Chamados a profetizar e semear as sementes do Reino | Reflexão sob a inspiração de Jr 1,1-10 e Mt 13,1-9

Por Hermes Fernandes

Estamos na 16ª Semana do Tempo Comum. Nesta quarta feira, a Liturgia nos apresenta duas leituras bíblicas muito apreciadas por todos nós. A Primeira Leitura nos lembra a vocação do Profeta Jeremias, Jr 1,1.4-10. O Evangelho nos apresenta a primeira da longa série parábolas em Mateus. Mt 13,1-9 nos oferece a Parábola do Semeador. Podemos estabelecer uma relação entre estes dois textos? Vejamos!

Os primeiros versículos do capítulo inicial de Jeremias nos apresentam as origens de Jeremias e o diálogo vocacional dele com Javé. Sobre a época do ministério de Jeremias, temos ótimas informações que nos são apresentadas pelo Livro dos Reis e das Crônicas. Além disso, temos os documentos extra bíblicos e informações do próprio livro do profeta.

Jeremias é o profeta-sacerdote de Anatot, que começou a atuar em 677 aEC. Sua morte pode ser datada no início do Exílio da Babilônia por volta de 585 aEC. Era da linhagem de Abiatar, sacerdote de Davi, do qual temos referências em 1Rs 1,33-34.

Quanto ao cerne das profecias de Jeremias, podemos sublinhar que este se opôs veementemente aos pactos políticos que os sucessores de Josias concluíam com os egípcios para enfrentar a Babilônia. Esta, a Babilônia, na época de Jeremias, se tornava uma potência emergente no Oriente Médio pelo fim do Século 7º aEC. O que resultará no dramático episódio do exílio semita – o qual – conhecemos bem.

Diante desse contexto, Javé chama seu servo Jeremias para anunciar sua vontade. “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações” (Jr 1,5). E ainda:  “Eis que ponho minhas palavras em tua boca. Eu te constituí hoje sobre povos e reinos com poder para extirpar e destruir, devastar e derrubar, construir e plantar” (Jr 1,9b-10).

Jeremias nos testemunha, por sua vocação, que – por mais que possamos parecer inaptos – é Javé que nos chama e, nele, temos força. “‘Não tenhas medo deles, pois estou contigo para defender-te’, diz o Senhor” (Jr 1,8).

No Evangelho, pela Parábola do Semeador, temos incrustrada no discurso de Jesus a advertência de que o anúncio da Boa Nova pode ser cheio de dificuldades. O Semeador, somos todos nós, chamados ao anúncio do Reino de Deus (cf. Mt 28,18-20). As várias dificuldades enfrentadas pela semente para germinar, são os desafios que o discipulado de Jesus nos apresenta. Algumas sementes se queimam e ficam estéreis. Outras são sufocadas. Porém, há aquelas que caem em terra boa. Estas germinam, gerando frutos (13,8).

Por esta analogia tão próxima ao cotidiano de seu povo, Jesus inaugura uma nova forma de magistério. O Templo, com seus mestres da Lei e com os Fariseus, tratava o povo como ignorante. A sabedoria rabínica colocava a condição de discípulo, tal qual a de um subalterno. A pedagogia de Jesus inaugura um novo paradigma. “Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia. Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia.” (Mt 13,1-2). Só nestes dois versículos percebemos a novidade do Mestre Galileu. A mensagem é anunciada junto ao povo, não exclusivamente nas sinagogas. Sabemos que a Galileia era formada, sobretudo, de pescadores – pessoas que viviam do chamado Mar da Galileia. A metáfora usada por Jesus, semeador e semente, também reflete essa novidade. Usa de valores do cotidiano. Sabemos que a agricultura também era uma ocupação comum para aquele povo obter seu sustento.

Inspirados pelas leituras da Liturgia de hoje, podemos inferir uma mensagem de confiança e sentirmo-nos – tal qual o profeta Jeremias e os discípulos e discípulas de Jesus – chamados ao anúncio da Boa Nova. Como dissemos antes, o semeador somos todos nós. Também somos, assemelhando-nos a Jeremias, chamados a anunciar um novo tempo, consoante com a vontade de nosso Deus. Neste sentido, devemos ter a coragem com a qual Javé inspira Jeremias e a perseverança do semeador que, mesmo sabendo das muitas dificuldades da semeadura, insiste até encontrar terra boa. A semente é o Reino de Deus. Justiça, Paz e Alegria; construídas através do amor que forma comunidades solidárias e fraternas. Que venha o teu Reino até nós, Senhor! Amém!

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