Experimentar Deus pela pedagogia dos simples | Reflexão sob a inspiração de Mt 11,25-27

Por Hermes Fernandes


Hoje a Liturgia nos apresenta o Evangelho de Mateus 11,25-27. Uma leitura e reflexão mais aprofundada desta perícope evangélica, nos fará perceber que a questão da revelação é o pano de fundo deste trecho evangélico. Jesus louva ao Pai por ter revelado o Mistério aos pequeninos. Os sábios, doutos nas ciências, perderam a perspectiva dessa revelação. Por que?

Sabemos que é visão comum dos quatro evangelhos que a ação do Messias se destina, preferencialmente, aos humildes. Os sofredores, abandonados, esquecidos, marginalizados; estavam sempre sob o foco preferencial de Jesus. Já no início do Evangelho de Mateus, a partir do capítulo 5, percebemos – pelo discurso das Bem aventuranças – que o Deus revelado por Jesus é o Pai amoroso dos humilhados. O Messias promete a felicidade definitiva para aqueles que eram pobres, humildes, mansos, oprimidos. É neste sentido que devemos entender o dado da revelação que nos é apresentado no Evangelho da Liturgia de hoje. Os sábios e doutos, dignitários do Templo, comunicavam Deus a partir da pedagogia do medo. Acomodados na cátedra religiosa, marginalizavam e excluíam aos que pensavam ser menos dignos que eles do amor de Deus. Jesus propõe uma nova forma de entender a experiência de Deus. Ver Javé como o castigador dos pecadores não correspondia com a Verdade a ser revelada por Jesus. Este Javé, libertador dos cativos e animador da constituição do Povo de Deus no Primeiro Testamento, é revelado por Jesus como Pai amoroso. Só compreende o amor, quem se despe de toda forma de poder. O amor é singelo, leve, gratuito. Não flerta com a dialética do crime e castigo. Ninguém mais apropriado para compreender a simplicidade de Deus do que os pequeninos. A estes, o Pai se revela na pessoa de Jesus, um Deus encarnado, Deus com a gente.

A Revelação de Deus, no Primeiro Testamento, segundo os autores bíblicos, tem seus acentos segundo as épocas da história. Esse caminho, nós o percorremos quando falamos das Alianças, pois a história é revelação enquanto interpretada em função da Aliança de Deus com o seu Povo. Assim, podemos falar da revelação de Deus, na criação, revelado como o Deus criador dos elementos do mundo. Podemos falar do santuário como o lugar no qual Deus se revela. Ao falar da Lei ela constitui a revelação da vontade divina (Dt 31,9-11). A revelação de Deus se dá através dos sacerdotes e profetas. Os sacerdotes são os intérpretes oficiais da Lei (Dt 33,10) dada a Moisés numa revelação direta (Nm 12,8). Aos profetas, Deus fala por enigmas, mas eles são objeto de uma vocação pessoal: eles denunciam as infidelidades à Lei. Deus também se revela neles anunciando o futuro (Is 41,22-23; Dn 2,28).

No Segundo Testamento, o tema da Revelação está essencialmente centrado na pessoa de Jesus Cristo e no plano de salvação eterna que ele veio revelar. Nos Evangelhos sinóticos: Mateus, Marcos e Lucas, o anúncio do Reino por João Batista encontra sua plena finalidade na própria pessoa de Jesus. Em Mt 11,25-27 Jesus é a revelação do Pai e dos mistérios de seu Reino. O Evangelho de Marcos (Mc 3,12) fala de um segredo messiânico cujo conteúdo não pode ser revelado antes da hora, mas, quando o Filho do homem aparecer (Lc 17,30), a verdade aparecerá (Mc 4,22). Desde agora, o mistério é revelado aos pequeninos e humildes (Mt 11,25; 16,17). No Evangelho de João encontramos várias maneiras de expressar a Revelação através dos verbos: conhecer, entender, ver, crer, ou através de substantivos como: palavra, verdade, vida, luz, glória. Jesus veio revelar o Pai (Jo 1,18) e, quanto mais ele se mostra servo, mais se revela o Senhor (Jo13, 3).

Nas Epístolas Paulinas, conforme (Rm 16,25; Ef 3,5; Cl 1,26), o mistério de Cristo escondido durante séculos é agora levado ao conhecimento das nações. Também o mistério da glória dos filhos de Deus deve ser revelado um dia.

No Apocalipse (o termo apokalypsis = revelação), Deus quer mostrar ao seu povo as coisas que devem acontecer. O mistério de Deus será consumado quando Cristo reinar sobre o reino desse mundo pelos séculos dos séculos (Ap 11,15).

A Igreja, povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Senhor, continuadora das ações do Cristo Ressuscitado, aspira a essa manifestação. Deus revela-se como aquele que vem. Ele é o Senhor da História. Ele a faz concorrer para seus fins: a destruição do mal e a consolação dos seus filhos e filhas.

Experimentar Deus, por seu Filho Jesus encarnado na história, é algo que ainda hoje se faz impossível a alguns doutos. Estão ensimesmados demais em sua sabedoria arrogante e opressora, para compreender a simplicidade de Deus. A esta experiência na simplicidade de Deus chamamos mistagogia.

Na prática da vida cristã, a mistagogia nos ajuda a percorrer o caminho de mistério da fé cristã. Ela é um caminho de integração dos batizados na fé e na comunidade cristã, que se dá de forma progressiva. É a abertura para o diálogo do cristão com toda a História da Salvação, com o encontro com Jesus Cristo e com a experiência das primeiras comunidades. É diálogo constante, sensível e fecundo de novas respostas e possibilidades. Jesus é o primeiro mistagogo e a nossa experiência cristã se encarna em uma determinada forma de viver, que reproduz a forma de viver que Jesus anuncia. Jesus Cristo, sacramento de Deus, se prolonga no sacramento do irmão e da irmã, como lugar privilegiado para o encontro com ele e nele com Deus.

Neste sentido, animados pela partilha da Palavra que a Liturgia de hoje nos inspira, possamos fazer uma experiência de Deus a partir da pedagogia de Jesus. Sentir o Pai da Misericórdia com o coração dos simples, dos pequenos, dos humildes. É preciso ter um coração de pobre, para beber das fontes da sabedoria dos pobres. Para tanto, como bem nos ensina nosso amado Papa Francisco, precisamos ser Igreja Pobre, com os pobres e para os pobres.

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