“E quem é o meu próximo?” | Reflexão sob a inspiração de Lc 10,25-37


Por Hermes Fernandes

Estamos no XV Domingo do Tempo Comum. A Liturgia de hoje nos oferece o Evangelho de Lc 10,25-37. Este é um dos mais marcantes textos bíblicos para nossa caminhada cristã. Tanto o é, que o Papa Francisco, em sua Encíclica Fratelli Tutti, usou desta perícope para inspirar sua Carta sobre a Fraternidade Universal. Somos todos irmãos! Também importa, à luz desse texto, entender que a Igreja em nossos tempos deve ser – sobretudo – Samaritana. Ir ao encontro dos que sofrem, acolhendo, curando suas feridas, agindo a partir da misericórdia. Ainda cabe sublinhar que nossa misericórdia se estende a todos os humanos e humanas, mesmo que nossas diferenças sociais, geográficas, antropológicas e religiosas possam nos parecer como que fronteiras de empecilho. O amor não tem fronteiras!

Para bem entender a mensagem do texto lucano de hoje, recorremos à sabedoria de nossa mui cara Ir. Izabel Patuzzo. Teóloga e professora, religiosa consagrada na Congregação Missionárias da Imaculada. A esta grande irmã, nosso sincero agradecimento por sua sabedoria partilhada. Vamos ao texto:

O episódio narrado por Lucas neste domingo ocorre no início da última subida de Jesus para Jerusalém com seus discípulos. Jesus tinha acabado de dizer-lhes que Deus revela sua sabedoria aos simples, ocultando essas coisas aos sábios e entendidos deste mundo. E agora um representante dos juristas aparece para pô-lo à prova. Mateus e Marcos narram esse episódio com alguns detalhes diferentes. Somente Lucas destaca que é um jurista que faz a pergunta a Jesus, e somente nesse Evangelho se estabelece uma conexão entre o diálogo do jurista e a parábola do bom samaritano.

Ao ser colocado à prova, Jesus conduz o legista a encontrar a resposta à sua pergunta nas próprias Escrituras, o que ele faz com exatidão, citando o texto do Deuteronômio, o Shemá. Jesus conclui a questão com um dito enfático: ‘Faze isso e terás a vida eterna’. Seu complemento é uma declaração solene de como podemos chegar à vida eterna. Jesus é incisivo, não deixa margens para a dúvida, pois a resposta do jurista é uma citação. Portanto, Jesus evidencia que o seu ensinamento se fundamenta nas tradições do Antigo Testamento, que eram essenciais para qualquer israelita. Diante da segunda pergunta do legista, Jesus responde com a parábola do bom samaritano.

Essa parábola narrada por Jesus marca a segunda parte do episódio. Jesus a situa na estrada de Jericó, que fica a uns 30 quilômetros de Jerusalém. Naquele tempo, era um caminho considerado perigoso, com frequentes assaltos. O personagem é um desconhecido, do qual Jesus dá poucos detalhes. É apenas um homem ferido por salteadores, deixado à beira do caminho quase morto.

Na parábola, Jesus retrata o comportamento próprio do cristão. É um exemplo que ele põe diante de nós. Essa analogia é para ser posta em prática. Os recursos narrativos para construir a trama bem como a caracterização dos personagens têm como único objetivo levar os ouvintes a praticar o que se descreve na parábola. O bom samaritano age movido por profunda compaixão. Ninguém estava ali para aplaudir sua atitude, nem mesmo o ferido à beira da estrada – porque, ao que parece, estava inconsciente. Próximo é todo aquele que encontramos pelo caminho e que necessita de nossa compaixão, de nosso cuidado, independentemente de sua origem étnica ou religiosa. É alguém que depende de nós para ter vida digna.

A dupla pergunta do jurista é transformada em dupla resposta de amor, como norma de conduta para os discípulos. O amor a Deus não pode ser perfeito se falta o amor ao próximo. O bom samaritano passou por cima dos regulamentos de impureza estritamente observados pelos sacerdotes e levitas de seu tempo, os quais, porém, muitas vezes eram rituais vazios de compaixão. A compaixão do protagonista da parábola constitui um exemplo bem preciso do que devemos fazer para herdar a vida eterna e se torna um paradigma no caminho do discipulado. A pedagogia de Jesus tem por fim ajudar o jurista e sua audiência a responder a perguntas fundamentais: Que te parece? Quem se fez próximo? Ele não dá a resposta, mas, diante da resposta que recebe, põe as exigências: ‘Vai tu e faze o mesmo’.

A pergunta do mestre da Lei é típica dos doutores: muito acadêmica. Ele desejava uma resposta com clareza doutrinal. Jesus leva-o a refletir a partir do coração, e não da racionalidade. Trata-se de pôr o amor no centro de nossa ação. Sua resposta nos faz refletir que Deus deve ser o centro de nossa vida, e o amor aos outros vem naturalmente, como consequência. Trata-se, portanto, de fazer que o amor percorra as coordenadas fundamentais de nossa existência, traduzindo-se em obras concretas que transformem também a vida das pessoas que precisam de nós. O amor deixa suas marcas positivas, tanto em nossa vida como na daqueles que nos rodeiam. Permito que minha vida seja pautada por ações que me encaminham para a vida plena com Deus e com os irmãos e irmãs?“[1]

Gostaríamos de concluir, lembrando as palavras de nosso amado Papa Francisco:

“O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos males, que se tornam cada vez mais globais. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum.” [2]

O individualismo destrói e ilude. Não faz parte da ética do caminhar cristão. Que ao exemplo do Bom Samaritano, aprendamos a ser uma Igreja samaritana e servidora para o bem comum de todos e construção do Reino de Deus.

***

[1] Ir. Izabel Patuzzo, in: Vida Pastoral
[2] Fratelli Tutti, nº 105

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