Catequeses: Intenções de Missa – Parte 4

Uma intenção que aparece vez ou outra na lista de missa chega a assustar. Nossa gente reza em algumas comunidades pela conversão do demônio. Parece engraçado e faz rir mesmo. Mas o caso é bem sério! Por detrás dessa oração, há conceitos teológicos muito equivocados que sustentam as preces de nossa gente.

Primeiramente poderíamos discutir quem é o diabo, mas a figura do diabo é tão plural que é melhor nem abrir essa polêmica. Na fé cristã, temos textos distintos sobre esse tema. Alguns dizem que o diabo é um anjo brilhante, mas decaído que, tendo desobedecido a Deus, é responsável pelas tentações que experimentamos. Outros – como a maioria dos textos bíblicos, por exemplo, e os escritos de muitos biblistas e teólogos – entendem que o diabo é uma figura de linguagem para explicar o mal, que não pode ter vindo de Deus, é claro. Então, deixemos de lado essa peleja.

Em segundo lugar, poderíamos nos perguntar se faz sentido rezar pela conversão do diabo. Para alguns faz, pois, se ele se converte, todos os problemas acabam: toda tentação desaparece, todo mal que ele maquina se desfaz, tudo volta ao paraíso original que ele estragou quando, disfarçado de serpente, seduziu a primeira mulher a comer o fruto proibido. Ora, então, rezar pela conversão do diabo parece ser a coisa mais sensata a fazer, pensam alguns. Mas seria, de fato, o diabo o responsável por todos os males? Será que podemos voltar ao paraíso original? Ou, ao contrário, não seria a própria vida cheia de tribulações e conflitos? Tais conflitos não são próprios da natureza humana, dos limites que experimentamos? Quem reza pela conversão do diabo parece não ter noção de que a vida é mesmo peleja, sofrimento… Para justificar os males da vida, a gente arranja um bode expiatório, o diabo, responsabilizando-o por tudo. Mas não é assim que a fé cristã vê a vida. A vida é mesmo cheia de angústias e sofrimentos e aí está o papel da fé: dar força para viver, mesmo em meio às angústias e contradições da vida.

Em terceiro lugar, na aparente fé no poder de Deus que pode até converter o diabo por meio de nossas preces, também se encontra outro equívoco teológico: o de achar que Deus atende nossas preces por insistência nossa e não por pura gratuidade dele. Quem pensa assim interpreta equivocadamente o texto bíblico de Lucas (cf. Lc 18, 1-8). Entendem que Deus é como um juiz iníquo e que nós somos como a viúva insistente. De tanto pedir a ele que converta o diabo, uma hora a coisa vai acontecer. Mas quem lê a bíblia com atenção vê logo no versículo 1 desta parábola a motivação de Jesus para contá-la: rezar sempre sem jamais desistir. O alvo da oração somos nós, que não podemos perder a comunhão com Deus, por isso rezamos, e não Deus que, como o mau juiz, não quer nos atender.

Bom, rezar a missa suplicando pela conversão do diabo, se não é um absurdo, é pelo menos um equívoco teológico, pra não dizer uma insensatez. Que o povo – que não estudou teologia – ponha essa intenção é até compreensível, apesar de hilário, mas que o presidente da celebração aceite rezar nessa intenção é um absurdo. Parece que é hora de ajudar nossa gente a entender melhor as questões teológicas. Com caridade pastoral, paciência e uma dose de argumentação teológica, dá para corrigir muitas estranhezas da piedade popular. Fica aí a dica!

Solange Maria do Carmo
Colaborou: Fique Firme

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