“Não tenhais medo” | Reflexão sobre Mt 10,24-33

“Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus.”
(Mt 10,32)

Por Hermes Fernandes

Neste Sábado da 14ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos oferece o Evangelho de Mateus 10,24-33.

O texto sagrado de hoje é uma continuação do que tivemos ontem na Liturgia. Nele, Jesus adverte aos seus discípulos sobre as perseguições que sofreriam em razão do anúncio do Evangelho. Podemos encontrar paralelos da perícope de hoje em Mc 4,22; Mc 8,38; Mc 9,26; Lc 8,17; Lc 12,8-9; Lc 21,18. Sob a perspectiva teológica, podemos ainda enriquecer a mensagem evangélica de hoje com 2Pd 3,14; 2Tm 2,12; Ap 2,10; Ap 3,5; At 27,34.

Os novos paradigmas propostos por Jesus afetam as estruturas estabelecidas. Estruturas que marginalizam e excluem os pobres. Sobretudo, as mulheres. Jesus deixa clara sua opção pelos empobrecidos, sua dinâmica de acolhida a todos e todas. Em Jesus, o poder – religioso e político – não pode subjugar a misericórdia. A Lei maior é o amor e toda ação e sentimento consequente deste que é o Projeto de Deus: Amor sem medida.

Os partidos político-religiosos em que se dividia o povo, sendo eles: Saduceus, Fariseus, Herodianos e Zelotes; as classes religiosas de reconhecimento, sendo elas: sacerdotes, levitas, escribas e doutores e – ainda – as estruturas de poder, tais quais o Sinédrio, o Sumo Sacerdócio, guardas e administradores do tesouro do Templo, além dos mestres da Lei; todos eles, viam-se diretamente afetados pelas propostas de Jesus. Todos os grupos que visavam o poder no tempo de Jesus procuravam, de uma forma ou de outra, dominar. A imagem do Messias que o povo também construía era a partir da ideia de poder. Em tempos de ocupação romana, o povo – mesmo os mais humildes – esperavam um Messias que libertasse a Palestina dos opressores estrangeiros. Não é atoa que frisavam a origem desse messias ligada à dinastia davídica. Assim como Davi consolidou a monarquia dos reinos do sul e do norte, aproximadamente século X a.E.C; seu descendente, o Messias, deveria vir e expulsar os opressores romanos.

Contrariando estes dois públicos, os poderosos e os humildes, Jesus oferece uma mudança de mentalidade. Confronta os poderes constituídos do Templo e as expectativas dos humildes. Jesus anuncia um Reino onde a lei está sujeita à misericórdia. A imagem de um Deus castigador é substituída pelo Abba, o Paizinho de Jesus. As punições, castigos, exclusões e marginalizações exercidas pelos detentores do poder do Templo; foram substituídas pelas ações reintegradoras e de resgate da dignidade humana. É neste sentido que devemos entender as curas de Jesus. Como uma forma de livrar os marginalizados da exclusão resultante da ótica marginalizante do Templo. Com isso, Jesus deslegitima o poder, para inaugurar um Tempo de Misericórdia. Quanto aos humildes, será clara a decepção que advirá da Cruz. O Messias Libertador da ocupação romana, será assassinado pelo mesmo braço repressor deste invasor estrangeiro. Muitos não entenderão o Mistério Pascal, entendendo a Cruz como derrota. Não como ato de libertação definitiva.

Neste complexo emaranhado de conspirações e luta por poder, o anúncio da Boa Nova de Jesus se faz um perigo. Por isso, Jesus insiste várias vezes na perícope de hoje: “Não tenhais medo!”. Vemos lá os versículos 26a; 28a; 31a. Não obstante os perigos que possam enfrentar, Jesus exorta a não temer em anunciar o Evangelho. Insiste por três vezes que seus discípulos devem manter-se firmes no propósito de construção do Reino de Deus. Vai além, prometendo: “todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus” (Mt 10,32).

Em nossos dias, devemos entender que as orientações de Jesus são pertinentes para todos nós. Ainda hoje, aquele que se opõe aos valores defendidos pelos muitos poderes que matam, se coloca em risco. Anunciar o Reino de Deus é defender a vida que se constrói com relações fraternas sustentadas pelo amor. Por isso, os cristãos e cristãs devem se posicionar contrários a aqueles e aquelas que destroem a vida, alienam a dignidade humana, frustram o sonho por uma Terra-Mãe preservada. Não há como ser discípulo e discípula de Jesus, compactuando com discursos de ódio e políticas de morte. Ser cristão e cristã não é uma questão de ideologia e sim uma postura de vida. Jesus não é uma mensagem, uma ideia. É um paradigma, um jeito de ser e de viver, para se construir uma sociedade mais justa e fraterna.

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