Cântico dos Cânticos: hino ao amor e protesto sutil contra a intransigência

Por Solange Maria do Carmo

O livro do Cântico dos Cânticos sempre causou atração e aversão, admiração e espanto. Almas muito pudicas nunca entenderam como a Igreja colocou escrito tão erótico em sua lista de livros sagrados. Era preciso espiritualizar sua mensagem e sublimar seu amor carnal, dando-lhe contornos divinos, vendo os relatos como metáfora do amor de Deus, o esposo, pela Igreja, sua esposa. O amor entre uma jovenzinha assanhada e um jovem mancebo cheio de desejos não podia ser coisa de Deus, tão aprisionado estava o amor nos muros do moralismo e o desejo entre homem e mulher fechado nos espaços privados do sacramento do matrimônio. Foi difícil para muitos vencer seus próprios pudores e ler o livro dos Cânticos tal como ele realmente é: um hino ao amor entre os casais e um protesto contra as arbitrariedades que a xenofobia (aversão ao estrangeiro) de Esdras e Neemias impunha ao povo com sua reforma religiosa por volta do século V aC.

Tudo começou quando, retornando do exílio, o povo buscava explicações para seus infortúnios e desgraças que tiveram como ápice sua estadia sofrida na Babilônia (597 aC). Alguma coisa eles tinham feito para merecer tal castigo. “Onde será que eles erraram?”, perguntavam-se, como se os sofrimentos da vida pudessem ser explicados, como se eles tivessem alguma lógica ou fossem fruto de algum merecimento. Então concluíram que, ao longo de suas vidas, tinham descumprido a Torá, sua lei máxima. Era urgente retornar à fidelidade e cumprir letra por letra o que ela determinava, como se Deus e seu espírito se encerrassem em normas e proibições. No desejo de voltar a ser só de Deus, deveriam então repudiar tudo que cheirasse a politeísmo, inclusive os casamentos mistos entre gentios e judeus. Ficou determinado que cada pessoa instalada em Jerusalém deveria fazer sua árvore genealógica e provar sua descendência direta de uma das doze tribos de Israel. Tarefa difícil, se não impossível. Não foi preciso ir muito longe: foi só chegar em Davi, três gerações acima, para descobrir que até o maior rei de Israel tinha sangue gentílico nas veias: sua bisavó, Rute, era moabita. Ora, se o grande rei Davi tinha sua pureza judaica questionada, o que dizer dos outros pobres mortais? O livro de Rute – da mesma época do Cântico dos Cânticos (que também se configura como literatura de resistência), fazia desta forma, no gênero novela, seu protesto contra os abusos da reforma religiosa imposta por Edras e Neemias.

Um escritor desconhecido encontrou outro caminho para protestar. Reuniu diversos poemas de amor ou canções populares, provavelmente cantadas em celebrações de contratos de matrimônio, e fez um belo pout pourri, uma junção de músicas com tema comum e musicalidade parecida, formando o livro dos Cânticos dos Cânticos. Com isso, achou caminho para dizer não aos abusos da reforma religiosa que, em nome da religião, separava casais já estabelecidos no amor só porque marido e mulher não eram igualmente judeus. O texto de Esdras e Neemias, que relata a reforma, é cruel. As uns agarraram pelas barras, a outros pelos cabelos, mas não era possível admitir tal união. O amor entre o casal não contava: apenas as regras frias e sem rosto de uma religião equivocada em sua explicação teológica sobre o sofrimento e as pelejas da vida. Foi assim que o Cântico dos Cânticos nasceu: como um grito de protesto: “antes da religião o amor que é sua razão de ser; antes das regras divinas a vida humana que é foco do olhar de Deus!” Foi preciso tempo para a Igreja, com a ajuda dos estudos bíblicos, ler o Cântico dos Cânticos tal como ele realmente é: um hino ao amor entre os casais – amor erótico, romântico, cheio de desejos e paixões. E, aí, ficou até mais fácil fazer a leitura simbólica a ele atribuída pelos rabinos do judaísmo, desde tempos mais remotos. No amor humano, aparece estampado o amor de Deus. Deus não faz regras obtusas e absurdas para que os humanos as cumpram. Ao contrário, entrando na história humana, inclusive no nosso jeito de amar, ele se revela e se diz amor, acima de toda religião. Na nossa capacidade de amar, fica visível o amor de Deus por cada um de nós, incentivando-nos sempre a toda forma de amor, inclusive ao amor real, que não dispensa nem o romance nem o erotismo, mas abomina toda pornografia e vulgaridade.


A Autora

Solange Maria do Carmo é teóloga-leiga. Sua trajetória pastoral tem início nos anos 80, quando engajou-se em movimentos de juventude e, logo em seguida, descobriu a força da Palavra de Deus com grupos de reflexão bíblica na Universidade Federal de Viçosa, onde cursou engenharia agrícola. Durante dezesseis anos, ela serviu a Igreja como missionária leiga, engajada numa comunidade de vida que prestava serviços de evangelização e catequese nas dioceses onde morou (Mariana – 10 anos – e Paracatu – 6 anos). Sua trajetória catequética remonta o ano de 1991, quando juntamente com o Pe. Orione (diocese de Mariana), empreendeu um projeto de evangelização na cidade de Viçosa, na Paróquia Santa Rita de Cássia, onde residiam. Nasceu desta parceria um sonho de evangelizar crianças e adultos, proporcionando a todos a experiência cristã de Deus, por meio de encontros catequéticos semanais dos mais diversos tipos.

Colaborou: Fique Firme

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