“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” | Reflexão sobre Mt 11,28-30

Por Hermes Fernandes

Hoje a Liturgia nos oferece o Evangelho de Mateus 11,28-30. Este trecho reflete uma promessa de Jesus. Diante dos sofrimentos de nossas vidas, os fardos; ele nos promete descanso, alento, força. A palavra jugo usada por Jesus é muito apropriada. Reflete peso sobre nossos ombros em muitos sentidos. Vejamos!

Nos tempos de Jesus, ou mesmo antes dele, não só os animais usavam jugos – uma espécie de canga, um aparato utilizado para carregar peso sobre os ombros. Conforme nos explica o biblista jesuíta Luís Alonso Schönkel[1], os homens também usavam o jugo como exercício de escravidão. Era um jugo curvo de madeira, apoiado com almofadas sobre os ombros, que servia para carregar cargas equilibradas. A imagem é frequente no Primeiro Testamento, podendo referir-se à Lei (cf. Jr 2,20; 5,5 etc), à tirania estrangeira (cf. Is 10,27; Jr 27,8 etc). Quando do memorial da escravidão do Egito, a literatura do Primeiro Testamento usava o termo cargas no mesmo sentido (cf. Ex 6,6). Neste sentido, quando Jesus se refere ao jugo e ao fardo, alude aos sofrimentos impostos. Seja pela Lei judaica que marginalizava e oprimia os pobres (sobretudo, mulheres) e outras formas de tribulações psíquicas e sócio-políticas. Aqui podemos entender, por analogia, à própria situação de ocupação romana, conforme podemos verificar de forma mais explícita nos textos de Lucas.

Na sociedade e religião judaicas nos tempos de Jesus, uma dialética se fazia presente. Esse conflito gerava ânimos exaltados, insegurança, medo. O Império Romano vivia sob a ideologia da pax romana. Conforme o pesquisador Wengst (1991, p. 18-33)[2], o sistema romano estava ligado ao poder de comando que partia de Roma, ou seja, uma paz determinada e vista a partir do dominador. Os líderes da sociedade e religião judaicas propunham que o bem poderia advir da ocupação romana. Ao povo, não havia essa alternativa. Aos que sofriam, a pax romana, a dita “Idade de Ouro”; não passou de uma época de opressão, de uma paz manchada de sangue. “Uma paz estabelecida e mantida com meios militares e acompanhada de rios de sangue e lágrimas, cuja dimensão não se pode imaginar” (WENGST, 1991, p. 18-33). Era uma paz que camuflava toda e qualquer atitude hostil do Império. Uma farsa que iludia ao povo. Camuflando o sofrimento por uma pedagogia do amor à chibata.

Neste contexto de sofrimento, Jesus propõe uma palavra de esperança. Não obstante os opróbrios impostos pela teologia do Templo, que marginalizava e excluía; e pela ocupação romana, que cerceava as liberdades e explorava o povo – relegando a Palestina à condição de colônia; o Messias dos Pobres propõe-se ser agente de libertação. Esperança aos acabrunhados. Alívio, face à tanta desilusão. O Povo vivia sua nênia, seu canto de lamentação, somando sua voz aos poemas atribuídos ao Profeta Jeremias: “Todos vós que passais pelo caminho, atentai e vede: será que existe alguma dor igual a minha dor?” (Lm 1,12a). Em resposta, eis que nos diz Jesus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30).

Em consonância com a palavra de Jesus, a Igreja deve postar-se ao lado dos sofredores. Sendo alento e agente da esperança. Esse mister está sublinhado com trato especial no pontificado de nosso amado Papa Francisco. A Igreja do Brasil, extensivamente da América Latina e do Caribe, pela Conferência de Aparecida, reafirmou este compromisso com os sofredores. Em face da dura realidade de miséria e pobreza geradas pela injustiça social, assume-se essa opção também na defesa da ecologia, pois quem mais sofre com a devastação da “nossa irmã e mãe terra” são os pobres, especialmente as mulheres, os camponeses e os indígenas. Podemos também verificar, à luz da opção pelos pobres, todo o anseio por mudanças manifesto pela Igreja, em comunhão com o sonho de nosso Papa por uma Igreja pobre, com os pobres. Estes, antes invisibilizados, hoje estão se fazendo presentes indicando a necessidade de mudanças estruturais assim como a possibilidade de um outro mundo possível, para que haja vida abundante para todos os seres humanos e também vida para toda a natureza.

Toda a Bíblia é grande promessa de salvação. A mensagem bíblica se inicia com significativo anseio de libertação: uma terra onde corre leite e mel. A vida de Jesus de Nazaré foi inteiramente voltada para a libertação dos pobres e excluídos de seu tempo (cf. Mt 9,35-36; Lc 4,16-21; Mt 11,2-6; Lc 7,18-23) e pode ser resumida na expressão que o evangelista João pôs na boca de Jesus, o Bom Pastor: “Eu vim para que todos e todas tenham vida e tenham vida em abundância” (Jo 10,10). A 5ª Conferência do Episcopado, ocorrida em de Aparecida, elegeu a vida como o grande objetivo a ser defendido. E essa defesa da vida, em todas as suas dimensões, deve ser fruto do seguimento de Jesus de Nazaré, proclamado o Cristo, o Senhor, por aqueles e aquelas que são seus discípulos e discípulas, missionários e missionárias. A opção pelos pobres e excluídos de nosso continente latino-americano e caribenho é a marca de nossa Igreja e tem o selo dos nossos mártires que, por amor aos irmãos e irmãs, deram seu sangue como Jesus o fez em favor da vida de todos. Devemos entender nosso discipulado, nosso seguimento do Cristo, sempre a partir de nossa realidade.

Concomitantes com a mensagem de Jesus no Evangelho de hoje, devemos – todos nós – optarmos pelos excluídos, sendo instrumentos de inclusão e alento face aos seus sofrimentos. Em nosso agir pastoral, as palavras dele devem se fazer realidade.

***

[1] Pe. Luís Alonso Schönkel nasceu em Madrid, Espanha, aos 15 de fevereiro de 1920. Faleceu em Salamanca, aos 10 de julho de 1998. Foi um sacerdote e estudioso Jesuíta espanhol que se dedicou à pesquisa da Sagrada Escritura, tendo vários livros publicados, dos quais, se destacam o Dicionário Bíblico Hebraico-Português (Publicado pela Editora Paulus no Brasil) e a Bíblia do Peregrino, também publicada pela Paulus.
[2] WENGST, Klaus. Pax Romana: pretensão e realidade. Tradução de Antônio M. da Torre. São Paulo: Paulinas, 1991.

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