernimento entre o bem e o mal, mesmo que esses se pareçam em demasia, como pode o joio se camuflar em meio ao trigo. Há que se atentar aos que se dizem ao serviço do Reino de Deus e, em verdade, são inimigos do Projeto de Jesus. A estes devemos dedicar nosso discernimento, nosso olhar de sabedoria e ter a paciência de combater o mal em nosso meio, sem fazer perder aqueles que buscam – de fato – seguir Jesus.

O combate ao joio de forma prematura ou passional, pode ser entendido como os conflitos dentro da Igreja de Jesus que, no desejo de defender uma verdade, acaba-se pondo a perder os pequeninos. Há quem hoje se autodesigne defensor da Sã Doutrina e, com isso, ataca a todos que têm pensamentos divergentes aos seus, acusando-os de hereges, entre outros impropérios. Quando a apologética fere a caridade fraterna, está mais ao serviço do mal do que do bem. Há quem acredite defender a vontade de Deus e a Doutrina da Igreja, mas – em verdade – estão escandalizando e confundindo os pequeninos de Jesus. Condenando e julgando. Estes cristãos apologetas, moralistas; são joio, disfarçados de trigo. Lobos em pele de cordeiro.

Que possamos, atentos às exortações de Jeremias por fidelidade a Javé, escolher o caminho segundo sua vontade. Praticando a justiça, o amor e vivendo relações fraternas e solidárias. Tomando como exemplo a experiência do profeta, que possamos confiar em Deus e em seu filho, quando nas dificuldades da vida. Que não caiamos na tentação de eleger falsos messias, optando por valores contrários aos do Reino de Deus!

Quando nos depararmos com o mal em nosso meio, que possamos usar da sabedoria apreendida de Jesus. Separando o joio do trigo, sem que se perca o trigo, isto é, sem machucar os corações de nossos irmãos e irmãs. Sobretudo, os pequeninos. Que possamos, enquanto seguidores e seguidoras de Jesus, sermos agricultores dignos e amorosos com sua colheita, isto é, o anúncio e a construção do Reino de Deus.

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