Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem! | Reflexão sob a inspiração de Jr 2,1-13 e Mt 13,10-17

Por Hermes Fernandes

Nesta Quinta-feira da 16ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos oferece dois belíssimos textos da Bíblia. A Primeira Leitura nos traz mais um poema do Livro do Profeta Jeremias (Jr 2,1-3.7-8.12-13) e no Evangelho, Jesus nos explica o porquê de ensinar em parábolas (Mt 13,10-17). Vamos ver o que cada uma dessas perícopes bíblicas nos apresenta, como se inter-relacionam e qual a aplicação delas para nossa vida?

A leitura do profeta Jeremias nos apresenta um discurso do Profeta em forma de oráculo. Esta forma de poema se caracteriza quando o profeta fala em nome de Deus. Na Idade Antiga, oráculo era a forma com que a divindade se comunicava com a humanidade. Este estilo de comunicação traz uma linguagem codificada, diferente do discurso prosaico simples. Por isso, além do véu de mistério presente nos oráculos, não é difícil perceber que as palavras quase que brincam com nossa inteligência. Neste sentido, o oráculo não é uma linguagem direta. É codificada, rica de imagens, como que se fosse um código sagrado a ser decodificado.

O Profeta Jeremias nos apresenta uma queixa de Javé. Ele compara Israel à uma donzela, uma noiva que ansiava por seu amado. Contraditoriamente, quando esse amado, isto é: o próprio Deus, se apresenta com seus mimos e afagos, esta noiva lhe age com desfeita. Podemos perceber isso quando o profeta diz: “Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém. Isto diz o Senhor: Lembro-me de ti, da afeição da jovem, do amor da noiva, de quando me seguias no deserto, numa terra inculta” (2,2). E depois: “‘Israel, consagrado ao Senhor, era como as primícias de sua colheita; todos os que dele comiam, pecavam; males caíam sobre eles’, diz o Senhor” (2,3). Mais à frente: “Eu vos introduzi numa terra de pomares, para que gozásseis de seus melhores produtos, mas, apenas chegados, contaminastes o país e tornastes abominável minha herança. Os sacerdotes nem perguntaram onde está o Senhor. Os versados na Lei não me reconheceram, e os chefes do povo voltaram-me as costas, os profetas profetizaram em nome de Baal e correram atrás de coisas que para nada servem” (2,7-11). Aqui ficam claras as juras de amor de Javé por seu povo e a traição desta que seria sua noiva, Israel. Podemos perceber as imagens, as metáforas, presentes no texto de Jeremias. Também fica clara a forma com que o Profeta empresta sua voz à Palavra de Deus.

A conclusão desta queixa, esse lamento de Javé, é a constatação de que seu povo, mesmo tendo à mão todas as delícias, preferiu o sofrimento. Buscando fora dele sua força, seu alento, sua graça. “Dois pecados cometeu meu povo: abandonou-me a mim, fonte de água viva, e preferiu cavar cisternas, cisternas defeituosas que não podem reter água” (2,13). Sabemos que essa busca por cisternas defeituosas tem relação com os pactos realizados com os egípcios e outros povos para o enfrentamento da Babilônia que ameaçava a liberdade naquele tempo, século 7º aEC. O Povo de Deus deixa de buscar força em seu Senhor, que já provara antes ser agente de Libertação (cf. Ex 3,7-14), para confiar em nações estrangeiras e seus deuses.

Em nossas comunidades, não são raros os nossos irmãos e irmãs que preferem cisternas disformes, defeituosas; como caminho de seguimento de Jesus. Teologias confusas, devoções ultrapassadas, falsos messias. Muitas cisternas a oferecer água podre à sede que temos do Reino de Deus. Essas não são nascentes de Javé. Não advém do Evangelho. São ervas que envenenam o pão cotidiano de nossas comunidades. Jeremias adverte que não podemos deixar nosso pão diário da vida cristã, alimento, comunhão e partilha; por outros alimentos estranhos ao Evangelho.

Na perícope evangélica de hoje, continuamos a série de parábolas contadas por Jesus em Mateus. Em Mt 13,10-17, os discípulos perguntam a Jesus por que ele ensina por parábolas. As metáforas e analogias próprias e esta pedagogia usada por Jesus, assim como nos oráculos de Jeremias, refletem um discurso indireto. Como que codificado.

Desde os primeiros momentos do exercício de seu ministério na Galileia, Jesus gozava da credibilidade de uns, e da oposição – as vezes ferrenha – de outros. Para compreender o discurso em parábolas era preciso sensibilidade. Predisposição em receber a mensagem. As parábolas são como que um mapa do tesouro. Aos que sabem do que se trata, todos os símbolos, códigos, traços; são compreensíveis. Aquele que procura o tesouro da mensagem de Jesus, está em sintonia com ele e, por isso, compreende a nuance de suas palavras. Mesmo sendo as parábolas de linguagem simples, pedagogia apropriada ao cotidiano dos pequenos e humildes, eram ininteligíveis aos corações áridos pela arrogância e resistência ao projeto do Reino de Deus. Assim, Jesus responde aos seus ouvintes:  “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem. É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem” (Mt 13,11-13). É nesse sentido que Jesus confirma o que ensinou na Parábola do Semeador (Mt 13,1-9), presente na Liturgia de ontem. A mensagem dele, mesmo que em forma de parábolas, quando chega aos corações dóceis, são como que sementes que caem em terra boa. Produz frutos.

Em nossa caminhada cristã, devemos estar atentos aos dois ensinamentos que a Liturgia da Palavra nos apresenta hoje. É preciso decodificar a mensagem de Deus. Seu projeto de libertação nos chega ao coração e produz frutos quando estamos em sintonia com ele. Quando não estamos a buscar a água podre do anti-evangelho e seus discursos de morte, pedagogias de poder, sistemas opressores. Para compreender a voz de Deus, presente nas profecias e nos ensinamentos do Mestre galileu, é preciso ter um coração de pobre. Ter os olhos fixos na esperança que vem ao nosso encontro pelo coração amoroso de Javé, e pelo sacrifício Pascal de seu Filho. Ser Igreja é ser comunidade Pascal. Que anuncia a alegria e a esperança, não morte e submissão. Somos cidadãos do Reino, em Cristo Jesus. A nós foi dirigida a Palavra de Jesus no Evangelho de hoje: “Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram” (Mt 13,16-17).

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