O Signo, o Sinal de Jonas | Reflexão sobre Mt 12,38-42

Por Hermes Fernandes

Estamos na 16ª Semana do Tempo Comum. Nesta Segunda Feira, a Liturgia nos oferece o Evangelho de Mateus 12,38-42. Sinoticamente, também encontramos os paralelos em Mc 8,11s e Lc 11,29-32. O sinal de Jonas, o Signo, nos é apresentado de forma ilustrativa pelo livro de Thomas Merton, de mesmo nome. A vida cristã pode e deve ser cercada de sinais. Em seu livro, Merton fala da constante busca da sociedade por sinais. Em contrapartida, testemunha sua forma de vida, ao estilo mais ascético dos Trapistas, como sinal do cotidiano e do Mistério. Enquanto muitos precisam de apoteoses de fé, para uma efetiva experiência de Deus, Thomas Merton nos ensina que o cotidiano é o sinal absoluto do Mistério. Muitas vezes, o que vemos na sociedade e nas Igrejas é uma busca pelo Deus-poder. Deus dos espetáculos. Enquanto Jesus nos apresenta seu Pai. O amor silencioso, que a tudo transforma. É nessa linha de pensamento que convidamos o leitor a refletir sobre o Evangelho de hoje.

Os Mestres da Lei e Fariseus pedem a Jesus um sinal (v. 38). Por que não tinham fé? Por que precisavam corroborar suas dúvidas, ou certezas? Não. Trata-se de uma afronta. Um confronto. Sabemos que os Mestres e os Fariseus estavam revestidos da autoridade do Templo. O que solicitam de Jesus é uma prova que legitime seu magistério. O que foi dito a Jesus pode ser reproduzido de forma mais popular, como ouvimos a muitos dizer: “quem você pensa que é?” Entendamos: o que estava em jogo não eram motivos de crer ou não, e sim, luta pelo poder. Os Fariseus e Mestres da Lei não querem motivos para acreditar em Jesus e, sim, buscam uma forma de desacreditá-lo. Pedem um prodígio. Um milagre, como sinal de sua messianidade.

Bem o sabemos que Jesus não era um exibicionista. Seus sinais e milagres eram uma forma de reintegrar os excluídos, os pobres. Também gostaríamos de lembrar ao leitor que a teologia do Templo marginalizava os doentes, afirmando que as doenças e deficiências físicas eram uma forma de castigo pelos pecados. Por isso Jesus curava os doentes. Como parte do Projeto do Reino de Deus. De reintegração, inclusão, libertação de toda forma de opressão.

Neste sentido, quando os Fariseus e Mestres da Lei colocam Jesus à prova, exigindo que comprove sua autoridade; esquecem-se do que, de fato, consiste o sonho de Javé, enviando seu Filho. O Mistério da Salvação, a libertação do homem e da mulher diante das grandes injustiças teológicas e sociais existentes. É neste pensamento que devemos entender a fala de Jesus quando diz que o único sinal que terão é o de Jonas. O pregador relutante pela conversão de Nínive passa três dias no ventre do grande peixe (cf. Jn 2,1-11). Uma alusão à condição de morte. Ao ser libertado dessa “quase morte”, anuncia a mensagem de Javé e converte todo um povo, a cidade de Nínive. O convite à conversão feito por Jonas, liberta aquele povo da consequência de seus pecados. O coração de Deus se abranda e desiste de castigar Nínive. Mesmo sabendo que o Livro de Jonas é uma metáfora, podemos aproveitar a mensagem. Aqueles que atendem ao anúncio da Palavra, mudam sua mentalidade e vida, reconstroem sua história. Jonas anunciou o chamado à conversão. Jesus anuncia a Boa Nova.

É no Mistério Pascal de Jesus que deve se centrar nossa fé. Já o Primeiro Testamento nos anuncia que esse é nosso caminho. O Cântico do Servo Sofredor, em Isaías, nos ensina que nosso Deus é parceiro dos sofredores (cf. Is  42,1-7; 49,1-9; 50,4-9; 52, 13-53,12). Esperança dos oprimidos. Para uma libertação definitiva, Jesus veio até nós. Sinaliza a esperança eterna. Além de sua mensagem de paz e de uma comunidade humana fraterna e justa, seu sacrifício pascal nos liberta de toda forma de prostração humana. Quando Jesus faz alusão ao sinal de Jonas é um anuncio de sua morte e, consequentemente, sua Ressurreição.

As primeiras comunidades cristãs compreendem a morte de Jesus na linha da tradição do martírio dos profetas. Compreendem-na diretamente articulada com a morte dos profetas (cf. Lc 11,49-51; 13,14; 1Ts 2,14; At 7,51ss). Ao mesmo tempo, por estarem sendo perseguidas, as comunidades se compreendem no seguimento de Jesus. Esta era uma interpretação do Sacrifício Pascal em proximidade com a martiria profética.

Há muitos textos do Segundo Testamento que apontam para o sentido da morte de Jesus na linha da expiação dos pecados e do sacrifício para a salvação do gênero humano. Essa interpretação acabou influenciando os relatos da Última Ceia (cf. Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Jo 6,51-58; 1Cor 11,23-26). Jesus é visto como o Justo, o Inocente, que com sua morte estabelece uma nova relação entre o ser humano e Deus. Sua morte é vista como redentora, expiatória, sacrifical. Alcança o perdão dos pecados e inaugura uma nova e definitiva aliança de Deus com seu povo.

Outros textos do Segundo Testamento apontam na direção da morte de Jesus como um ato de solidariedade e criador de solidariedade. Sua morte, livre e solidária, é apontada como dom de si (cf. Jo 3,16; 12,49-50), como dom de amor (cf. Jo 10,11-15; 15,13), como dom gratuito (cf. 1Jo 3,16). Como acontecimento gerador de solidariedade, a morte de Jesus, a partir desta interpretação, exige o seguimento. Ela nos liberta da Lei e mostra que estamos livres para amar. Liberta-nos da falsa imagem de Deus e do terror paralisante e torna-nos corresponsáveis pela implantação da justiça no mundo. O Espírito do Ressuscitado nos é dado para podermos refazer, na história, o caminho de Jesus.

Por fim, gostaríamos de dizer que o texto de Mateus, proposto pela Liturgia de hoje, nos propõe um aprofundamento no sentido da morte de Jesus, em todas as abordagem elencadas acima. É preciso compreender sua relação com nossa redenção e o inaugurar de uma nova realidade. Enquanto os Fariseus e Mestres da Lei queriam uma prova da autoridade de Jesus, ele apresenta – de forma análoga – qual o Projeto de Deus que se realiza nele. Ao contrário daqueles que defendem uma teologia do Deus-poder, Deus do fantástico; Jesus propõe a imagem de seu Ábba, seu Paizinho. Pai da Misericórdia. Este Pai não se revela no fantástico. É sinal transformador do cotidiano, como bem nos ensina Thomas Merton. O signo, o sinal, proposto por Jesus é o da transformação integral do homem e da mulher, fazendo de suas vidas, testemunho real do Mistério. O Reino de Deus está no meio de nós!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: