Deus manterá Sua Fidelidade e terá Compaixão | Reflexão sobre Mq 7,14-20 e Mt 12,46-50

Por Hermes Fernandes

Nesta Terça Feira da 16ª Semana do Tempo Comum, temos na Liturgia da Palavra o mesmo texto evangélico que foi proposto no Sábado passado, quando da celebração de Nossa Senhora do Carmo.

Por isso, gostaríamos de dar uma passadinha de olhos na Primeira Leitura de hoje, a saber: Mq 7,14-15.18-20. Antes, vamos conhecer um pouco mais do Profeta Miqueias?

Miqueias, ou Miká, era originário de Morasti-Gat, em Judá, a sudoeste de Jerusalém, na fronteira dos filisteus. Ele conheceu tanto as incursões dos assírios, quanto os problemas do campo. Seus oráculos são do tempo dos reis Acaz e Ezequias de Judá. Segundo Jr 26,18, Miqueias atuou no tempo do rei Ezequias. Naquele tempo, ainda existia a Samaria, destruída pelos assírios em 722 aEC. Por isso, sua atividade pode ser datada como contemporânea a do Primeiro Isaías, 740-700 aEC.

Um dos oráculos mais marcantes de Miqueias é o que profetiza a vinda do Messias. No capítulo 5, Miqueias diz que Belém irá receber o Salvador. Não podemos nos esquecer que ele também profetiza o tempo do Direito e da Justiça, em consonância com Amós e Isaías, além de outros profetas de nossa estima. No texto da Liturgia de hoje, ele nos mostra uma imagem de Deus que será bem uníssona às palavras posteriores de Jesus. Miqueias nos afirma categoricamente: Javé é misericórdia!

Lembrando o Evangelho, Mateus 12,46-50, podemos enumerar possíveis paralelos deste texto em Mc 3,31-35 e Lc 8,18-21. Na sequência lógica da narrativa de Mateus, esse episódio parece fora de contexto. Pode nos sugerir que seja um acréscimo, para que não se perca o tema, uma vez que, logo após esse relato, inicia-se a longa série de parábolas em Mateus. A rigor, esta perícope é mais oportuna como anexo ao capítulo 10, que se refere ao discipulado. O fato de Jesus afirmar que sua mãe, irmãos e irmãs seriam todos aqueles que ouvem sua mensagem e a põem em prática, é de grande importância. Tanto o é que este episódio também é apresentado pelos outros dois sinóticos, conforme enumeramos acima. O cerne da mensagem desse fragmento de Mateus é um paralelo que o Mestre faz com sua família, enquanto referencial genético, e a nova família, enquanto filhos e filhas de Deus. A comunidade de discípulos e discípulas que se reúne ao redor de Jesus fará parte da referencialidade humana e messiânica. Tanto o é que estes que agora se juntam a ele, tornam-se igualmente fundamentais à sua história, tal qual sua família, isto é: sua Santíssima Mãe, São José, seu protetor; seus primos, primas, tios, tias. A comunidade de Jesus fará parte da história do anúncio e da construção do Reino de Deus. A Família de Nazaré e a Família Cristã se tornarão uma só. Igreja, povo de Deus!

Neste sentido, vale sublinhar que o evangelista não pretende mostrar, nem criar oposição ou rivalidade entre os familiares de Jesus e a comunidade dos discípulos. Ele quer apenas ajudar sua comunidade a compreender que, aceitar a proposta de vida de Jesus, implica assumir uma maneira diferente de viver, com novos critérios de pertença e relação. É isso que fica claro com a resposta de Jesus: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,49b-50). Com essa afirmação, ao invés de menosprezar seus familiares, ele está dando a oportunidade de também eles entrarem na dinâmica do Reino de Deus. E, ao mesmo tempo, afirma que qualquer pessoa, independente da origem, pode fazer parte da sua família.

Para fazer parte da comunidade de Jesus, o único critério e exigência é tornar-se discípulo ou discípula. Para isso, é necessário ouvir a sua palavra e fazer a vontade de Deus. Se trata de uma regra sem exceção. A adesão ao Reino exige uma conversão completa, ou seja, mudança de mentalidade, inclusive na concepção de família. O seguimento a Jesus não comporta meios termos. Seu projeto de vida exige tomada de decisão.

Somando as duas leituras da Liturgia de hoje, podemos trazer para nossa vida duas palavras: Misericórdia e Compromisso. Miqueias nos apresenta Javé Misericordioso. Jesus afirma que, ao nos comprometemos com o Projeto do Reino, fazemos parte de sua família. Neste sentido, que possamos entender que o nome de Deus é Misericórdia e, consequentemente, seremos agentes dessa misericórdia na vida de nossos irmãos e irmãs, comprometendo-nos com a dinâmica do Reino por uma sociedade mais justa e humana, na expectativa do Reino Definitivo. Afinal, somos todos família de Jesus.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: