“Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” | Reflexão sobre Mt 12,46-50

Por Hermes Fernandes


Neste Sábado, da 15ª Semana do Tempo Comum, a Igreja lembra nossa Mãezinha do Céu, sob o nome de Senhora do Carmo. Conforme nos ensina a hagiografia católica, Nossa Senhora do Carmo é uma devoção intimamente ligada à espiritualidade dos carmelitas. Esta espiritualidade tem origem no século XII, quando um grupo de eremitas começou a se formar no monte Carmelo, na Terra Santa, iniciando um estilo de vida simples e pobre, ao lado da fonte de Elias. A vida religiosa consagrada carmelita irá se estender ao mundo todo, até hoje. A palavra Carmo, corresponde ao monte do Carmo ou monte Carmelo, em Israel, onde o profeta Elias se refugiou. O sentido originário da palavra significa jardim.

A ordem dos carmelitas venera com carinho o profeta Elias, que é seu patriarca, e a Virgem Maria, venerada com o título de Bem Aventurada Virgem do Carmo. Devido ao lugar, esse grupo foi chamado de carmelitas. Lá, esses eremitas construíram uma pequena capela dedicada à Nossa Senhora do Carmo, ou Senhora do Carmelo.

Posteriormente, os carmelitas foram obrigados a ir para a Europa fugindo da perseguição dos muçulmanos. Aí se espalhou ainda mais a Ordem do Carmelo.

Oportunamente, a Liturgia de hoje nos apresenta o Evangelho de Mateus 12,46-50. Podemos enumerar possíveis paralelos deste texto em Mc 3,31-35 e Lc 8,18-21. Na sequência lógica da narrativa de Mateus, esse episódio parece fora de contexto. Pode nos sugerir que seja um acréscimo, para que não se perca o tema, uma vez que, logo após esse relato, inicia-se a longa série de parábolas em Mateus. A rigor, esta perícope é mais oportuna como anexo ao capítulo 10, que se refere ao discipulado. O fato de Jesus afirmar que sua mãe, irmãos e irmãs seriam todos aqueles que ouvem sua mensagem e a põem em prática, é de grande importância. Tanto o é que este episódio também é apresentado pelos outros dois sinóticos, conforme enumeramos acima. O cerne da mensagem desse fragmento de Mateus é um paralelo que o Mestre faz com sua família, enquanto referencial genético, e a nova família, enquanto filhos e filhas de Deus. A comunidade de discípulos e discípulas que se reúne ao redor de Jesus fará parte da referencialidade humana e messiânica. Tanto o é que estes que agora se juntam a ele, tornam-se igualmente fundamentais à sua história, tal qual sua família, isto é: sua Santíssima Mãe, São José, seu protetor; seus primos, primas, tios, tias. A comunidade de Jesus fará parte da história do anúncio e da construção do Reino de Deus. A Família de Nazaré e a Família Cristã se tornarão uma só. Igreja, povo de Deus!

Neste sentido, vale sublinhar que o evangelista não pretende mostrar, nem criar oposição ou rivalidade entre os familiares de Jesus e a comunidade dos discípulos. Ele quer apenas ajudar sua comunidade a compreender que, aceitar a proposta de vida de Jesus, implica assumir uma maneira diferente de viver, com novos critérios de pertença e relação. É isso que fica claro com a resposta de Jesus: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,49b-50). Com essa afirmação, ao invés de menosprezar seus familiares, ele está dando a oportunidade de também eles entrarem na dinâmica do Reino de Deus. E, ao mesmo tempo, afirma que qualquer pessoa, independente da origem, pode fazer parte da sua família.

Para fazer parte da comunidade de Jesus, o único critério e exigência é tornar-se discípulo ou discípula. Para isso, é necessário ouvir a sua palavra e fazer a vontade de Deus. Se trata de uma regra sem exceção. A adesão ao Reino exige uma conversão completa, ou seja, mudança de mentalidade, inclusive na concepção de família. O seguimento a Jesus não comporta meios termos. Seu projeto de vida exige tomada de decisão.

O Senhor nos chama a uma intimidade profunda com ele, pois sem isso, podemos até ter grandes estruturas, programas, mas não cumpriremos a nossa tarefa missionária a caminho do Reino definitivo. O Documento de Aparecida nos mostra que a missionariedade nasce justamente deste convite à intimidade que o Senhor nos faz para caminhar com ele. Fazer parte de sua história, assim como o fez a Família de Nazaré. É um grande desafio! Não podemos entender essa experiência por relativa, ou simbólica. Deve ser uma tarefa diuturna, cotidiana, para encharcar o nosso coração da força dessa intimidade. Há de se partir sempre dessa experiência de encontro pessoal com Jesus, para que a missionariedade nos coloque no coração do mundo.

Somos família de Jesus. Evangelizadores, missionários e missionárias. Ungidos e enviados.

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