O livro de Rute. Nada de preconceitos: todo mundo tem a janela de vidro!

Por Solange Maria do Carmo

O livro de Rute é uma dessas fantásticas novelas presentes na bíblia. Uma história doce e singela como costumam ser aquelas novelas do horário das seis, que podem ser assistidas por todos: nada de muita espionagem ou suspense aterrorizante, nada de sangue escorrendo ou cabeças rolando; nada de intrigas desgastantes ou de teorias da conspiração! O autor do livro escolheu um estilo popular de relato: um cenário bem montado, personagens bem construídos, diálogos inteligentes e mais: um pouco de romance, um tiquinho de perspicácia e sagacidade, um tanto de amor e amizade e pronto! Não foi preciso escolher um grande tema, nem fazer uso de muitos efeitos especiais para transmitir a fé por meio de seu relato. Com facilidade, o autor construiu um midraxe, lembrando o valor do amor e da fidelidade, que não são exclusividade de alguns, mas virtudes que podem estar presentes em todos os povos. Trata-se de uma novela e não de um fato real, muito bem construído, na qual até o nome dos personagens já indicam o papel de cada um na trama que será desenvolvida.

O livro foi escrito mais ou menos no ano 400 aC com a intenção de criticar a reforma religiosa de Esdras e Neemias, um pouco anterior. Estes dois líderes do povo de Deus, na tentativa de voltar à fidelidade perdida, pesaram a mão nas exigências em relação aos estrangeiros e proibiram definitivamente o casamento entre judeus e gentios. Não importava o amor, nem as boas intenções, nem a família já constituída, nem as práticas piedosas. Para permanecer na fidelidade, era preciso ser judeu sem mistura com os gentios – entendidos como aqueles que desvirtuavam o povo judeu do caminho do monoteísmo. A partir daí foi uma corrida só: cada um deveria fazer sua árvore genealógica e provar que era um judeu verdadeiro, descendente de uma das doze tribos do pai Israel, sem miscigenação. Doce ilusão! O autor do livro de Rute entendeu logo que a proposta era inviável. Depois de ter passado por sucessivos domínios estrangeiros, exílios, diásporas, quem ainda se conservaria puro no sentido de não ter em sua ascendência um sanguezinho dos gentios? Nasce então o livro de Rute, um romance maravilhoso entre Booz (que significa forte) e Rute (que quer dizer fidelidade ou amizade fiel).

Vejamos como tudo começa! Noemi (que quer dizer doçura) era casada com Elimelec (que quer dizer Deus é rei). Tudo era doce e bom. Eles tiveram dois filhos: Maalon (moléstia ou doença) e Quelion (fraqueza ou aquilo que quebra à toa). Com sua família foram para as terras de Moab, por causa dos tempos difíceis em Belém de Judá (terra de Davi). Mesmo quando a Doçura se une ao Deus é rei, os problemas estão presentes e os filhos podem ser frágeis, coisa própria da natureza humana. Maalon e Quelion se casaram: um com Rute, outro com Orfa (que quer dizer costas). Morreu Elimelec. Depois, como era de se esperar, faleceram também os dois frágeis filhos. Ficaram Noemi (que tomou o nome de Mara – quer dizer amarga), Rute e Orfa sozinhas, desamparadas. Num tempo em que a cultura patriarcal prevalecia e a mulher não tinha direito a muitas garantias como pensão, herança etc o futuro não parecia promissor para elas. Sabendo que, nas suas antigas terras, a situação estava mais favorável, Noemi resolveu voltar, e suas noras decidiram acompanhá-la. Mas a sogra não quer ser um peso morto para as duas jovens e insiste que não a acompanhem. Orfa (como o nome já indicava) deu as costas e partiu. Rute, amizade fiel, agarrou-se à sogra chorando e jurando-lhe amor eterno, inclusive prometeu amor e fidelidade ao seu Deus. Assim partiram as duas para a terra natal de Noemi.

Chegando em Belém de Judá começou a peleja. Noemi estava velha e suas terras foram hipotecadas por ocasião da viagem para Moab. Mas ela tinha direito de resgatá-las por meio de um parente. Para isso, o tal parente deveria desposar a dona das terras, cumprindo de uma só vez a lei que garantia direito a resgate e o levirato[1]. Noemi, já velha, sugere que Rute procure um parente que esteja disposto a essa função. Mas, sendo moabita, tudo se complicava. Quem iria se dispor a casar com uma estrangeira? Aí é que entra Booz, o forte. Vai enfrentar todo preconceito e desposar a moabita Rute. Uma bela história de amor e de perspicácia. Tendo desposado Rute e resgatado as terras da família de Noemi, o casal foi feliz para sempre? Não só isso! É preciso ainda chegar ao ponto principal, peripécia que o autor do livro realiza por meio de uma singela genealogia: Farés gerou Hesron, que gerou Aram, que gerou Aminadab, que gerou Naason, que gerou Salmon, que gerou Booz. Booz, de Rute – a moabita –, gerou Obed, que gerou Jessé, que gerou Davi, o grande rei de Israel. Logo, Rute, a moabita, é bisavó de Davi. Ora, se nem Davi – o grande rei, amado por Deus e por todos – escapou da miscigenação dos povos, por que Esdras e Neemias haveriam de exigir isso do povo? É melhor não jogar pedra na vidraça dos outros, avisa o autor do Livro de Rute: todo mundo tem a janela de vidro. Por meio de uma história singela e romântica, o inteligente escritor fez resistência às descabidas exigências dos reformadores. Na vida, avisa ele, o que vale é o amor, e a fidelidade não é exclusividade dos judeus. Tem gente boa e fiel em toda parte, independente da raça ou da nação ou ainda da religião professada. Uma bela lição de tolerância e coragem que nos convida ao diálogo e ao acolhimento do outro, sem preconceitos.

Nota

[1] Lei que dava garantia à viúva sem filhos de gerar uma descendência por meio do parente mais próximo, quase sempre o irmão do falecido. Assim, a viúva tinha a garantia de não ficar na miséria, pois a herança de seu marido era dada ao seu filho, que tinha a obrigação de honrar sua mãe e cuidar dela até o fim de sua vida, conforme manda a Lei.

A Autora

Solange Maria do Carmo é teóloga-leiga. Sua trajetória pastoral tem início nos anos 80, quando engajou-se em movimentos de juventude e, logo em seguida, descobriu a força da Palavra de Deus com grupos de reflexão bíblica na Universidade Federal de Viçosa, onde cursou engenharia agrícola. Durante dezesseis anos, ela serviu a Igreja como missionária leiga, engajada numa comunidade de vida que prestava serviços de evangelização e catequese nas dioceses onde morou (Mariana – 10 anos – e Paracatu – 6 anos). Sua trajetória catequética remonta o ano de 1991, quando juntamente com o Pe. Orione (diocese de Mariana), empreendeu um projeto de evangelização na cidade de Viçosa, na Paróquia Santa Rita de Cássia, onde residiam. Nasceu desta parceria um sonho de evangelizar crianças e adultos, proporcionando a todos a experiência cristã de Deus, por meio de encontros catequéticos semanais dos mais diversos tipos.

Colaborou: Fique Firme

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