Mortificar o corpo ou atentar contra o Templo do Espírito Santo?

“Não sabeis que vosso corpo é o santuário daquele que habita em vós, o Espírito Santo que recebeste de Deus e que não pertence a vós mesmos? (1Cor 6,19)

Por Hermes Fernandes

Inspirados pelo texto paulino acima citado, gostaríamos de propor uma reflexão, quiçá uma catequese, sobre os muitos movimentos presentes na atualidade da Igreja. Nos últimos anos, têm pululado no Brasil, e fora dele, movimentos religiosos – de vida religiosa consagrada, ou não – que propõem o resgate de espiritualidades que não mais correspondem à práxis, ou mesmo, ao discernimento da Igreja. De referencialidade medieval, não são poucos os grupos que propõem devoções ou práticas de ascese já superadas. A reflexão teológica, ao longo dos anos, reconstruiu muitas imagens da inter-relação do homem e da mulher com Deus. Na Idade Média, a Teologia do Medo ensinava que o homem era indigno do amor divino. Por isso, o homem e a mulher deveria mortificar-se, como que em processo purgatório em vida, para fazer-se aceitável aos olhos do Senhor. Ledo engano!

Segundo essa mentalidade, a criatura humana, sob a mancha original, era indigna de Deus. Mesmo que seu Filho, o Verbo encarnado, tenha resgatado a dignidade humana, elevando-a à condição de filhos e filhas do Pai. Por não compreender a economia da salvação e a intervenção soterológica de Jesus, muitos dos pregadores, até mesmo teólogos do passado, exortavam ao Povo de Deus que sacrificasse seus corpos por jejuns excessivos, cilícios, auto flagelação por açoites, entre outras práticas de mortificação.

Com o passar do tempo, sob uso de discernimento, o Magistério da Igreja aprofundou o conceito de Graça, com olhar atento à Palavra de Deus, entendendo que o homem e a mulher eram preciosos aos olhos do Pai. Por isso, não fazia mais sentido entender a salvação humana pelo prisma da Teologia do Medo, mas pela dinâmica da misericórdia. O Evangelho mesmo nos adverte quando Mateus põe na boca de Jesus as palavras antes ditas pelo profeta Oseias (Os 6,6): “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 9,13). E mesmo com esse abrir de olhos e do coração proposto pelo Messias, ainda hoje há quem entenda que o homem e a mulher deve viver subjugado pela indignidade.

Ainda no Evangelho, quando um mestre da Lei perguntou o que era preciso fazer para ser salvo, Jesus não prescreveu sacrifícios, mortificações ou devoções. Contou uma parábola (Lc 10,25-37). O Bom Samaritano torna-se norte da vida cristã, colocando atos concretos de misericórdia como caminho seguro para se agradar a Deus e se viver segundo as propostas do Reino.

É possível ter contato com alguns testemunhos de egressos destes movimentos religiosos. Um jovem de 24 anos, hoje estudante de Direito, entrou em uma fraternidade de vida quando ao completar 18 anos. Lá o formador (desinformado) instruía que o candidato à vida religiosa consagrada deveria fazer diariamente duas horas de adoração ao Santíssimo Sacramento intercaladas, obrigatoriamente ajoelhado e, ainda, mais uma hora em comunidade. Ao todo, três horas ajoelhado. Não é preciso ser profissional da área da saúde para perceber que essa postura é nociva. Resultado: segundo este ex membro, considerável número dos consagrados desse instituto teve problemas de saúde. Chegando à intervenções cirúrgicas em seus joelhos. Quando questionados sobre essa comprovada ameaça à saúde, os líderes da instituição diziam: “é graça! É morrer pelo Cristo, é almejar o céu! Ou santos, ou nada!” Este conceito de martírio incruento é equivocado.

Primeiramente, mesmo os mártires que deram suas vidas pelo Reino de Deus, não o fizeram pelo desejo de morrer. Situações e contextos resultaram na morte por assassinato. Consequência do anúncio do Evangelho. Não o desejo insano de morrer. Se morriam, era porque a intolerância à mensagem de Jesus, à proposta de novas realidades concomitantes ao Reino de Deus; confrontavam planos de poder anexos até mesmo à religião. Assim foi com Jesus, não diferente com os discípulos e discípulas dele martirizados. Sobre destruir voluntariamente seus corpos, no desejo purgatório de se tornar digno do amor divino, só podemos atribuir ao erro teológico no passado e insanidade no presente.

Voltando à Palavra de Deus, podemos discorrer efusivamente sobre as muitas citações do Segundo Testamento, nas quais, a Nova Aliança reconstrói as relações entre homens e Deus e deles com seus semelhantes. O Deus castigador foi deslegitimado por Jesus, que nos apresentou a imagem de seu Ábba, Paizinho. Esse Deus-amor, não nos quer sofrendo. Nem mesmo voluntariamente. Para entender isso, basta um leitura atenta aos evangelhos e textos do Magistério.

O martírio incruento resgatado por esses “novos santos” está longe de ser concomitante com a Igreja de Jesus. Onde o amor é a maior forma de se viver a pertença à família cristã. Nada adianta passar horas ajoelhados diante do Sagrado, sem ser testemunha viva e transformadora no mundo. Sem contar os instrumentos de mortificação, de auto-tortura. Estes são, em verdade, pecado. Não nos esqueçamos que nosso corpo, conforme nos diz São Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios, é Templo do Senhor. Esses atos de mortificação maculam o Santuário.

A maior forma de viver o discipulado é ser instrumento do amor de Jesus em meio aos que dele mais precisam. Viver a dinâmica da misericórdia, mesmo que – para isso – precisemos de algum sacrifício. Não sacrifícios de flagelação ao corpo, mas ao nosso egoísmo, centralismo, usura, ganância, individualismo. Estes sentimentos, sim, devem ser expurgados. É preciso que o amor vença em nós, para que as portas do coração divino estejam sempre abertas. É pela misericórdia que construímos o homem e a mulher de Deus, não por corpos machucados.

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