Misericórdia ou Lei? Viver pelos valores de Deus, ou pela imposição legalista humana? | Reflexão sobre Mt 12,1-8

Por Hermes Fernandes

Estamos na Sexta Feira da 15ª Semana do Tempo Comum. Mais uma vez o Evangelho nos mostra o confronto de Jesus com os Fariseus. Mateus 12,1-8 nos oferece a dialética entre o coração de Deus e o coração dos homens. A quem devemos atender em nosso agir? O que realmente importa: a misericórdia ou a Lei?

Os Fariseus acusam Jesus de permitir que seus discípulos violem o sábado, preceito do Decálogo (cf. Ex 20,10), tido em máximo grau de importância depois do exílio. Este preceito, conforme a teologia do Templo, era tão importante que, em certo fato narrado pelo Primeiro Livro dos Macabeus, alguns homens se deixaram matar por não achar digno e legítimo se defender de seus perseguidores em dia de sábado (cf. 1Mc 2,31-32). Preferiram a morte por obedecer o preceito, do que a punição em contristá-lo. Segundo a Lei, violar o sábado era delito punido por morte (cf. Nm 15,32-36; Ez 20,13). Aqui está claro que se trata de uma interpretação fundamentalista da vontade de Javé.

Assim como os Fariseus, nossa sociedade e – até mesmo – a comunidade cristã, tende a limitar a graça. Desejam contristar o Espírito de Deus (cf. Ef 4,30). Limitar sua ação, segundo critérios humanos. Ou, desumanos. Pode ser que o contexto em tempos hodiernos seja diferente. Outrossim, a questão não se difere ao todo. Quantas vezes não fomos questionados se este ou aquele irmão é digno da graça? Quantas vezes não se julga o beneficiado de uma ação de misericórdia por não ser-lhe mérito? A graça limitada à Lei. O Amor de Deus rebaixado à meritocracia. Assim como Jesus não podia curar nos dias de sábado, os discípulos não podiam saciar a fome, conforme o relato do Evangelho de hoje; pessoas em situação de rua são julgadas como não merecedoras de auxílio material por sua forma de vida. Dizem que são vagabundos, bêbados e drogados. Escolheram o sofrimento. Tudo muito fundamentado em doutrina e teologia. Claro que estamos a usar de ironia! Deus não nos ama por nossos méritos e, sim, por sua infinita misericórdia. Há quem julgue e condene em nome da Lei de Deus. E ele? Ama loucamente. Loucura de Cruz (cf. Jo 15,13).

O Evangelho nos provoca hoje: a quem os discípulos deveriam atender? À necessidade essencial humana por alimento, ou à Lei? Muitas vezes, e de diferentes formas, nosso legalismo ameaça a vida e, em casos extremos – mas não raros – chega a matar. Os discípulos deveriam se alimentar. Nada importa se era sábado.

O alimento que os discípulos buscavam pode ser entendido por nós de forma mais abrangente. Consideremos que não sejam as espigas da narrativa de hoje. Imaginemos que seja o pão espiritual, o Pão Eucarístico, e o acolhimento. Quantos não são nossos irmãos e irmãs que são interditados na comunhão plena na Igreja, em razão de alguma lei? Há quem defenda, com ardor apologético, que a Igreja não deve flexibilizar sua abordagem com os casais em segunda união, com os homossexuais, com os taxados como pecadores públicos, que – ainda hoje – são marginalizados e até excluídos em nossas comunidades. A dignidade, o afeto e a acolhida, devem ser negados a aqueles e aquelas que a moralidade, cheirando a moralismo, marginaliza. Seria o Pão Eucarístico mérito dos santos? Dos puros? Dos que atendem às expectativas de normalidade? Afinal, o que pensa Deus? Acolhe ou condena? Afasta os que, por motivos diversos, fazem escolhas que nem todos aprovam? E mais: onde está o Ábba – o Paizinho de Jesus – quando as portas da Igreja são fechadas e a comunhão negada aos que não correspondem a uma moral excludente e legalista?

Precisamos redescobrir Jesus. O Nazareno, caminheiro do Reino. Este Jesus que a todos acolheu, amou, perdoou, incluiu. Na Igreja de Jesus todas as portas estão sempre abertas. Aos que nela se apresentam, desejando acolhida. Nós, seguidores e seguidoras dele, não podemos nos arrogar o direito de administrar a entrada em sua Casa. Se deixarmos que o legalismo, o moralismo e o olhar de condenação pautem nosso agir; poderemos ser alvos de outra invectiva de Jesus dirigida aos Fariseus: “Ai de vós Fariseus, hipócritas! Fechais aos outros o Reino dos Céus, mas vós mesmos não entrais e não deixais entrar aqueles que desejam.” (Mt 23,13-14).

O Reino de Deus é para todos. A misericórdia do Pai não se sujeita à Lei.

2 comentários em “Misericórdia ou Lei? Viver pelos valores de Deus, ou pela imposição legalista humana? | Reflexão sobre Mt 12,1-8

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    1. Minha cara senhora,
      Irei responder à sua colocação com palavras do próprio Papa Francisco. Penso que o Sumo Pontífice sabe o que é correto ou não. Vejamos:

      “O Senhor, com sua graça, nos faz dar frutos, mesmo quando o solo está seco devido a mal-entendidos, dificuldades ou perseguições, ou reivindicações de legalismo ou moralismo clerical. Este é um solo estéril.” (Papa Francisco, Oração do Angelus, 21 de março de 2021);

      “A teologia moral não pode refletir apenas na formulação de princípios, de regras, mas precisa ser proativa diante da realidade que ultrapassa qualquer ideia.” (Papa Francisco, Abril de 2021);

      Neste sentido, minha cara, consonante com o Papa, afirmo que não podemos fechar as portas da Igreja, nem dos nossos corações, a qualquer grupo de pessoas. Não podemos nos arrogar o direito de julgar. Ao contrário, devemos amar incondicionalmente. Amar significa, também, respeitar as escolhas que o outro faz.

      Em tempo: meu texto não defende o homossexualismo. O que ele faz é dizer que amo a todos os humanos e humanas, indiferentemente de suas escolhas. E acredito que esse deve ser o agir da Igreja, pois é concomitante com o Evangelho.

      H. F.

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