Não basta celebrar maravilhas, é preciso se deixar transformar pelo Evangelho | Reflexão à Luz de Mt 11,20-24

Por Hermes Fernandes

A Liturgia desta Terça Feira, da 15ª Semana do Tempo Comum, nos oferece o Evangelho de Mateus 11,20-24. Podemos ver o paralelo sinótico deste texto em Lucas 10,13-15.

A perícope evangélica que a Liturgia nos apresenta hoje (Mt 10,20-24), traz em si características do gênero profético de oráculos contra as cidades infiéis. Podemos ver similaridades nos livros proféticos do Primeiro Testamento. Perceber essa proximidade pelos “Ai de ti”. Indo fundo ao texto, temos concretamente esse julgamento comparativo tendo como pano de fundo Ez 16,46-48, o qual, compara a cidade de Judá com Samaria e Sodoma, dizendo que Judá superou estas duas últimas em “conduta depravada”. E, com o exílio babilônico vem, segundo a teologia da época, o castigo pela infidelidade de Judá. Neste sentido, as maldições de Jesus remetem-se ao castigo pela infidelidade, tal qual o imaginário popular judaico daquele tempo. Exegeticamente, podemos identificar os fundamentos argumentativos de Jesus por ser Tiro e Sidônia representantes do poderio comercial fenício (cf. Is 23; Ez 26-28; Zc 9,2-4). Por isso, estas eram consideradas modelo de cidades infiéis. Aqui fica a dialética do crime e castigo. A infidelidade e o exílio, a ocupação estrangeira, o cativeiro. São sob essas premissas que devemos entender a maldição proferida por Jesus. Podemos estender esse simbolismo para outras cidades, como é possível verificar nos oráculos, cheios de hipérboles, de Isaías (cf. Is 14,13-15). Assim, também Corazim e Cafarnaum, representam as cidades que recusaram a ocasião oferecida de se arrepender, pois os milagres de Jesus eram sinais que aludiam à necessidade de arrependimento e mudança de vida. Jesus sinaliza a ação misericordiosa de Deus, por seus milagres, como gestos que reintegram e ressignificam a vida dos que eram excluídos e marginalizados. A Galileia presenciou primeiramente esses sinais, essa proposta de vida plena do Reino. Todavia, rejeitou Jesus. Por isso as palavras dele foram tão duras.

Em nossas vidas, devemos ter ouvidos e olhos atentos aos sinais dos tempos. Assim como no tempo de Jesus, somos convidados a anunciar esses mesmos paradigmas do Reino que ressignificam a vida. Sobretudo, dos pobres, fracos, esquecidos; os últimos.

Em tempos de discursos de ódio e atos correspondentes, somos chamados a anunciar a Paz Inquieta do Evangelho. Esta paz não rima com comodismo. Não é ser avesso aos conflitos, mas impulsionarmo-nos à busca de uma paz advinda da justiça, da igualdade, da dignidade. A Igreja de Jesus deve estar comprometida com o bem estar dos filhos e filhas de Deus. Milagres não são atos fantásticos! A vida que vence a morte é o maior milagre. Uma sociedade livre de injustiças e guiada pelas pedagogias da paz e do amor, é o sinal mais concreto de que o Reino de Deus está no meio de nós.

Estamos muito distantes dessa realidade. Vivemos tempos sombrios. Onde se mata, somente porque o outro não acredita em seus mitos. Onde se aponta uma arma e se dispara porque alguém prefere a cor vermelha ao verde. A vida nada mais significa para alguns que seguem aos falsos messias. Das arminhas, dos fuzis mais importantes que o pão de cada dia. Messias de bravatas e gritarias, oponentes à Paz Inquieta de Jesus. A esta sociedade de assassinos, exploradores do trabalho dos pobres, destruidores da Terra-Mãe; se dirigem hoje as maldições de Jesus: “Ai de ti”, ai de vós, raça de víboras!

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