Debaixo da mesa, na lata de lixo

Por Tânia da Silva Mayer*

Uma mulher siro-fenícia ensinou a Jesus a universalidade da sua missão (cf. Mc 7,24-30). Bem recordamos daquele diálogo que fez toda diferença na história da salvação. O Mestre foi ensinado sobre os exclusivismos que deixam os pequenos de fora da roda que promove a vida plena e abundante. A arrogância messiânica de Jesus – apenas para as ovelhas da casa de Israel! -, é combatida por uma mulher.

O Reino de Deus, ainda que em migalhas, é destinado também a quem está à margem, como aos cachorros que comem as sobras das mesas de seus donos. A imagem evangélica é desconcertante, justamente porque suplanta qualquer tentação de excluir qualquer pessoa que seja do que se manifestará no Reino. O que nessa cena se expressa, veremos mais detalhadamente noutros relatos que revelam o lugar preferencial dos pobres e excluídos na vida nova que parte de Deus e que é, sem dúvidas, digna, plena e abundante.

Nenhum governo ou sistema político pode ser equiparado ao que se manifestará do Reino de Deus aos seus filhos e filhas, que já foi inaugurado na práxis profética de Jesus. Essa realidade sinaliza, por outro lado, a necessidade de não nos distanciarmos demais nesse nosso tempo do futuro do Reino preparado para nós. Isso significa quão importante é insistir na força da vida e lutar para que ela não seja subtraída ou vivida sem o gozo da dignidade inalienável que possui. Por isso mesmo, os cristãos e cristãs são chamados a todo o tempo a semear e a deixar crescer nas realidades mais infrutíferas as sementes do Reino, a fim de que nenhuma pessoa pereça vítima de injustiças.

Nesse sentido, a atenção aos sinais dos tempos mostra o quão distantes estamos do devido cuidado e proteção da vida neste contexto de época. Está claro que vivemos um tempo muito duro, de negacionismos e fundamentalismos, de subtração de direitos fundamentais da pessoa, que asseguram a vida humana. Um desses direitos se refere à alimentação. Se há dez anos pudemos conviver com o aumento das migalhas que caíam das mesas dos donos – do capital -, em decorrência de uma política de renda fixa e de distribuição de renda, hoje não é a realidade que presenciamos. A fome é hoje, sem dúvidas, não apenas um fantasma que assola milhares de lares brasileiros, condenando à subnutrição os pequenos do povo. A fome é uma realidade diabólica e demoníaca, promovida, não por \”seres\” imaginários, mas por uma política econômica necrófilonazista praticada sem escrúpulos pelo atual governo.

Diante dos fatos e das cenas de mulheres e homens revirando latas de lixo para conseguirem se alimentar como os cães é urgente a solidariedade, praticada como uma resposta à caridade. Mas é imprescindível que os cristãos e cristãs se posicionem na fileira ao lado de quem denuncia e combate as forças da morte, que se apossaram da pandemia e das instituições governamentais para alavancar um plano de extermínio dos pobres e minorias. Nesse sentido, cada um deve examinar a consciência e se perguntar: qual a minha contribuição na subtração das migalhas de vida abundante e plena dos pequeninos em nossa sociedade? Como estou disposto a atuar aqui e agora para reverter a condenação de tantas vidas às latas de lixo e à morte pela fome?

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduada em Letras pela UFMG.
Colaborou: Fique Firme

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